Da Colher à boca… é tudo sopa

E porque ando sempre em cima do acontecimento, celebro aqui, com três dias de atraso, os 80 anos daquele que é para mim o maior poeta português (a rivalizar com o panteão de muitas outras nações) da segunda metade do século XX e até agora, da entrada do XXI. Helberto Helder, claro. Aliás… não julguem que estou a ser acometido de chauvinismo provinciano: Herberto Helder foi o melhor poeta mundial da segunda metade do século XX!!! E ao ouvi-lo há três dias atrás, se não estou em erro na antena 2, a recitar um dos seus poemas, fiquei novamente com a sensação de algo que havia entretanto esquecido: aquilo, o que Helder fez, o que Herberto Helder deu ao mundo, é linguagem sui generis. Dêem-me Hughes, Walcott, Dunn, Heaney, Simmic… qual quê? Dêem-me Symborska, Milosz, Bachman, Michaux, Drummond, Paz, Andrade, Gullar, Melo Neto, Juaroz (isto nunca mais acabava) e eu dou-vos com uma frase de Herberto Helder que põe de rastos toda esta girândola de talento. Ah, pronto: há um perante o qual até Helder se verga – Celan! E porque considero que este é O poeta da segunda metade do século XX. E nisto nada há de cronológico. Podia lá enfiar o Pound ou o Auden, mas estes não são definitivamente da segunda metade… Ficaram na primeira. E se para aí fôssemos, então a colheita seria de outra catadura. Mas não! Estamos na segunda metade! E nessa, é o Helder que dá cartas! E não me venham com o Ruy Belo (que grande poeta o Ruy Belo). Cesariny?  Nem me façam rir (que grande poeta o Cesariny). Como o Helder, não temos mais nenhum. Não temos nós, e não têm eles. Aquilo é alquimia pura. E pronto: lá disse o lugar-comum de merda. E depois: a poesia não se avalia a granel.  

Deixemos antes Herberto Helder falar:

Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos.
Esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas
lâmpadas, todas as coisas.
As coisas que são uma só no plural dos nomes.
– E nós estamos dentro, subtis, e tensos
na música.

Esta linguagem era o disposto verão das musas,
o meu único verão.
A profundidade das águas onde uma mulher
mergulha os dedos, e morre.
Onde ela ressuscita indefinidamente.
– Porque uma mulher toma-me
em suas mãos livres e faz de mim
um dardo que atira. – Sou amado,
multiplicado, difundido. Estou secreto, secreto-
e doado às coisas mínimas.

Na treva de uma carne batida como um búzio
pelas cítaras, sou uma onda.
Escorre minha vida imemorial pelos meandros
cegos. Sou esperado contra essas veias soturnas, no meio
dos ossos quentes. Dizem o meu nome: Torre.
E de repente eu sou uma torre queimada
pelos relâmpagos. Dizem: ele é uma palavra.
E chega o verão, e eu sou exactamente uma Palavra.
– Porque me amam até se despedaçarem todas as portas,
e por detrás de tudo, num lugar muito puro,
todas as coisas se unirem numa espécie de forte silêncio.

Essa mulher cercou-me com as duas mãos.
Vou entrando no seu tempo com essa cor de sangue,
acendo-lhe as falangetas,
faço um ruído tombado na harmonia das vísceras.
Seu rosto indica que vou brilhar perpetuamente.
Sou eterno, amado, análogo.
Destruo as coisas.

Toda a água descendo é fria, fria.
Os veios que escorrem são a imensa lembrança. Os velozes
sóis que se quebram entre os dedos,
as pedras caídas sobre as partes mais trêmulas
da carne,
tudo o que é úmido, e quente, e fecundo,
e terrivelmente belo
– não é nada que se diga com um nome.
Sou eu, uma ardente confusão de estrela e musgo.

E eu, que levo uma cegueira completa e perfeita, acendo
lírio a lírio todo o sangue interior,
e a vida que se toca de uma escoada
recordação.

