It’s the dialectic…

Que critério presidiu à tradução do First as Tragedy, then as Farse de Zizek, por Da Tragédia à Farsa? Teriam as invocações comunistas do título assustado a editora? Mas esta nem sequer é dada a delíquios desta natureza. Seria a formulação original intraduzível para português? Mas assim perde-se completamente a referência ao 18 de Brumário de Napoleão Bonaparte. E como se isto não fosse suficientemente grave, perde-se igualmente a referência hegeliana que, com certeza para um homem como Zizek que fala hegelianês, constitui o pun do título. A tradução literal, como é mais que sabido, é “Uma vez como tragédia, outra como farsa”. E como é ainda mais sabido, a frase faz alusão à ideia de Hegel que Marx respigou nem ele próprio se lembra (Hegel sagt Irgendwo… – “Hegel diz algures”) segundo a qual um acontecimento ou personalidade histórica repete-se sempre duas vezes. E Marx acrescenta: Ele esqueceu-se de dizer: Uma vez como tragédia, outra como farsa.

Isto são coisas mais que conhecidas e não estou a dizer qualquer novidade. Extraordinário é a tradução que resultou em Da Tragédia à Farsa retirar (e com que argumento?) precisamente a ideia de repetição histórica, ideia essa que é o alfa e o ómega quer da afirmação hegeliana quer da reformulação marxiana subsequente.

Com o maior respeito pelo tradutor Miguel Serras Pereira, que admiro entre muitos, esta é uma solução brutalmente canhestra. Sobretudo enganadora.

Da Tragédia à Farsa, não apenas macula a fonte original, como lhe empresta um sentido duvidoso quer quanto à interpretação do sentido original marxiano, quer do seu fundamento hegeliano. Da Tragédia à Farsa é um processo unívoco; e na sua qualidade processual, apela para uma deslocação unidireccional no tempo. Ora a repetição faz parte, por assim dizer, da tripartição hegeliana, na qual se passa da aparência (forma como o espírito se revela primeiramente) para uma verdade subjacente a essa aparência e, finalmente, regresso à aparência como verdade dessa mesma revelação. A negação da negação. A correcção que Marx aplica, quando aplicada ao acontecimento histórico, releva da repetição formal dos acontecimentos do 18 de Brumário que levaram Napoleão ao poder e à instituição do império, e a similaridade do acontecimento de Luís Bonaparte. E em Zizek, onde se aplicam as duas necessidades? Primeiro, a tragédia, September 11th, que inaugura o século XXI; depois, a farsa, the finance meltdown, que lhe dá o mote. O que está em causa nas duas relações? A dialéctica, pois claro! Mas Da Tragédia à Farsa não invoca nenhum movimento dialéctico. E se existe herança que Zizek quer fazer sua é justamente a da dialéctica hegeliana, com pós de Lacan a enfeitar a coroação do “negativo do negativo”. Isto é óbvio para qualquer pessoa que se interesse por estes autores. Tão óbvio que quando dá de caras com a tradução do título First as Tragedy, Then as Farse, pela compostura desapropriadora de Da Tragédia à Farsa, não há medida que possa aquilatar do seu desconcerto e irritação. Verdade: o mundo não fica nem maior nem mais pequeno, depois deste acerto necessário. Mas a obra de Zizek merece algum respeito pelo investimento ideológico-político que nela se encontra. Falsear o seu espírito, é, por assim dizer, des-zizekear (numa convocação explícita das brincadeiras semânticas de Alice) a sua mensagem. E se alguém há que se apresente como o paladino de uma nova dialéctica, esse será (a par de Jameson) com certeza Zizek.

Certo. Podemos sempre remeter a discussão para canto, e dizer que se trata meramente de questiúnculas teóricas que não aquecem nem arrefecem. Mas aqui é exercer dupla violência sobre o sentido original do título de Zizek, ou não colocasse este (a par de Jameson) uma ênfase absolutamente inexorável no exercício da teorização. Ou não se desse o caso, de Zizek insistir na inversão da famosa Tese Décima Primeira sobre Feurbach, aquela que nos incita a mudar o mundo, em vez de o pensar. Para Zizek (bem assim como para Jameson) o que falta é pensamento sobre o mundo, pensamento que não caia facilmente na esparrela (que termo filosófico lindo!) da objectividade, mas que se assuma enquanto posição parcial e subjectiva de mudança desse mesmo mundo. Abaixo a passage a l’acte, viva o pensar o acto!.

Tudo somado, a tradução do título, como sai entre nós, aqui no Portugal portuguesinho, mata diversas vezes o livro de Zizek que, não sendo o seu expoente teórico – esse lugar encontra-se guardado para outros títulos – merece, aliás, exige, que lhe sejamos verdadeiros.      

