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It’s the dialectic…

Dezembro 27, 2010

Que critério presidiu à tradução do First as Tragedy, then as Farse de Zizek, por Da Tragédia à Farsa? Teriam as invocações comunistas do título assustado a editora? Mas esta nem sequer é dada a delíquios desta natureza. Seria a formulação original intraduzível para português? Mas assim perde-se completamente a referência ao 18 de Brumário de Napoleão Bonaparte. E como se isto não fosse suficientemente grave, perde-se igualmente a referência hegeliana que, com certeza para um homem como Zizek que fala hegelianês, constitui o pun do título. A tradução literal, como é mais que sabido, é “Uma vez como tragédia, outra como farsa”. E como é ainda mais sabido, a frase faz alusão à ideia de Hegel que Marx respigou nem ele próprio se lembra (Hegel sagt Irgendwo… – “Hegel diz algures”) segundo a qual um acontecimento ou personalidade histórica repete-se sempre duas vezes. E Marx acrescenta: Ele esqueceu-se de dizer: Uma vez como tragédia, outra como farsa.

Isto são coisas mais que conhecidas e não estou a dizer qualquer novidade. Extraordinário é a tradução que resultou em Da Tragédia à Farsa retirar (e com que argumento?) precisamente a ideia de repetição histórica, ideia essa que é o alfa e o ómega quer da afirmação hegeliana quer da reformulação marxiana subsequente.

Com o maior respeito pelo tradutor Miguel Serras Pereira, que admiro entre muitos, esta é uma solução brutalmente canhestra. Sobretudo enganadora.

Da Tragédia à Farsa, não apenas macula a fonte original, como lhe empresta um sentido duvidoso quer quanto à interpretação do sentido original marxiano, quer do seu fundamento hegeliano. Da Tragédia à Farsa é um processo unívoco; e na sua qualidade processual, apela para uma deslocação unidireccional no tempo. Ora a repetição faz parte, por assim dizer, da tripartição hegeliana, na qual se passa da aparência (forma como o espírito se revela primeiramente) para uma verdade subjacente a essa aparência e, finalmente, regresso à aparência como verdade dessa mesma revelação. A negação da negação. A correcção que Marx aplica, quando aplicada ao acontecimento histórico, releva da repetição formal dos acontecimentos do 18 de Brumário que levaram Napoleão ao poder e à instituição do império, e a similaridade do acontecimento de Luís Bonaparte. E em Zizek, onde se aplicam as duas necessidades? Primeiro, a tragédia, September 11th, que inaugura o século XXI; depois, a farsa, the finance meltdown, que lhe dá o mote. O que está em causa nas duas relações? A dialéctica, pois claro! Mas Da Tragédia à Farsa não invoca nenhum movimento dialéctico. E se existe herança que Zizek quer fazer sua é justamente a da dialéctica hegeliana, com pós de Lacan a enfeitar a coroação do “negativo do negativo”. Isto é óbvio para qualquer pessoa que se interesse por estes autores. Tão óbvio que quando dá de caras com a tradução do título First as Tragedy, Then as Farse, pela compostura desapropriadora de Da Tragédia à Farsa, não há medida que possa aquilatar do seu desconcerto e irritação. Verdade: o mundo não fica nem maior nem mais pequeno, depois deste acerto necessário. Mas a obra de Zizek merece algum respeito pelo investimento ideológico-político que nela se encontra. Falsear o seu espírito, é, por assim dizer, des-zizekear (numa convocação explícita das brincadeiras semânticas de Alice) a sua mensagem. E se alguém há que se apresente como o paladino de uma nova dialéctica, esse será (a par de Jameson) com certeza Zizek.

Certo. Podemos sempre remeter a discussão para canto, e dizer que se trata meramente de questiúnculas teóricas que não aquecem nem arrefecem. Mas aqui é exercer dupla violência sobre o sentido original do título de Zizek, ou não colocasse este (a par de Jameson) uma ênfase absolutamente inexorável no exercício da teorização. Ou não se desse o caso, de Zizek insistir na inversão da famosa Tese Décima Primeira sobre Feurbach, aquela que nos incita a mudar o mundo, em vez de o pensar. Para Zizek (bem assim como para Jameson) o que falta é pensamento sobre o mundo, pensamento que não caia facilmente na esparrela (que termo filosófico lindo!) da objectividade, mas que se assuma enquanto posição parcial e subjectiva de mudança desse mesmo mundo. Abaixo a passage a l’acte, viva o pensar o acto!.

Tudo somado, a tradução do título, como sai entre nós, aqui no Portugal portuguesinho, mata diversas vezes o livro de Zizek que, não sendo o seu expoente teórico – esse lugar encontra-se guardado para outros títulos – merece, aliás, exige, que lhe sejamos verdadeiros.      

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