Toda a juventude é vingativa.
Deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura.
Um dia acorda com toda a ciência, e canta
ou o mês antigo dos mitos, ou a cor que sobe
pelos frutos,
ou a lenta iluminação da morte como espírito

nas paisagens de uma inspiração.
A mulher pega nessa pedra tão jovem,
e atira-a para o espaço.
Sou amado. – E é uma pedra celeste.

Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia
de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.
Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
Depois levanta-se com os olhos imensos
e incendeia as casas, grita abertamente as giestas,
aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado.
Amam-me; multiplicam-me.
Só assim eu sou eterno

(das Musas Cegas, o V)

Dos Passos em volta

A cara de pau com que Passos considera compreensível o regime de excepção votado no Parlamento mostra bem o quanto a rotatividade do centro é ilusória. A bem dizer, isto é chover no molhado, porque milhares de vozes já o repetiram, e com verve mais tonitruante: não existe diferença entre ps e psd!

A admissão de um tal cenário é fácil e não o fazer seria incorrer em crime de lesa política e de cegueira analítica. Mas nunca é demais registar como pode um tipo que andou semanas a bater no despesismo do Estado, sobretudo na sua vertente “parceria público-privado” vir agora defender uma obscenidade destas? Que a medida tenha partido de uma iniciativa do ps ninguém se espanta; é que também já ninguém tinha ilusões. Porém, mais de metade dos portugueses pretende depositar o governo da nação no psd, dar-lhe uma maioria absoluta confortável, dentro do maior espírito laxista segundo o qual do que precisamos é de um populismo forte e saudável que dê améns ao mercado é à privatização. Até porque o raciocínio de Passos não poderia ser mais escorreito: a razão pela qual certas posições não devem ser afectadas pelos cortes salariais – e estamos certamente a falar de altos quadros técnicos e administradores – é que lidam directamente com um mercado competitivo. Isto é de génio. Como lidam com um mercado competitivo, devem os salários ser igualmente competitivos.

Ora isto é, sem tirar nem pôr, uma perversão da ideia de serviço público, que é paga não pelos mecanismos da competitividade, mas sim pelos contribuintes. Para o PS e para Passos, isto é normalíssimo: o salário da senhora Augusta auxiliar de limpeza no hospital da Amadora devem ser reduzidos; os salários dos trutas da administração da Gás Portugal devem manter-se a preços de mercado.

De todas as medidas que o PS tomou ultimamente – e foram muitas e más – esta é a pior. Esta é aquela para qual não se encontra justificação no interior de uma formulação democrática de distribuição da riqueza. Reparem que nem sequer digo, equitativa. Digo democrática, com todas as reservas que a vacuidade do termo pode inspirar.

Placebo Geral

Considero equívoca a designação de Greve Geral para aquilo que é objectivamente uma greve da função pública. Primeiro, porque induz em erro, levando-nos a auscultar solidariedades transversais do mundo laboral quando o que temos é um protesto de um segmento desse mesmo mundo. Segundo, porque ao reivindicar para si o carácter de geral, encobre o facto de, mesmo dentro do sector público, existirem interesses segmentados, que não raras vezes colidem. Terceiro, porque podendo dar uma expressão pública mais amplificada aos sindicatos, escamoteia a evidência de que esta apenas toma uma tal intensidade no sector público, porque é o único que ainda conserva um grau de regulação protectora. Cada um destes aspectos possui consequências na maneira como podemos ler a conjuntura actual e quanto às ilações a tirar relativamente ao mecanismo da greve.

Tomar uma greve dos funcionários públicos como geral implica não nos interrogarmos sobre a razão do seu impacto diminuto no sector privado. Se é verdade que uma tal “ilusão” empresta força simbólica aos sindicatos, apresentando-se estes momentaneamente como actores fundamentais na definição da relação laboral, também é verdade que deixamos assim de colocar a questão central subjacente aos processos de desregulação laboral: por que razão encontra ela tão pouca resistência no sector privado?