Em Alta

 

Levantou relativamente pouca celeuma. Quer dizer, pouca celeuma comparada, por exemplo, com aquele que se levantou em torno do escândalo dos aviões das Lajes. Pouca celeuma, ainda, quando cotejado com o escândalo dos submarinos, que merece, sem margem para dúvidas, trombones de divulgação.

E no entanto (ia a dizer i poi si mueve, mas era abusar da sorte) e no entanto, traz aquele cheirinho a podre que ultimamente evola-se de qualquer notícia de jornal.

A Alta de Lisboa, espaço eclético, assim baptizado pelo seu quê de charmant e lugar de potencial alto caché (como se usa na gíria imobiliária) vem agora escarrapachada nas páginas de todos os diários como negócio insultuoso para a edilidade e seus utentes. Parece que aquele gigantesco território teria sido doado para habitação social, e a câmara de Abecassis decidiu lá plantar prédios da gama alta. O coronel que doou a quintarola (gigante!) vexado com o procedimento interpôs acção em tribunal e passados uma porrada de anos, como é costume em Portugal, o tribunal deu-lhe razão, e lá se vê a CML obrigada a ressarcir a velha patente do exército em mais de uma centena de milhões de euros.

Um amigo chamou-me a atenção que esta coisa de negociatas com terrenos camarários nunca se faz sem contrapartidas. E a pergunta ocorre-nos prontamente ao espírito: por que razão doaria o coronel um terreno numa das áreas de maior potencial valorização da cidade de Lisboa? Teria sido levado pela pura abnegação cristã que lhe ditou a boa acção em prol dos desfavorecidos do barracame das duas musgueiras? Teria sido promessa por ter escapado ileso ao ultramar? Ou mais simplesmente, uma promessa à senhora de Fátima caso voltasse a ver a neta de bem com o padrasto? Nenhuma destas convenientes alusões sacrificiais conseguem explicar como é que se abre mão de um dos quinhões mais ricos da cidade de Lisboa para habitação social. E a prova que o não fez, foi que ao sentir-se lesado nos seus interesses requereu uma indemenização ultra milionária.

A tese do meu amigo tem o seu quê de teoria da conspiração. Mas, por isso mesmo, é a única que faz algum sentido nesta embrulhada. Segundo ele, certas negociatas que à partida são visivelmente perdedoras servem justamente para isso: para perder… mas mais tarde recuperar, ganhando no diferencial temporal. A coisa parece perversa, mas depois das revelações da wikileaks já nada nos deveria espantar, certo? E se o facto de ele ter doado o terreno durante um determinado executivo camarário, não tivesse mais do que o objectivo de pôr a Câmara em tribunal sabendo que na altura em que o pleito tivesse sido dirimido, outro executivo camarário arcaria com as culpas e com o ónus da negociata? E se as casas da gama alta tivessem sido construídas com o fito de colocar mais tarde a câmara em tribunal? Era dinheiro certo que não passava pelo risco do mercado.

Quem perde, obviamente, é a Alta de Lisboa, essa experiência-piloto interessantíssima de sincretismo classista. A verdade é que do projecto megalómano previsto, apenas 60% foi concretizado. O sincretismo classista tem, como era expectável, pernas curtinhas e as casas estão a ser vendidas a passo de caracol quando não se verifica uma verdadeira retracção da procura. Há quem diga que o problema é os tempos de crise em que vivemos. Sinceramente, prefiro acrditar que a “gama alta” só muito moderadamente gosta de viver rodeada de uma mancha de bairros sociais. Por muito belas intenções que presidam ao intuito urbanístico que se lhe encontrava subjacente, o factor “bairro social” pesa na desvalorização mercantil. E de que maneira. Pesa nas escolas; pesa nos tempos livres; pesa no futuro das crianças da “gama alta” cujos pais não desejam ver comprometido pelas más companhias.

Em resumo, quem ficou verdadeiramente a ganhar com esta trapalhada, foi o bom do coronel que um dia teve o altruísmo de doar um terreno para habitação social naquela que seria potencialmente a maior negociata imobiliária da cidade de Lisboa. E até foi – só que por via jurídica.

Pão a pão, enche a galinha o papo

 

Nunca Cavaco teve a vida tão facilitada. Estes presidenciais vão ser um passeio no campo; um lanche em casa da avozinha; uma ida à Baixa para comprar rebuçados artesanais (sendo que esta, pelas dificuldades inerentes à escassez de lugares para estacionar o carro, é capaz de ser ainda mais complicada). A expressão anglo-saxónica é “Like taking a candy from a kid”. Mas sem o berreiro consequente, acrescentaria.

