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Ich bin ein Relativist

Dezembro 13, 2010

As armadilhas relativistas são como minas antipessoais: quando menos esperamos, Bum!, rebentam-nos bem abaixo do cós das calças e levam-nos metado do corpo. Surgem dos sítios mais insuspeitos, como se tivessem sempre à cata de uma oportunidade para nos saltarem ao pescoço.

Dizia o Professor Machado Vaz que era compreensível que na Índia se proibissem as raparigas de usarem telemóvel, porque encaixava racionalmente na pretensão de controlá-las, visto tratar-se de um sistema de casamentos combinados, no qual, como sabemos, a mulher não tem voto na matéria na escolha do seu futuro cônjuge. Do outro lado, uma Inês Menezes que quase não continha o sentimento de indignação

(e note-se que Inês Menezes funciona como o contraponto ignorante e senso comum da sapiência de Machado Vaz, reproduzindo o dispositivo ancestral falocêntrico que ensina que o homem sabe ver para além das aparências, desdobrado em tantas outras dicotomias, tais como mulher-natureza, homem-cultura, logo homem-domínio, mulher submissão, etc… E isto, apesar de eu gostar muitíssimo do que diz o professor JMVaz)

perante uma tal passividade académica do professor, insistia que era incompreensível a proibição. Machado Vaz redarguia – Não senhora, aquilo faz imenso sentido, porque se o objectivo é controlar a vida sexual da rapariga, então o telemóvel é uma caixa de Pandora e, como tal, se deixado ao deus-dará, sabe-se lá que perigos pode ele potenciar!

O drama estava por conseguinte aberto a uma boa e velha dicotomização entre etnocentrismo e relativismo. De um lado, Inês Menezes não se conformava com o facto de poder haver uma tal proibição, fruto certamente de um tradicionalismo primitivo impensável nas sociedades ocidentais. Do outro, uma pressão (mesmo que inconsciente) para relativizar automaticamente o “outro” apenas e só porque se trata de “outro”.

O relativismo, sabêmo-lo pelos seus críticos, arrisca-se sempre a cair naquela aporia filosófica fundamental que diz que se tudo é relativo então a opinião que expressa essa necessidade de relativizar é ela própria relativa deixando por isso de ter qualquer pretensão de verdade ou sequer de justificação, auto-infirmando-se. Mas isto é o julgamento radical.

Mais prosaicamente, aquilo que o professor Machado Vaz expressava era uma cautela narrativa, chamemos-lhe assim. Cautela, porque baseada no imperativo da tolerância – preciso de compreender os actos dos “outros” através do seu próprio sistema simbólico, sob pena de, ao trasladá-los para uma representação que lhes é estranha, estar a violentá-los na sua racionalidade peculiar. Narrativa, porque, é narrando, ou seja, construindo um enredo com um mínimo de sequência lógica, que eu consigo compreender a necessidade da contextualização. Não se trata de narrar para que as coisas encaixem e dessa concatenação, ou sequência, eu compreenda finalmente o porquê de uma dada acção, valor, atitude, etc. Trata-se antes de narrar para justificar a própria necessidade de relativização. Isto porque, está bem de ver, a relativização só se aguenta no registo narrativo. Experimentem relativizar noutro registo (hipotético-dedutivo, indutivo, lógico-formal, etc) e vejam como o relativismo tem pernas curtinhas.

Mas estávamos no registo narrativo, e aí, o relativismo ensaiado pelo professor é de uma coerência límpida. É claro como água que, muito weberianamente, se compreendermos a articulação entre as orientações subjectivas dos indivíduos em questão estamos a caminhar em passo estugado em direcção à Verstehen. O problema da Vertehen, quando assim entendida, ou seja, quando relativizada, é que não nos permite dar o passo subsequente – julgar o próprio sistema simbólico no interior do qual estas orientações são compreensíveis. Longe de mim dizer que isto é a ilação que se pode retirar de Weber! Mas é sem dúvida a consequência que temos que aceitar emudecidos quando trilhamos os caminhos do relativismo. E todavia, sabêmo-lo porque nos confrontamos sistematicamente com isso, que o relativismo exige sempre um esforço adicional de falsificação. Suspeito que o professor Machado Vaz não concorde minimamente nem com casamentos combinados, nem com proibições falocêntricas, nem com sexualidades reprimidas. Todavia, perante o imperativo relativista, optou por silenciar uma tal orientação crítica, substituindo-a por uma compreensão ecuménica. Porém, nada nos obriga a isso, e a coisa pode (e deve) ser resolvida em dois passos necessários: primeiro, sim senhora, investiga-se o sentido que certas acções possuem no interior de um universo simbólico particular, e depois, com a maior naturalidade, esventra-se esse sistema simbólico, ou destruindo-o não deixando pedra sobre pedra ou colocando-lhe as ambivalências cá fora como tripas resequidas ao sol. No primeiro caso, o da destruição absoluta, incluiríamos, por exemplo, a ablação feminina; no segundo, o de revirar as ambivalências e torná-las alvo necessário de mofa, o caso dos telemóveis das raparigas indianas.

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