Por medo, poderia ser uma das hipóteses. Os trabalhadores do sector privado, não se encontrando imersos numa teia de garantes solidários que ainda fazem parte do travejamento institucional do sector público, têm simplesmente receio de serem descartados, como consequência da arbitrariedade do patrão. Contudo, os níveis de sindicalização do sector privado não são assim tão baixos, chegando em alguns sectores a cifrarem-se nos 70 e mais porcento (embora sejam em média significativamente mais baixos do que no sector público).

Outra hipótese, poderia ser: os trabalhadores do privado ganham melhor, por isso têm menos razão de queixa. Hipótese prontamente infirmada, bastando para isso olhar a distribuição de rendimentos apresentada nos inúmeros estudos econométricos sobre o assunto. Acresce que, ao contrário do que por aí se diz, os trabalhadores da função pública possuem um nível médio de habilitações mais elevado do que os trabalhadores do sector privado, o que puxaria inevitavelmente o rendimento médio do sector considerado como um todo. É verdade que Eugénio Rosa prova por a mais b que o diferencial dos salários deve-se quer ao efeito habilitação quer profissão, ou seja, para habilitações idênticas o diferencial salarial é negativo para o sector público, o mesmo se passando para o idênticos níveis técnicos. Mas isso não nos deve fazer esquecer o facto de mais de 50% dos trabalhadores da função pública terem habilitações superiores, contra sensivelmente 10% no sector privado. Ora isto diz bem da distribuição desigual de capital humano no espaço laboral português e mostra também que há inevitavelmente um subaproveitamento deste mesmo capital em actividades de capital intensivo. Porque, quer se queira quer não, o sector público não tem os mesmo níveis de produtividade dos privados e também não é directamente competitivo, ou seja, na sua grande maioria, não vende, não exporta, não inova, não investe. Neste contexto, os ordenados dos funcionários públicos com habilitações superiores devem-se mais a um “prémio” dado pela diferença habilitacional do que propriamente a níveis de produtividade elevados (que de qualquer maneira são difíceis de aferir). Se a isto acrescentarmos que é no sector energético que se encontram as remunerações médias mais elevadas, e sendo este, como se sabe, praticamente público, então o sector público começa de facto a pesar na distorção da distribuição dos rendimentos.

Este circunlóquio serviu basicamente para dizer aquilo que há muito é evidente, mas que teima em ser tomado como parte da natureza das coisas: uma fatia não despicienda da função pública não protesta em defesa de direitos, mas sim de privilégios. Sendo que, por exemplo, um médico em início de carreira ganha 1864 euros e um professor universitário sem agregação ganha 2200 euros, num país onde o ordenado médio é 771 euros… haja vergonha na cara, é a única coisa que ocorre dizer.

Mas isto é a tabela salarial. Porque quer o médico quer o professor universitário podem, e estão longe de se fazerem rogados, acumular com outras actividades. O médico é conhecido por saltar do público para o privado, fazendo ganchos em clínicas onde ainda é melhor remunerado. O professor desdobra-se em projectos, através dos quais encaixa o dobro daquilo que ganha oficialmente. Perante isto, é difícil aceitar que as reivindicações destes dois sectores tenham alguma coisa a ver com dificuldades concretas em suportar o nível de vida como parece ser aceitável pensar para o conjunto dos trabalhadores da função pública que não são técnicos superiores – estamos a pensar especialmente nos trabalhadores operacionais – cujo salário varia entre os 500 e os 1010 euros. A estes, os cortes salariais irão doer com certeza. Aos primeiros, será a diferença entre ir jantar menos uma vez ao Paparucha.