Cavaco vs Tiranossauros Rex Senilis vs Versão Portuguesa da Madre Teresa de Calcutá vs Homem da Luta Engravatado – vai ser melhor do que ver Wrestling mexicano with fixed odds. Cavaco merecia melhor (ou pior, consoante a perspectiva). Depois de uma presidência tremendamente asquerosa, merecia ter, pelo menos, alguma luta, algum esforço, o sabor a sangue da refrega, o suor de levantar a adaga e carregar contra o pelotão inimigo, uns pontapés no traseiro, uns calduços no cachaço… Mas não, Cavaco vai tê-la suave como um cuzinho de bebé passado a dodote.

O momento alto da noite? Ui, foram tantos! Felizmente que apenas vi o resumo, e destaco, sem margem para dúvidas, o momento da galinha. Nobre esgrimava com argumentos de fazer correrem lençóis de água de uma ravina madeirense: – A pobreza! Já alguma vez viu a fome? Teve com uma criança moribunda nos braços? Viu corpos estraçalhados a juncarem campos de batalha? E finalmente: uma criança a correr atrás de uma galinha para lhe tirar um bocado de pão do bico? (mas ter visto uma galinha esfomeada a correr atrás de uma criança, isso sim, já me parecia digno de menção)

Fosse Lopes uns anitos mais velho, e teria para replicar, eventualmente, alguns cenários da guerra colonial. Corpos despojados de vida; fome e miséria, era o que por lá não faltaria. Mas Lopes não tendo essa experiência guerreira, socorreu-se daquilo que lhe pareceu mais à mão: a sua aldeia natal, onde teria, segundo o relato, assistido a cenas de igual crueza senão ainda mais fatais. Depreendeu-se então que lá pr’ós lados de Coimbra teria Lopes avistado uma galinha com uma côdea de pão no bico a ser igualmente perseguida por uma criança esgaseada. E foi a galinha com o pão no bico que levou estes dois homens a quererem representar a nação. O mínimo que se pode dizer é que isto traz água no bico.

Não sei se Nobre vai atirar com a estória da galinha a Cavaco, podendo este sempre dizer que viu a verdadeira miséria lá pós lados de Boliqueime, isto ainda antes da família ter investido no negócio dos derivados de petróleo, vulgo, bomba de gasolina. Alegre pode sempre agarrar no mote e parir um livro com o título Galinha como Nós, onde discorre sobre o facto de estarmos todos neste mesmo desgraçado barco da condição humana que é a de fugirmos para não sermos devorados por crianças esfomeadas. Não poderá, no entanto, reconvir com uma outra qualquer galinha miserável, lá pós lados da sua terra natal; mas poderá sempre expandir comentários saborosos sobre os coq aux vin parisienses.

E pronto, estamos fodidos. Cavaco vai ter uma maioria tão absoluta (não que isso interesse para a cadeira presidencial) mas tão absoluta, que vamos andar a ouvir o seu séquito do psd a babar-se anos a fio com a “vitória retumbante do professor Cavaco Silva”. Volta Alegre, estás perdoado!

Ich bin ein Relativist

As armadilhas relativistas são como minas antipessoais: quando menos esperamos, Bum!, rebentam-nos bem abaixo do cós das calças e levam-nos metado do corpo. Surgem dos sítios mais insuspeitos, como se tivessem sempre à cata de uma oportunidade para nos saltarem ao pescoço.

Dizia o Professor Machado Vaz que era compreensível que na Índia se proibissem as raparigas de usarem telemóvel, porque encaixava racionalmente na pretensão de controlá-las, visto tratar-se de um sistema de casamentos combinados, no qual, como sabemos, a mulher não tem voto na matéria na escolha do seu futuro cônjuge. Do outro lado, uma Inês Menezes que quase não continha o sentimento de indignação

(e note-se que Inês Menezes funciona como o contraponto ignorante e senso comum da sapiência de Machado Vaz, reproduzindo o dispositivo ancestral falocêntrico que ensina que o homem sabe ver para além das aparências, desdobrado em tantas outras dicotomias, tais como mulher-natureza, homem-cultura, logo homem-domínio, mulher submissão, etc… E isto, apesar de eu gostar muitíssimo do que diz o professor JMVaz)

perante uma tal passividade académica do professor, insistia que era incompreensível a proibição. Machado Vaz redarguia – Não senhora, aquilo faz imenso sentido, porque se o objectivo é controlar a vida sexual da rapariga, então o telemóvel é uma caixa de Pandora e, como tal, se deixado ao deus-dará, sabe-se lá que perigos pode ele potenciar!

