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I fought the law…

Dezembro 10, 2010

Em Londres “All hell broke loose”, frase que, como é do domínio comum, foi importada do Paradise Lost de Milton, no belo episódio inicial no qual Deus expulsa o diabo (seu anjo preferido) para as profundas do inferno. (Um pouco de cultura geral para começar). Ou, numa declinação mais portuguesinha dos acontecimentos: depois de porta arrombada vens gritar pr’á rua!

Recordam-se da comoção nos pubs e centros comerciais da velha Albion quando o Labour foi corrido a pontapé dos Commons e em seu lugar a melena oxfordiana de Cameron foi entronizada? Gostaram da festa não foi? – Fora com as mentiras piedosas do Labour de Blair – abracemos a terra prometida de Cameron e dos demolib! Francamente – é ingratidão a mais! Quer dizer: vir gritar para a rua; praticar actos de vandalismo; dizer mal das reformas do governo Cameron… Em resumo, escoicear a promessa de uma bela vida à sombra das privatizações dos conservadores… Mas o que é que estes gajos querem? Cameron prometeu reformas radicais – sanear o Estado (esse poiso de madraços pagos à custa do erário público), tornar a economia mais competitiva, dar emprego a toda a gente… E o populacho achou que aquilo é que era – que iam devolver a honra perdida à velha Britânia, que os beatles se calhar regressariam com Lucy in Sky, que Diana montaria um corcel branco à entrada do Bunkingham P., que o The Office bateria Friends em recordes de audiências (algo que devia ser obrigatório). E por aí fora.

Agora parece que já não gostam. Ainda o novo governo dá os primeiros ares da sua graça, já os brits andam a partir tudo, como se tivessem sido enganados, como se julgassem que Cameron e sus Muchachos iam para o poder cantar serenatas ao british welfare. – Ai, não – eu não imaginava nada disto! Eu julgava que Cameron ia redistribuir os dividendos das multinacionais pelas escolas e jardins-de-infância e pela minha biblioteca no Goldsmith. Vejam bem que agora querem-me tirar o ano da sabática entre o fim do liceu e o começo da universidade (adolescente entrevistada numa das manifestações dixit). Devias, minha querida menina, ter comovido os teus papás antes que eles depositassem o seu voto no lavadinho Cameron. É que quando olhamos para estes estudantes, podemos ficar com a estranha impressão que eles vogam num espaço abstracto, entre as reivindicações revolucionárias próprias a uma postura académica e o próximo concerto dos Vampire Weekend. Mas não. Na realidade, vivem numa casa, com uma família, e fazem parte de uma comunidade qualquer onde as suas rotinas diárias geralmente se inserem. Porventura, muitos dos estudantes que agoram protestam, tiveram os seus repeitáveis pais a votar em Cameron quando a oportunidade se lhes ofereceu. Deveriam ter pensado nisso. Eventualmente, ter dado com os books na cabeça dos paizinhos quando estes expressaram, entre a soap das 9 da noite e uma ida ao Harrods, a vontade de “liberalizarem” o governo de sua majestade; deveriam ter-se oposto determinantemente, sob ameaça de não comparacerem ao aniversário da Avó em Hampstead village.  

De qualquer das formas, when all is done and said, vai ser sempre emocionante explicar aos filhos que aquele era o papá a levar porrada da polícia numa fria e nevoenta tarde londrina.

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