Polvo à Lagareiro

É desporto nacional, lá como cá, a comunicação social bater no governo PT. Que as razões que assistem a este sistemático zurzimento são muitíssimo compreensíveis lá, não fazem luz sobre as razões subjacentes à sanha de cá. Lá, no Brasil, a comunicação social sempre detestou Lula e o PT. As razões que inclinam quase 90% da comunicação social para o candidato Serra não podem ser expeditamente explicadas por um ódio de estimação de base afectiva. O PT preocupa as oligarquias brasileiras – da indústria e da agricultura. Sobretudo estas últimas que num país com uma tamanha desigualdade na possessão de terra vivem em pânico perante a possibilidade de o PT avançar com uma reforma agrária ou qualquer coisa de semelhante. Pânico extemporâneo e despropositado, visto que o PT está longe de partilhar o radicalismo (na concepção demoliberal) que representa Chávez e as suas reformas.

Uma das últimas declarações proferidas por Lula que ouvi, expressa bem essa incomensurável diferença, e mostra claramente o quanto do pânico pela defesa das liberdades não é mais do que deslocação ideológica.

Disse Lula, anunciando a capitalização da Petrobrás, perante uma assistência ao rubro: “Engraçado que eu tendo sempre militado pelo socialismo, acabe sendo o autor da maior capitalização de sempre na história do mundo”. Referia-se à injecção de biliões na petrolífera Petrobrás e que, fazendo jus às palavras do presidente brasileiro, constituiu de facto a maior capitalização de sempre desde que o capitalismo é capitalismo.

Quando Índio da Costa, o vice de Serra, acusou publicamente o PT de se encontrar numa deriva chavista, as palavras do ideólogo da campanha tucana ecoaram gravemente no coração de todos os diligentes protectores da liberdade de expressão. Depois foram as associações judias a fazerem coro com Índio da Costa, vaticinando um futuro para a comunidade pior do que aquele que sobreveio após a Kristalnacht. As massagens ideológicas ao ego dos democratas sucederam-se. A “Veja” publicou, com grande destaque escarlate, uma capa com o polvo petista a engolir a democracia. Diversos comentadores glosavam o tema de Índio da Costa e as suas amplificações disseminadas pela comunidade judaica. A democracia, a liberdade de expressão, assim como a conhecem os brasileiros, encontra-se em perigo, e o “fascismo” chavista está prestes a ser imposto pela ditadura petista. Por último, veio Henriques Cardoso à liça e conjurou novamente o fantasma da falta de liberdade de expressão.

As tentativas de limitação à comunicação social, fazem a meu ver todo o sentido num país como o Brasil. Como é sabido, a comunicação social no Brasil encontra-se na mão de dois grandes grupos: o grupo Globo que detém grande parte dos jornais e televisões; e o grupo Folha, nas mãos da família Frias há mais de três gerações. Ambos os grupos estiveram sempre do lado do poder à semelhança do que aconteceu em todos – sem excepção – países da América Latina. O império Globo, por exemplo, foi um dos grandes aliados da ditadura militar brasileira, analogamente ao que aconteceu no Chile de Pinochet, na Venezuela pré-Chavez e na Bolívia pré-Morales.

O que devemos seriamente questionar em qualquer destes casos, são as razões que levaram a comunicação social, tradicional aliada do poder de direita e ditaturial, a tomar aguerridamente o lugar de oposição interna quando os governos Morales, Chávez e Lula foram eleitos democraticamente. Dentre essa multiplicidade de razões, porventura reduzidas a um eixo comum, ou seja, a imprensa latino-americana sempre esteve ao lado dos grandes grupos económicos e logo dos partidos mais conservadores, infere-se rapidamente a necessidade da regulação. Curiosamente, e no caso brasileiro, a regulação proposta equivale grosso modo às regras que são utilizadas nos Estados Unidos da América; daí que a acusação de ataques à liberdade de expressão não faça qualquer sentido, para além, obviamente, daquele que se lhe encontra subjacente: a defesa dos grandes grupos económicos que se vêem acossados com os governos de esquerda e esquerda moderada que entretanto subiram ao poder.

Esta imprensa está longe de ser imparcial e objectiva. Quando Dilma utrapassou os 50% de intenção de votos, nas duas semanas subsequentes, os escândalos do governo Lula sucederam-se, numa avalanche concertada entre os dois grandes grupos económico-mediáticos. Uma das estratégias mais interessantes é aquela que começa por uma investigação aprofundada de um determinado escândalo (ou suposto escândalo) de alguém do PT, mas que termina abruptamente quando esse mesmo escândalo começa a respingar para alguém ligado ao PSDB. Quando isto acontece – e aconteceu por diversas vezes – podemos ter a certeza que estamos em presença de um jornalismo de investigação selectivo – seja no Brasil como em Portugal.

Da mesma forma, quando Dilma descolou nas sondagens, distanciando-se 12% de Serra, este último foi atingido por uma providencial bola de fita-cola. Na altura especulou-se sobre o avassalador peso de tal projéctil, colocado na ordem dos dois quilos. As imagens deixam pouca margem para dúvidas: o candidato Serra só se apercebe que qualquer coisa o atingiu passado alguns segundos, levando a mão descontraidamente à cabeça como quem se certifica de fugaz impressão.

Logo Índio da Costa montou estendal nas televisões do regime a verberar contra aquilo que apelidou de “perigo petista”. O momento televisivo rendeu mais algumas paragonas na imprensa séria, e houve quem, apesar do desconhecimento de tão simbólico acontecimento, aventasse que aquele poderia ser um equivalente à Marinha Grande de Mário Soares.  