O drama estava por conseguinte aberto a uma boa e velha dicotomização entre etnocentrismo e relativismo. De um lado, Inês Menezes não se conformava com o facto de poder haver uma tal proibição, fruto certamente de um tradicionalismo primitivo impensável nas sociedades ocidentais. Do outro, uma pressão (mesmo que inconsciente) para relativizar automaticamente o “outro” apenas e só porque se trata de “outro”.

O relativismo, sabêmo-lo pelos seus críticos, arrisca-se sempre a cair naquela aporia filosófica fundamental que diz que se tudo é relativo então a opinião que expressa essa necessidade de relativizar é ela própria relativa deixando por isso de ter qualquer pretensão de verdade ou sequer de justificação, auto-infirmando-se. Mas isto é o julgamento radical.

Mais prosaicamente, aquilo que o professor Machado Vaz expressava era uma cautela narrativa, chamemos-lhe assim. Cautela, porque baseada no imperativo da tolerância – preciso de compreender os actos dos “outros” através do seu próprio sistema simbólico, sob pena de, ao trasladá-los para uma representação que lhes é estranha, estar a violentá-los na sua racionalidade peculiar. Narrativa, porque, é narrando, ou seja, construindo um enredo com um mínimo de sequência lógica, que eu consigo compreender a necessidade da contextualização. Não se trata de narrar para que as coisas encaixem e dessa concatenação, ou sequência, eu compreenda finalmente o porquê de uma dada acção, valor, atitude, etc. Trata-se antes de narrar para justificar a própria necessidade de relativização. Isto porque, está bem de ver, a relativização só se aguenta no registo narrativo. Experimentem relativizar noutro registo (hipotético-dedutivo, indutivo, lógico-formal, etc) e vejam como o relativismo tem pernas curtinhas.

Mas estávamos no registo narrativo, e aí, o relativismo ensaiado pelo professor é de uma coerência límpida. É claro como água que, muito weberianamente, se compreendermos a articulação entre as orientações subjectivas dos indivíduos em questão estamos a caminhar em passo estugado em direcção à Verstehen. O problema da Vertehen, quando assim entendida, ou seja, quando relativizada, é que não nos permite dar o passo subsequente – julgar o próprio sistema simbólico no interior do qual estas orientações são compreensíveis. Longe de mim dizer que isto é a ilação que se pode retirar de Weber! Mas é sem dúvida a consequência que temos que aceitar emudecidos quando trilhamos os caminhos do relativismo. E todavia, sabêmo-lo porque nos confrontamos sistematicamente com isso, que o relativismo exige sempre um esforço adicional de falsificação. Suspeito que o professor Machado Vaz não concorde minimamente nem com casamentos combinados, nem com proibições falocêntricas, nem com sexualidades reprimidas. Todavia, perante o imperativo relativista, optou por silenciar uma tal orientação crítica, substituindo-a por uma compreensão ecuménica. Porém, nada nos obriga a isso, e a coisa pode (e deve) ser resolvida em dois passos necessários: primeiro, sim senhora, investiga-se o sentido que certas acções possuem no interior de um universo simbólico particular, e depois, com a maior naturalidade, esventra-se esse sistema simbólico, ou destruindo-o não deixando pedra sobre pedra ou colocando-lhe as ambivalências cá fora como tripas resequidas ao sol. No primeiro caso, o da destruição absoluta, incluiríamos, por exemplo, a ablação feminina; no segundo, o de revirar as ambivalências e torná-las alvo necessário de mofa, o caso dos telemóveis das raparigas indianas.

O livro é uma arma/ E eu não sabia… contra a burguesia.

 Os livros valem o que valem. Por estes dias, valem como protecções corporais à maneira dos escudos da polícia de intervenção. Mas se a mensagem é política,    não se pode descurar um mínimo de coerência nas obras escolhidas. Também aqui podemos retirar ilações a respeito da seriedade da politização cultural.

 Por exemplo, se os ingleses do Goldsmith College acertam o diapasão pela lógica da contestação, da revolução e da inconformidade; já os italianos da Sapiência estão mais pelo chauvinismo literário. Os primeiros, brandem a Dialéctica Negativa de Adorno, o Homem Unidimensional de Marcuse; O Catch 22, de Heller, o End Game do Beckett… todos partilhando esse inconformismo, quer político quer literário, que os alunos pretendem expressar perante os seus governos. Até Ulyses de Joyce, podendo estar fora da revolução, não deixa de ser um revolucionário do estilo literário.