Neste sentido, esta greve também não é geral no interior da função pública; geral nos seus propósitos, quero dizer, dado que uma fatia não despicienda não luta pelas mesmas coisas, isto porque as medidas sobre as quais recai o protesto possuem incidências na vida laboral das pessoas infinitamente diversas. Devíamos habituarmo-nos a não olhar para a função pública como um todo, mas antes como sector que abrange interesses segmentados, aliás como fazemos automaticamente quando falamos de sector privado, e que podem inclusivamente afectar negativamente o conjunto dos restantes cidadãos. Assim, quando os médicos do público exigem equiparação salarial com o sector privado, sobre quem é que julgam que irá recair o diferencial? Se disse, sobre o utente, então adivinhou, e faça questão de o recordar ao seu médico de família da próxima vez que o vir.   

Finalmente, e não menos importante (em “britês”) a possibilidade de fazer uma greve geral liga-se directamente à estabilidade da relação laboral. Ou seja, a função pública adere em força, porque a sua relação laboral encontra-se bem mais garantida do que no privado. Sucede que é uma situação já de si privilegiada que permite reivindicar a continuidade de privilégios. O que torna a relação entre os dois sectores duplamente assimétrica. Por um lado, torna-se mais fácil reivindicar no sector público o que cria a sensação de uma certa injustiça reivindicativa. Por outro, a eficácia do mecanismo de pressão decorre mais da posição privilegiada dentro da estrutura de oportunidades, do que do conteúdo reivindicativo. Sin embargo, a culpa não pode ser assacada à função pública, visto que o problema encontra-se justamente na desregulação selvagem da relação laboral privada. Contudo, não deixa de provocar um certo travo amargo, a constituição assimétrica de uma ilha de direitos laborais.

E tudo isto significa que não estou de acordo com uma greve geral? Sim, estou de acordo – só gostava é que ela fosse geral.

Allons enfants de la patrie…

Dois dias antes da greve geral (ia escrevendo “guerra civil”!!!) podiam ser encontrados, em três palcos diferentes da cidade de Lisboa, três contribuições da direita conservadora para uma interpretação do estado das coisas. Isto é sintomático de algo. O “algo” não sei o que seja, mas o “isto” elenca-se da seguinte maneira: a) António Nogueira Leite lançava o livro “Uma tragédia portuguesa”; b) Belmiro e Soares dos Santos davam uma palestra na Universidade Católica; c) Cavaco falava algures (não me recordo) sobre a situação do país.

Como dizia essa grande escritora da língua pátria: – Não há coincidências. E a havê-las, é bom que se sugira sempre a hipótese de uma génese concertada.

O que estas três intervenções possuíam em comum era um ataque cerrado ao Estado. Não ao Estado enquanto étimo da soberania; mas ao Estado social, designado, em momento de rara ironia, de bem-estar. Começando pela primeira intervenção, Nogueira Leite veio dizer que a “tragédia portuguesa” em que nos encontramos teve origem no despesismo desenfreado do Estado. E que a solução, num verdadeiro esforço imaginativo que não nos cansamos de admirar, estava na liberalização, vulgo, privatização. Fez-se eco do outro lado, com a voz do grande capital a dizer que estávamos à beira do estrangulamento e que se as regras não mudassem, então iríamos todos ao fundo, que nem a profética jangada de pedra nos salvaria. Mais meticulosamente, o que disse Belmiro quando questionado sobre se ainda valia a pena investir, foi que sim… mas não em Portugal.

