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Dos Passos em volta

Novembro 25, 2010

A cara de pau com que Passos considera compreensível o regime de excepção votado no Parlamento mostra bem o quanto a rotatividade do centro é ilusória. A bem dizer, isto é chover no molhado, porque milhares de vozes já o repetiram, e com verve mais tonitruante: não existe diferença entre ps e psd!

A admissão de um tal cenário é fácil e não o fazer seria incorrer em crime de lesa política e de cegueira analítica. Mas nunca é demais registar como pode um tipo que andou semanas a bater no despesismo do Estado, sobretudo na sua vertente “parceria público-privado” vir agora defender uma obscenidade destas? Que a medida tenha partido de uma iniciativa do ps ninguém se espanta; é que também já ninguém tinha ilusões. Porém, mais de metade dos portugueses pretende depositar o governo da nação no psd, dar-lhe uma maioria absoluta confortável, dentro do maior espírito laxista segundo o qual do que precisamos é de um populismo forte e saudável que dê améns ao mercado é à privatização. Até porque o raciocínio de Passos não poderia ser mais escorreito: a razão pela qual certas posições não devem ser afectadas pelos cortes salariais – e estamos certamente a falar de altos quadros técnicos e administradores – é que lidam directamente com um mercado competitivo. Isto é de génio. Como lidam com um mercado competitivo, devem os salários ser igualmente competitivos.

Ora isto é, sem tirar nem pôr, uma perversão da ideia de serviço público, que é paga não pelos mecanismos da competitividade, mas sim pelos contribuintes. Para o PS e para Passos, isto é normalíssimo: o salário da senhora Augusta auxiliar de limpeza no hospital da Amadora devem ser reduzidos; os salários dos trutas da administração da Gás Portugal devem manter-se a preços de mercado.

De todas as medidas que o PS tomou ultimamente – e foram muitas e más – esta é a pior. Esta é aquela para qual não se encontra justificação no interior de uma formulação democrática de distribuição da riqueza. Reparem que nem sequer digo, equitativa. Digo democrática, com todas as reservas que a vacuidade do termo pode inspirar.

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