E o que vemos nos italianos da Sapienza? O Princípe. O Satiricon ainda se admite. A República de Platão, o gajo que tinha por virtude um mundo ordenado segundo categorias ideais que convergiam para o Bem e que para tal não deixava os créditos da governação caírem em mãos alheias, não me parece em consonância com o “poder caído nas ruas”. E Maquiavel, obviamente, o tipo que ensinava os príncipes a domesticar esse mesmo poder. Maquiavélico, portanto, brandir uma das sua obras para provar que podemos confiscar o poder aos poderosos.

Pode ser lido ao contrário, bem sei. Ou seja, “Eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes”. Ou seja, conheço os teus ardis Ó Grande Irmão! Ou seja, li a tua cartilha e sei de cor o que recomendas para me manipular.

Ou então, é mesmo um caso de chauvinismo romano, razão pela qual só pode ser censurável a negligência relativamente a Petrarca.  Porém,quer num país quer no outro,  julgo que a polícia não seja muito sensível às diatribes em torno do cânone literário.

 

I fought the law…

Em Londres “All hell broke loose”, frase que, como é do domínio comum, foi importada do Paradise Lost de Milton, no belo episódio inicial no qual Deus expulsa o diabo (seu anjo preferido) para as profundas do inferno. (Um pouco de cultura geral para começar). Ou, numa declinação mais portuguesinha dos acontecimentos: depois de porta arrombada vens gritar pr’á rua!

Recordam-se da comoção nos pubs e centros comerciais da velha Albion quando o Labour foi corrido a pontapé dos Commons e em seu lugar a melena oxfordiana de Cameron foi entronizada? Gostaram da festa não foi? – Fora com as mentiras piedosas do Labour de Blair – abracemos a terra prometida de Cameron e dos demolib! Francamente – é ingratidão a mais! Quer dizer: vir gritar para a rua; praticar actos de vandalismo; dizer mal das reformas do governo Cameron… Em resumo, escoicear a promessa de uma bela vida à sombra das privatizações dos conservadores… Mas o que é que estes gajos querem? Cameron prometeu reformas radicais – sanear o Estado (esse poiso de madraços pagos à custa do erário público), tornar a economia mais competitiva, dar emprego a toda a gente… E o populacho achou que aquilo é que era – que iam devolver a honra perdida à velha Britânia, que os beatles se calhar regressariam com Lucy in Sky, que Diana montaria um corcel branco à entrada do Bunkingham P., que o The Office bateria Friends em recordes de audiências (algo que devia ser obrigatório). E por aí fora.

Agora parece que já não gostam. Ainda o novo governo dá os primeiros ares da sua graça, já os brits andam a partir tudo, como se tivessem sido enganados, como se julgassem que Cameron e sus Muchachos iam para o poder cantar serenatas ao british welfare. – Ai, não – eu não imaginava nada disto! Eu julgava que Cameron ia redistribuir os dividendos das multinacionais pelas escolas e jardins-de-infância e pela minha biblioteca no Goldsmith. Vejam bem que agora querem-me tirar o ano da sabática entre o fim do liceu e o começo da universidade (adolescente entrevistada numa das manifestações dixit). Devias, minha querida menina, ter comovido os teus papás antes que eles depositassem o seu voto no lavadinho Cameron. É que quando olhamos para estes estudantes, podemos ficar com a estranha impressão que eles vogam num espaço abstracto, entre as reivindicações revolucionárias próprias a uma postura académica e o próximo concerto dos Vampire Weekend. Mas não. Na realidade, vivem numa casa, com uma família, e fazem parte de uma comunidade qualquer onde as suas rotinas diárias geralmente se inserem. Porventura, muitos dos estudantes que agoram protestam, tiveram os seus repeitáveis pais a votar em Cameron quando a oportunidade se lhes ofereceu. Deveriam ter pensado nisso. Eventualmente, ter dado com os books na cabeça dos paizinhos quando estes expressaram, entre a soap das 9 da noite e uma ida ao Harrods, a vontade de “liberalizarem” o governo de sua majestade; deveriam ter-se oposto determinantemente, sob ameaça de não comparacerem ao aniversário da Avó em Hampstead village.  

De qualquer das formas, when all is done and said, vai ser sempre emocionante explicar aos filhos que aquele era o papá a levar porrada da polícia numa fria e nevoenta tarde londrina.

WikiLicks

Não quero que o texto sobre a Wikileaks seja mal interpretado. E fiquei com essa sensação, após alguns comentários de um espectador atento. Por isso, alguns esclarecimentos são devidos, se não ao espectador atento, pelo menos a mim.