Note-se que Belmiro não fez mais do que expressar uma atitude antiga e relapsa das elites portugueses do grande capital. Desde que a corte fugiu para o Brasil, levando no rastro do seu manto real uma aristocracia endinheirada, ainda estes não se tinham posto ao fresco a sentir a brisa penumbrenta do Corcovado, e já faziam um grande manguito a Portugal e ao povo que haviam deixado para trás. Não quero ser mal interpretado: que não vejam aqui um arrobo de serôdio nacionalismo que treme sempre que a elite do seu país trai a pátria amada. Nada disso. Nem a pátria é amada, nem o nacionalismo, ou a falta dele, me faz qualquer comichão na pituitária. E contudo, a resposta de Belmiro é bem expressiva da imoralidade do capitalismo (contrariamente a Comte-sponville, considero, vá lá saber-se porquê, que o capitalismo tem que ter, nem que seja uma pitada, de moralismo). A atitude de Belmiro é bem o enunciado do carácter “gafanhoteiro” do grande capital – espreme até às últimas os terrenos onde aterra, e depois parte em debandada à procura de novas colheitas. Soares dos Santos, homem de impecáveis credenciais, fez imediatamente coro com Belmiro, acrescentando, naquilo que seria um gesto da mais pura e desbragada ideologia, não desconfiássemos nós de senelidade avançada, que os portugueses tinham que optar entre quererem progredir ou continuarem a viver num regime socialista. Socialista? Ainda poderíamos pensar que o homem confundia o governo PS com qualquer coisa a que se pudesse apelidar de socialismo, mas a confusão foi prontamente dissipada quando mais à frente trocou o nome do mais alto órgão da nação – A Assembleia da República – pelo de “Assembleia Nacional”. Uma vez contaram-me que em privado, não sabemos se para irritar os convivas, ou se para lhes agradar, Belmiro assumia-se como fascista, num registo de – vocês sabem que na realidade eu sou mas é fascista… Ouvindo Soares dos Santos restaram-me poucas dúvidas quanto a um tal desabafo ser uma mera operação de charme. Grande capital em Portugal, rima com fascismo.

Na verdade, e estando eles a cagarem para nós, como fica ilustrado pela alusão escapista de Belmiro, deveríamos ter cagado para eles quando foi de lhes salvarmos os bancos e os investimentos bilionários. Não nos coube decidir, é certo. E por isso, e mais uma vez, fomos comidos que nem uns patos, porque os gafanhotos já estão a fazer as malas para aterrarem noutro lugar onde os patos sejam ainda mais patos.

E assim chegamos à cereja no topo do bolo, que é como quem diz, a Cavaco, e ao seu momento de magnânimo sebastianismo, momento em que toda uma nação ressarce o seu líder por em tempos ter caçoado da infalibilidade de pretérito primeiro-ministro. I told you so, disse Cavaco, no seu modo impante de quem vê absolvido o seu bom-nome, e que obriga a sujeitarmo-nos à evidência de que ele raramente se engana.

Nisto tudo – três momentos de autognose pátria; três encenações da direita pregressa em estado de graça – nem uma palavra sobre bancos nem sobre bolhas nem sobre especulação nem sobre acumulações de liquidez individa nem sobre fuga ao fisco nem sobre paraísos fiscais nem sobre mercado de capitais nem sobre bail outs a bancos gananciosos nem sobre operações furacão que são anedotas nem sobre milhões transferidos ilegalmente nem sobre dividendos obscenos nem sobre conselhos de administração parasitários nem sobre empresas públicas com accionistas privados dentro do grande capital. Rien de rien. A culpa é do Estado porque não sabe equilibrar as contas… que nem sequer são dele.

Eles vêm aí… eles já cá estavam… Só que, como arlequins histriónicos saídos de uma peça de Goldoni, é como se nada fosse com eles.  Afinal de contas, como diz Belmiro, o que não falta é sítio para espremer… 

Mensagem da direcção

Devido a um problema técnico ao qual somos alheios (como termos a internet cortada pelos fdp da zon) este blog foi descontinuado por uns tempos. Mas agora que as contas estão novamente saldadas, informamos a quem nos ouve neste imenso deserto comunicacional, que a actividade masturbatória intelectual que aqui prosseguíamos com denodo e persistência irá ser retomada dentro de momentos. As primeiras manifestações desta intenção podem ser lidas abaixo.

Pirafos absolvidos

 

Nada mais idiota do que ver um católico fazer as pazes com a sua religião porque o sumo pontifície da mesma autorizou – se bem que apenas em certos casos – o uso do preservativo.

Primeiro, porque pressupõe que a fé não era assim tão grande. Quando um assunto tão comezinho como o preservativo coloca em causa essa adesão ao transcendente que é a necessidade de qualquer fé, então temos a porca nas ervilhas, e a chafurdar com gusto.

