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Pão a pão, enche a galinha o papo

Dezembro 15, 2010

 

Nunca Cavaco teve a vida tão facilitada. Estes presidenciais vão ser um passeio no campo; um lanche em casa da avozinha; uma ida à Baixa para comprar rebuçados artesanais (sendo que esta, pelas dificuldades inerentes à escassez de lugares para estacionar o carro, é capaz de ser ainda mais complicada). A expressão anglo-saxónica é “Like taking a candy from a kid”. Mas sem o berreiro consequente, acrescentaria.

Cavaco vs Tiranossauros Rex Senilis vs Versão Portuguesa da Madre Teresa de Calcutá vs Homem da Luta Engravatado – vai ser melhor do que ver Wrestling mexicano with fixed odds. Cavaco merecia melhor (ou pior, consoante a perspectiva). Depois de uma presidência tremendamente asquerosa, merecia ter, pelo menos, alguma luta, algum esforço, o sabor a sangue da refrega, o suor de levantar a adaga e carregar contra o pelotão inimigo, uns pontapés no traseiro, uns calduços no cachaço… Mas não, Cavaco vai tê-la suave como um cuzinho de bebé passado a dodote.

O momento alto da noite? Ui, foram tantos! Felizmente que apenas vi o resumo, e destaco, sem margem para dúvidas, o momento da galinha. Nobre esgrimava com argumentos de fazer correrem lençóis de água de uma ravina madeirense: – A pobreza! Já alguma vez viu a fome? Teve com uma criança moribunda nos braços? Viu corpos estraçalhados a juncarem campos de batalha? E finalmente: uma criança a correr atrás de uma galinha para lhe tirar um bocado de pão do bico? (mas ter visto uma galinha esfomeada a correr atrás de uma criança, isso sim, já me parecia digno de menção)

Fosse Lopes uns anitos mais velho, e teria para replicar, eventualmente, alguns cenários da guerra colonial. Corpos despojados de vida; fome e miséria, era o que por lá não faltaria. Mas Lopes não tendo essa experiência guerreira, socorreu-se daquilo que lhe pareceu mais à mão: a sua aldeia natal, onde teria, segundo o relato, assistido a cenas de igual crueza senão ainda mais fatais. Depreendeu-se então que lá pr’ós lados de Coimbra teria Lopes avistado uma galinha com uma côdea de pão no bico a ser igualmente perseguida por uma criança esgaseada. E foi a galinha com o pão no bico que levou estes dois homens a quererem representar a nação. O mínimo que se pode dizer é que isto traz água no bico.

Não sei se Nobre vai atirar com a estória da galinha a Cavaco, podendo este sempre dizer que viu a verdadeira miséria lá pós lados de Boliqueime, isto ainda antes da família ter investido no negócio dos derivados de petróleo, vulgo, bomba de gasolina. Alegre pode sempre agarrar no mote e parir um livro com o título Galinha como Nós, onde discorre sobre o facto de estarmos todos neste mesmo desgraçado barco da condição humana que é a de fugirmos para não sermos devorados por crianças esfomeadas. Não poderá, no entanto, reconvir com uma outra qualquer galinha miserável, lá pós lados da sua terra natal; mas poderá sempre expandir comentários saborosos sobre os coq aux vin parisienses.

E pronto, estamos fodidos. Cavaco vai ter uma maioria tão absoluta (não que isso interesse para a cadeira presidencial) mas tão absoluta, que vamos andar a ouvir o seu séquito do psd a babar-se anos a fio com a “vitória retumbante do professor Cavaco Silva”. Volta Alegre, estás perdoado!

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