A Wikileaks tem uma função: dispersar informação ao ponto da irrelevância. A lista do Guardian é, a esse respeito, ilustrativa. Praticamente 90% do que lá vem publicado daria, num contexto de isolamento, para fazer correr rios de tinta. Cada uma daquelas revelações é um gigantesco escândalo quando tomada em separado e com tempo suficiente para reflexão. Mas a inundação de escândalos acaba, em virtude de um efeito perverso, por mitigar a intensidade de cada um quando embrulhados num monturo indistinto. Olhamos, lemos, e não sabemos para que lado nos virar. Concentramos a nossa atenção no Afeganistão e na corrupção dos seus líderes? Nos projetcos nucleares do Paquistão e no seu apoio ao radicalismo islâmico? Nos aviões da Nato e nos presos de Guantanamo? Nas questiúnculas cor-de-rosa entre os líderes mundiais? Nas trafulhices das pretensas democracias africanas? Nas potenciais guerras-civis no Médio Oriente?… É muito mundo de uma só assentada. Caso em que um excesso de transparência provoca exactamente o seu oposto: uma opacidade total.

Sabemos que o mundo é feio, tínhamos isso por certo. Sabemos que as pessoas não são boas e que Brecht há muito nos avisou que devemos depositar fé na humanidade com todas as cautelas. Sabíamos que não se enriquece por se ser bonzinho; e não se permanece no poder sem liquidar os adversários, para aí desde Séneca e Marco Aurélio. Sabíamos isto tudo. O que trouxe então de novo as revelações da Wikileaks? Por sabermos ficamos mais felizes? Por se terem revelado as tramóias, achamos que não se repetirão? O que vamos fazer com este manancial de informação para além de alimentar fantásticas caixas jornalísticas?

Ou talvez seja o contrário. Talvez estejamos saciados de escândalos e a passividade perante as revelações – nada de relevante aconteceu no mundo depois de “sabermos” – seja o sintoma dessa repleção. Que bom é sabermos tudo, e não podermos fazer nada – faz-nos sentir úteis.

Notas de um subsolo

Ao ver o homem da mina a distribuir piropos à “verdade” e “solidariedade” perante uma audiência de CEOS da CentralCer fui acometido desses mesmos engulhos que Manuel Alegre sente mediante a possibilidade de adopção por casais homossexuais. O “homem da mina” – assim designado por mim em arremedo espertalhaço ao “homem que era quinta-feira” – foi passeado em apoteose patriótica durante semanas: primeiro pelas terras do Chile; posteriormente, num périplo mundial que ainda dura e a cuja passagem por Portugal me refiro.

Traz duas mensagens no seu bojo de héroi. Uma, diz que quando estamos unidos, podemos vencer qualquer crise. Outra, diz que quando somos honestos, frontais, enfim, verdadeiros, nenhuma dificuldade é insuperável. O seu rastro humano, oferece uma visão de concórdia nacional, do país que em tempos albergou uma das mais terríveis ditaduras da América Latina. Essa mescla de patriotismo com franqueza operária foi aproveitada até à medula pela comunicação social. E, portanto, aí temos o nosso “homem da mina” a explicar aos CEOS da CentralCer como se trabalha em equipa.

Talvez aqui seja apropriado lembrar o que dizia Adorno sobre a dependência da “mais célebre companhia radiofónica da maior companhia elétrica; ou do cinema em relação aos bancos”. Não sendo arte, nem nenhuma actividade devedora das denominadas indústrias culturais, a passagem do homem da mina por Portugal não deixou por isso de marcar com o seu cunho propagandístico. Novamente Adorno – “Propaganda, para mudar o mundo: – Que absurdo! A propaganda faz da linguagem um instrumento (…) uma máquina. E, mais abaixo: – Para a propaganda, até a verdade se converte num meio para ganhar partidários; a propaganda falseia a verdade enquanto a coloca na sua boca.”

Estávamos por conseguinte mediante um exercício da mais crua dimensão propagandística. Quero dizer: o homem da mina, o homem que foi o último a sair do buraco que lhe consumiu a vida durante dois meses, o homem que, tal como o comandante que abandona por último o navio, manteve-se firme até ao derradeiro minuto, falava de verdade e união perante uma plateia de ratos da CentralCer. Esta classificação – a de ratos – tem que ser qualificada, dado que não pode ficar a pairar como insulto gratuito.

