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WikiLicks

Dezembro 10, 2010

Não quero que o texto sobre a Wikileaks seja mal interpretado. E fiquei com essa sensação, após alguns comentários de um espectador atento. Por isso, alguns esclarecimentos são devidos, se não ao espectador atento, pelo menos a mim.

A Wikileaks tem uma função: dispersar informação ao ponto da irrelevância. A lista do Guardian é, a esse respeito, ilustrativa. Praticamente 90% do que lá vem publicado daria, num contexto de isolamento, para fazer correr rios de tinta. Cada uma daquelas revelações é um gigantesco escândalo quando tomada em separado e com tempo suficiente para reflexão. Mas a inundação de escândalos acaba, em virtude de um efeito perverso, por mitigar a intensidade de cada um quando embrulhados num monturo indistinto. Olhamos, lemos, e não sabemos para que lado nos virar. Concentramos a nossa atenção no Afeganistão e na corrupção dos seus líderes? Nos projetcos nucleares do Paquistão e no seu apoio ao radicalismo islâmico? Nos aviões da Nato e nos presos de Guantanamo? Nas questiúnculas cor-de-rosa entre os líderes mundiais? Nas trafulhices das pretensas democracias africanas? Nas potenciais guerras-civis no Médio Oriente?… É muito mundo de uma só assentada. Caso em que um excesso de transparência provoca exactamente o seu oposto: uma opacidade total.

Sabemos que o mundo é feio, tínhamos isso por certo. Sabemos que as pessoas não são boas e que Brecht há muito nos avisou que devemos depositar fé na humanidade com todas as cautelas. Sabíamos que não se enriquece por se ser bonzinho; e não se permanece no poder sem liquidar os adversários, para aí desde Séneca e Marco Aurélio. Sabíamos isto tudo. O que trouxe então de novo as revelações da Wikileaks? Por sabermos ficamos mais felizes? Por se terem revelado as tramóias, achamos que não se repetirão? O que vamos fazer com este manancial de informação para além de alimentar fantásticas caixas jornalísticas?

Ou talvez seja o contrário. Talvez estejamos saciados de escândalos e a passividade perante as revelações – nada de relevante aconteceu no mundo depois de “sabermos” – seja o sintoma dessa repleção. Que bom é sabermos tudo, e não podermos fazer nada – faz-nos sentir úteis.

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