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O efeito transparência

Dezembro 6, 2010

A pergunta sacramental, que deveria ser feita, repetida e reflectida, é por que razão Assange e a sua Wikileaks só agora começaram a leakar? Sintomático de uma era que se encanta com o acessório e deixa-se ultrapassar, numa modorra contentinha, pelo essencial, é o facto de a pergunta não ter sido colocada, nem por comentador nem pelo homem comum que enfarda notícias de rodapé.

Muito gostaria eu de ter tido uma Wikileaks nos tempos de sua alteza George W. Bush. Porém, o providencial Iago não estava de serviço e contra todas as evidências lá embarcámos no canto de guerra e fomos cavalgando B52 pelo deserto afora. Onde estava a Wikileaks quando era realmente necessária? Quando precisávamos de desmascarar o ardil das armas de destruição maciça? Por que razão temos Wikileaks para saber que Cadafi come a enfermeira ucraniana ou que Putin é autoritário, algo que até uma criança de seis anos atenta aos cabeçalhos do New York Times descobriria sem dificuldade? Assange e a sua trupe afirmam-se abnegados defensores da liberdade de expressão. Talvez sejam. Mas confesso que o timming parece ser particularmente inofensivo. Não existe nenhuma grande questão internacional sobre a qual pairem dissenções e terríveis conflitos interestatais tenham que ser dirimidos. Não vivemos um período de sensível tensão internacional em torno de distribuições de poder. Ou vivemos tudo isso, mas não no olho de uma crise. E no entanto, Assange prega a transparência total lá do fundo do seu bunker da segunda guerra mundial.

A maneira como a informação vai chegando à Wikileaks parece demasiado fácil. Um soldado de 23 anos, especialista em informática, chateado com a vida, desata a leakar tudo o que é informação diplomaticamente embaraçosa. Onde estava este rapaz (ou um semelhante) quando de facto andavam a torturar presos em Abu-graib? Onde estava a Wikileaks quando Bush e a sua administração mentiam sistematicamente sobre o número de vítima civis no Iraque? Não estava. Talvez fosse mais complicado então; talvez as redes de segurança e vigilância da informação fossem mais protegidas. Talvez, talvez… De qualquer dos modos, que bom é saber que Merkel é indecisa e que Sarkozy é autoritário, algo que qualquer caricatura publicada nos últimos cinco anos comparando-o com Napoleão não desmentiria.

Em termos práticos a única coisa que a Wikileaks prejudica são as relações internacionais, diplomáticas, norte-americanas. O único impacto verdadeiramente significativo é em Hilary Clinton. O único sector da política mundial ao qual causa embaraços, é a administração Obama. Tudo somado, quem sai prejudicado desta enchente de fofoca governamental é o governo democrático liderado por Obama. Penso que é demasiada coincidência que, após uma estrondosa derrota contra a Tea Party, a administração Obama receba o golpe de misericórdia que é, nem mais nem menos, deixar à vista a sua inépcia para assuntos de segurança nacional. A Wilileaks, a sua gesta pela transparência (seja lá o que isso for) teve como principal efeito assegurar o canto do cisne da administração Obama. Porque uma coisa é certa, depois do ataque cerrado às políticas “socialistas”, como os ultra-conservadores designaram a reforma da saúde do governo democrático, e que tão bem colheu entre os norte-americanos, só restava mesmo era provar que a administração Obama era completamente canhestra em matéria de segurança nacional. A Wikileaks deu de bandeja aquilo que a Tea Party nem sonhava. Ou talvez não fosse assim tão acidental.

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