Se é verdade que a união faz a força, dando inteira razão às judiciosas palavras do homem da mina, também é verdade que oposição tem que fazer parte dessa força. É que, a “verdade” não é entendida da mesma forma pelos dois lados da barricada. Bem sei que interessa sim pugnar por uma verdade não corrompida – e não corruptível – pelos interesses, pelas lógicas de redistribuição de poder, pelas retóricas que possam investir essa mesma verdade – uma verdade universal, não transcendente, mas sim processual! E todavia aquela “verdade” de que falava o “homem da mina” só poderia sê-lo quando confrontada com a mentira que representava os gestores e ceos da centralcer que tinham tirado um dia de folga para ouvir falar mineiro sobre gestão da crise. Imaginemos então o encontro destas duas verdades, que se falsificam mutuamente. O mineiro, está a ser infiel à sua verdade, porque ela é em primeiro lugar a verdade que lhe diz que as pessoas que ali se encontram sentadas à sua frente são a causa de ele ter passado grande parte da sua vida numa mina. A verdade do seu sofrimento encontra o reflexo nas gravatas acetinadas dos gestores da CentralCer. A incomodidade era latente. Os gestores, retirados sonambulisticamente dos seus gabinetes, trazem no bolso a verdade do capital – mais-valias, lucros crescentes, trabalho barato… a materialização do trabalho nas minas de que Úrzua, o nosso “homem da mina”, é a substância. Úrzua, traz a sua vida de esforço, naquele que eventualmente é o trabalho mais perigoso e ingrato do mundo, desde que as minas de Rio Tinto foram exploradas pelos romanos. Existe um mundo de distância entre os ademanes estudados dos quadros da CentralCer e as mãos calejadas de Úrzua. Daí a implicação atrás esboçada por Adorno: trazer estes dois mundos ao encontro é pura feitiçaria operada pelo poder da propaganda.

Uma das ideias mais repetidas pelos mineiros chilenos após o resgate era a de que nas minas nunca mais! Trabalhar para as minas novamente nem pensar! E como eu os compreendo. Não sei se todos tiveram a oportunidade que calhou em sorte a Úrzua de serem os porta-vozes das “notas do subterrâneo”, estas em tudo diferentes das do conhecido funcionário público para quem a vida é uma chatice e apenas o sofrimento pode trazer alguma redenção ao seu ataque de ennui. A voz de Úrzua resgatada do subsolo vem dizer algo radicalmente diferente: em tempos de crise reúnam-se em torno de uma força comum e rezem – vejam como ela, a vida, é um bem precioso. É aqui que a dimensão verdadeira e explicitamente contranatura do encontro entre Úrzua e os CEOS da plateia ganha toda a sua magnitude. Para os gestores do dinheiro, a crise é-lhes consubstancial ao método de actuação. A unidade que Úrzua apregoava só faz sentido do outro lado da barricada, se houver um ganho comum suficientemente interessante para arriscar o ganho que se teria caso se agisse sozinho.  

Por diversas vezes, Úrzua repetiu que o mais importante para manter a moral das tropas em alta era falar a verdade. Suspeito que a forma com que a sugestão foi noticiada tinha alguma coisa a ver com um recado ao governo. O papel dos media é sempre de dispersão do essencial. Assim, aquilo que é uma contradictio in terminus no mundo dos CEOS – falar a verdade é uma distorção intolerável no mundo dos negócios onde agitam as suas cristas – foi glosado pelos jornalistas como uma lição fundamental para os gabinetes de crise. Quando os CEOS saíram da sua matiné de ilusão humanista para a claridade cortante das negociatas e do fazer dinheiro, as boas-novas trazidas por Úrzua devem ter soado a uma língua extraterrestre. Falar a verdade e preservar a unidade – se eu fizesse isso – diria um dos CEOS da centralcer – estaria bem fodido.

Por isso o acanhamento de Úrzua perante aquela solenidade de blazers contrastava com o à-vontade descomprometido com as crianças que lhe recitavam a lenda dos mineiros que um dia sobreviveram a ficarem soterrados.

Questão de coerência

O mínimo que pode ser dito é que Cavaco tem uma definição assaz singular de equitatividade. A ele juntou-se um companheiro de percurso inusitado, o constitucionalista Jorge Miranda. Vieram estas duas eminências verberar a intenção redistributiva do governo regional dos Açores. Cavaco revelou-se chocado com a intenção de Carlos César. Segundo o presidente da república trata-se de um atentado à equidade dos sacrifícios dos portugueses. Jorge Miranda, com autoridade jurisprudente disse tratar-se de uma quebra do princípio da igualdade e como tal era medida inconstitucional. Curioso. Onde estavam estas duas figuras da nação quando o governo aprovou, com o beneplácito do PSD, um regime de excepção para empresas semi-públicas? Note-se: não é para empresas semi-públicas – é para os quadros dessas mesmas empresas. Que é feito da igualdade nestas circunstância? Que equitatividade estaria Cavaco a defender quando não tugiu nem mugiu perante a hipócrita justificação das remunerações a preço de mercado?