Segundo, e a meu ver pior, pressupõe que ser católico implica uma adesão incondicional às regras dimanadas pela hierarquia da santa madre. Estávamos bem lixados, e haveria muito católico de mal com a sua matriz institucional, porque a serem levadas a sério, as regras, essas regras, não deixariam ninguém funcionar competentemente nos dias que correm – excepção feita aos monges: mas esses passam a vida a enrabarem-se a coberto dos olhos públicos, e quiçá, dos divinos também, protegidos que estão ou por vetustas e inacessíveis muralhas ou por ainda mais vetustas, conquanto menos inacessíveis, escarpadas lonjuras.

Essa má consciência que pelos vistos alguns católicos nutriam em relação à sua religião – a julgar pelo o tom efusivo com que alguns receberam a notícia; tom não apenas efusivo, mas, diga-se em abono da verdade, de segura concórdia – levaria, por absurdo, que cada vez que um católico usasse a dita camisinha para “amandar um pirafo” sentisse uma culpa de tal forma avassaladora que não mais seria admitido – num exercício de auto-extirpação – na comunidade dos crentes. Ora, alguém no seu perfeito juízo, concebe um tal sentimento de culpa – sem ser obviamente no professor César das Neves – no mais mediano dos católicos? Nem pó. E se a regra máxima do crescei e multiplicai-vos foi tripudiada vezes sem conta (como podemos apoditicamente sugerir), que espécie de reconciliação é esta que leva tanto católico a reconsiderar a bondade da sua igreja pelo facto de esta se ter colocado de acordo com o espírito do tempo?

De duas uma, ou um católico assume que é um pulha, à luz das regras da sua própria religião, porque cada vez que deu um pirafo  usou a bem-dita camisa (o que não lhe faria mal nenhum, porque a pulhice, nos dias d’hoje,  não é coisa que se enjeite com essa facilidade), ou então, o que se afigura bem mais pragmático e saudável, assume que as regras foram feitas para se quebrarem e que a fé é na realidade essa faculdade de conviver com a transgressão do “grande outro”. Faz-me casto… mas não já – bem o sabia esse grande fideísta desconfiado que foi Santo Agostinho.

Tás masé maluco!

Sejamos claros: o direito à greve é um direito universal que deve assistir cada e qualquer trabalhador, seja ele um gestor multimilionário ou um “pica” da CP. Porém, o direito universal à greve não implica que eu considere moralmente justo que um indivíduo A faça greve, sem primeiro ter em conta as razões da sua reivindicação. Por exemplo, não considero justo que um piloto da TAP reivindique aumentos salariais, usando para isso a greve, num país onde o salário mínimo não ultrapassa os 450 euros. Ou seja, concordando no abstracto com o direito à greve, reservo-me o direito de não concordar com determinados casos particulares da sua aplicação. Nem isto encerra qualquer contradição. O investimento particular, concreto, num direito universal, abstracto, não deve ser confundido com uma moralidade universalista, caso em que a identidade entre conteúdo e forma seria automaticamente pressuposta. Se a forma é universal, garantindo assim a sua extensão máxima, o conteúdo não tem de maneira nenhuma que seguir o mesmo pressuposto.

Vem isto a talhe de foice por causa de uma petição que coloca lado a lado bolseiros de investigação e professores universitários. Mais uma vez, se o direito à greve por parte dos professores universitários é um direito que lhes assiste dentro da sua formulação universalista, não significa que devo concordar moralmente com ele. Quando mais não seja, porque a sua roupagem universalista encobre investimentos concretos de um grupo e dos seus recursos. Investimentos esses que só na aparência são partilhados, ou partilháveis, entre dois grupos que se encontram numa relação assimétrica. Assim, não creio que os professores universitários estejam particularmente preocupados com o facto de, quase por definição, explorarem os bolseiros que para eles trabalham. Caso estivessem, fariam greve em prol dos aumentos das bolsas ou da definição da situação de bolseiro. Nunca aconteceu, pois não?