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Em Alta

Dezembro 23, 2010

 

Levantou relativamente pouca celeuma. Quer dizer, pouca celeuma comparada, por exemplo, com aquele que se levantou em torno do escândalo dos aviões das Lajes. Pouca celeuma, ainda, quando cotejado com o escândalo dos submarinos, que merece, sem margem para dúvidas, trombones de divulgação.

E no entanto (ia a dizer i poi si mueve, mas era abusar da sorte) e no entanto, traz aquele cheirinho a podre que ultimamente evola-se de qualquer notícia de jornal.

A Alta de Lisboa, espaço eclético, assim baptizado pelo seu quê de charmant e lugar de potencial alto caché (como se usa na gíria imobiliária) vem agora escarrapachada nas páginas de todos os diários como negócio insultuoso para a edilidade e seus utentes. Parece que aquele gigantesco território teria sido doado para habitação social, e a câmara de Abecassis decidiu lá plantar prédios da gama alta. O coronel que doou a quintarola (gigante!) vexado com o procedimento interpôs acção em tribunal e passados uma porrada de anos, como é costume em Portugal, o tribunal deu-lhe razão, e lá se vê a CML obrigada a ressarcir a velha patente do exército em mais de uma centena de milhões de euros.

Um amigo chamou-me a atenção que esta coisa de negociatas com terrenos camarários nunca se faz sem contrapartidas. E a pergunta ocorre-nos prontamente ao espírito: por que razão doaria o coronel um terreno numa das áreas de maior potencial valorização da cidade de Lisboa? Teria sido levado pela pura abnegação cristã que lhe ditou a boa acção em prol dos desfavorecidos do barracame das duas musgueiras? Teria sido promessa por ter escapado ileso ao ultramar? Ou mais simplesmente, uma promessa à senhora de Fátima caso voltasse a ver a neta de bem com o padrasto? Nenhuma destas convenientes alusões sacrificiais conseguem explicar como é que se abre mão de um dos quinhões mais ricos da cidade de Lisboa para habitação social. E a prova que o não fez, foi que ao sentir-se lesado nos seus interesses requereu uma indemenização ultra milionária.

A tese do meu amigo tem o seu quê de teoria da conspiração. Mas, por isso mesmo, é a única que faz algum sentido nesta embrulhada. Segundo ele, certas negociatas que à partida são visivelmente perdedoras servem justamente para isso: para perder… mas mais tarde recuperar, ganhando no diferencial temporal. A coisa parece perversa, mas depois das revelações da wikileaks já nada nos deveria espantar, certo? E se o facto de ele ter doado o terreno durante um determinado executivo camarário, não tivesse mais do que o objectivo de pôr a Câmara em tribunal sabendo que na altura em que o pleito tivesse sido dirimido, outro executivo camarário arcaria com as culpas e com o ónus da negociata? E se as casas da gama alta tivessem sido construídas com o fito de colocar mais tarde a câmara em tribunal? Era dinheiro certo que não passava pelo risco do mercado.

Quem perde, obviamente, é a Alta de Lisboa, essa experiência-piloto interessantíssima de sincretismo classista. A verdade é que do projecto megalómano previsto, apenas 60% foi concretizado. O sincretismo classista tem, como era expectável, pernas curtinhas e as casas estão a ser vendidas a passo de caracol quando não se verifica uma verdadeira retracção da procura. Há quem diga que o problema é os tempos de crise em que vivemos. Sinceramente, prefiro acrditar que a “gama alta” só muito moderadamente gosta de viver rodeada de uma mancha de bairros sociais. Por muito belas intenções que presidam ao intuito urbanístico que se lhe encontrava subjacente, o factor “bairro social” pesa na desvalorização mercantil. E de que maneira. Pesa nas escolas; pesa nos tempos livres; pesa no futuro das crianças da “gama alta” cujos pais não desejam ver comprometido pelas más companhias.

Em resumo, quem ficou verdadeiramente a ganhar com esta trapalhada, foi o bom do coronel que um dia teve o altruísmo de doar um terreno para habitação social naquela que seria potencialmente a maior negociata imobiliária da cidade de Lisboa. E até foi – só que por via jurídica.

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