Dois figurões do regime, com a mesma justificação untuosa na manga, é obra! Cavaco, claro está, nunca deveu grande coisa à coerência, e os seus princípios não raras vezes têm-se mostrado escorregadios e capciosos. Por isso, que fique escandalizado com a intenção de Carlos César mitigar o sacrifício dos seus conterrâneos do funcionalismo público, quando ficou mudo e quedo mediante o regime de excepção, não espanta grandemente em tão esfíngica personagem.

Agora, Jorge Miranda, o maior constitucionalista português, vir bradar pela igualdade quando nem uma palavra se lhe ouviu perante o regime de excepção, já causa mais engulhos.

Este é o país actual: um presidente que é untuosamente hipócrita acompanhado pelo nosso maior constitucionalista num coro de virgens ofendidas. Jardim pontuou a sua presença com um ríspido “Não contem comigo para vigarices”. Referia-se ao projecto de César, o seu rival açoreano; e não, como poderíamos supor, ao regime de excepção. Até porque este último se calhar deve calafetar os bolsos de um qualquer seu cunhado ou genro ou familiar afastado com lugar cativo nas empresas semi-públicas da Madeira S.A.  

O efeito transparência

A pergunta sacramental, que deveria ser feita, repetida e reflectida, é por que razão Assange e a sua Wikileaks só agora começaram a leakar? Sintomático de uma era que se encanta com o acessório e deixa-se ultrapassar, numa modorra contentinha, pelo essencial, é o facto de a pergunta não ter sido colocada, nem por comentador nem pelo homem comum que enfarda notícias de rodapé.

Muito gostaria eu de ter tido uma Wikileaks nos tempos de sua alteza George W. Bush. Porém, o providencial Iago não estava de serviço e contra todas as evidências lá embarcámos no canto de guerra e fomos cavalgando B52 pelo deserto afora. Onde estava a Wikileaks quando era realmente necessária? Quando precisávamos de desmascarar o ardil das armas de destruição maciça? Por que razão temos Wikileaks para saber que Cadafi come a enfermeira ucraniana ou que Putin é autoritário, algo que até uma criança de seis anos atenta aos cabeçalhos do New York Times descobriria sem dificuldade? Assange e a sua trupe afirmam-se abnegados defensores da liberdade de expressão. Talvez sejam. Mas confesso que o timming parece ser particularmente inofensivo. Não existe nenhuma grande questão internacional sobre a qual pairem dissenções e terríveis conflitos interestatais tenham que ser dirimidos. Não vivemos um período de sensível tensão internacional em torno de distribuições de poder. Ou vivemos tudo isso, mas não no olho de uma crise. E no entanto, Assange prega a transparência total lá do fundo do seu bunker da segunda guerra mundial.

A maneira como a informação vai chegando à Wikileaks parece demasiado fácil. Um soldado de 23 anos, especialista em informática, chateado com a vida, desata a leakar tudo o que é informação diplomaticamente embaraçosa. Onde estava este rapaz (ou um semelhante) quando de facto andavam a torturar presos em Abu-graib? Onde estava a Wikileaks quando Bush e a sua administração mentiam sistematicamente sobre o número de vítima civis no Iraque? Não estava. Talvez fosse mais complicado então; talvez as redes de segurança e vigilância da informação fossem mais protegidas. Talvez, talvez… De qualquer dos modos, que bom é saber que Merkel é indecisa e que Sarkozy é autoritário, algo que qualquer caricatura publicada nos últimos cinco anos comparando-o com Napoleão não desmentiria.

Em termos práticos a única coisa que a Wikileaks prejudica são as relações internacionais, diplomáticas, norte-americanas. O único impacto verdadeiramente significativo é em Hilary Clinton. O único sector da política mundial ao qual causa embaraços, é a administração Obama. Tudo somado, quem sai prejudicado desta enchente de fofoca governamental é o governo democrático liderado por Obama. Penso que é demasiada coincidência que, após uma estrondosa derrota contra a Tea Party, a administração Obama receba o golpe de misericórdia que é, nem mais nem menos, deixar à vista a sua inépcia para assuntos de segurança nacional. A Wilileaks, a sua gesta pela transparência (seja lá o que isso for) teve como principal efeito assegurar o canto do cisne da administração Obama. Porque uma coisa é certa, depois do ataque cerrado às políticas “socialistas”, como os ultra-conservadores designaram a reforma da saúde do governo democrático, e que tão bem colheu entre os norte-americanos, só restava mesmo era provar que a administração Obama era completamente canhestra em matéria de segurança nacional. A Wikileaks deu de bandeja aquilo que a Tea Party nem sonhava. Ou talvez não fosse assim tão acidental.