Algo de interessante, entretanto, se está a passar. Com as opinion pools a darem uma vitória mais que certa a Dilma Roussef, a Folha tem vindo gradualmente a aliviar a sua fúria contra Dilma e o PT. Até já vai publicando umas opiniões contrárias ao candidato tucano, como a declaração de o reputado físico brasileiro Rogério Cerqueira Leite, considerando “pífia” a actuação de Serra enquanto Ministro da Saúde do governo Fernando Henriques Cardoso. Sucede que as críticas a Serra surgem tarde no rescaldo de uma campanha deliberada de desacreditação da candidata Dilma Roussef. Campanha de desinformação que passou desde a falta de preparação política de Dilma – a contrastar com Serra – até às suas supostas posições aborcionistas – que deveriam encher de orgulho qualquer eleitor.

 Significa, tudo leva a crer, que até a imprensa, perante o facto quase consumado, começa a pensar que os inimigos de hoje podem vir a ser os amigos de amanhã.

Liberdade de expressão na “mídia” brasileira? Creio que será mais acurado falarmos de manipulação descarada e sem limites.

Os cegos da justiça

 

Um ilustre juiz que ouvi anteontem na telefonia queixava-se que alguns demagogos dentro da profissão aviltavam a imagem pública da magistratura, facto que levaria em sua opinião à pouca compreensão que os cidadãos denotam perante as regalias que os magistrados auferem. Segundo o sr dr. juiz, tais regalias – entre elas um subsídio de habitação – decorriam naturalmente da importância da missão a cargo de um magistrado, importância essa incompaginável com as preocupações mundanas que a todos nos assolam.

Segundo este raciocínio – e o juiz em questão parecia convencidíssimo da justeza da sua argumentação – para que o juiz possa ocupar a sua mente com causas fundamentais para os cidadãos, para que possa ter a necessária concentração em questões de justiça, deve estar afastado das minudência do quotidiano, como seja pagar a renda a tempo e horas.

Nada mais invocativo da república de filósofos poderia ser acrescentado ao repto deste juiz. E nada mais expressivo da arrogância e distância perante o cidadão comum a que os juízes portugueses se atribuem como essência da “faculdade de julgar”.

Para este juiz, a responsabilidade que a sua profissão acarreta (e esta nem sequer está em causa) merece regalias injustificáveis. Para este juiz, a sua profissão faz com que pagar a renda da casa seja uma distracção que interfere com a aplicação da justiça. Estranha equação. O que dizer então de um médico? Ou de um polícia? Ou de um psiquiatra? Ou de tantas outras profissões que implicam responsabilidades perante os cidadãos? Será que todos eles devem ter as suas casas subsidiadas pelo Estado? Claro que não.

Porém, o argumento do sr. dr. juiz refuta-se a ele próprio: se um juiz não se apercebe da tremenda injustiça que é subsidiarem-lhe a casa, então não tem capacidade para administrar justiça. Olhando para a forma como certos juízes se comportam em Portugal, uma tal constatação não nos surpreenderia nem um pouco.

Obscuro objecto indesejado

O que se passa em França pouco tem a ver com Maio de 68. Esse Maio foi engraçado. Houve porrada, também. Mas foi esta mitigada pela explosão estético-política que lhe serviu de respaldo. Actualmente em França não é a imaginação que se quer no poder. O que os jovens querem é que não os enrabem mais. Sem nenhuma outra imagem total da sociedade perfeita em esplendorosa utopia. Por isso as idades dos jovens que se encontram hoje na rua são sobejamente instrutivas. Se Maio 68 foi feito pelos universitários – e lembremos, num período em que, apesar de a universidade começar a sofrer um processo profundo de democratização, era ainda, e sobretudo em França, uma instituição fortemente elitista – os confrontos com a polícia actualmente são orquestrados por estudantes do liceu. Esta clivagem geracional faz toda a diferença.

Os jovens dos liceus de Paris, Marselha, Lyon, etc, não cultivam nenhum posicionamento ético-político, passível de ser vertido em teoria e de ser ensaiado enquanto desiderato para o planeamento de uma sociedade nova. Os jovens das periferias das grandes cidades de França, onde os confrontos têm sido mais violentos, querem apenas ter emprego quando chegar a vez deles e, se possível, que os pais e familiares não percam o deles entretanto.

Não sobraçam o livrinho vermelho do Mao a caminho da Sorbonne; mas organizam-se em estilo de guerrilha deflagrando diversos ataques simultâneos em partes opostas das cidades. Táctica de guerrilha, que mostra como praticamente nos encontramos em guerra-civil. Urbana, organizada, tenaz. E ainda bem.

O seu estilo, devo confessá-lo, afigura-se-me dever mais aos reptos sorelianos de violência espontânea contra o poder e os ricos que o sustentam, do que a aturadas leituras do prolixo Grundrisse. Julgo não haver uma ideia muito concreta do “porvir” como criticava Sorel os marxistas que colocavam os seus esforços numa planificação da sociedade do amanhã. É também uma guerra, multiplicada por várias lutas, por privilégios; ou seja, não os afectando directamente o aumento da idade da reforma, sentem que estão a ser prejudicados por algo que não deveriam ser eles a pagar. O mesmo sentimento de injustiça transformado em confronto pôde ser observado na Grécia. Eventualmente, mostrará algumas réplicas em Portugal e em Espanha. Mas o que interessa particularmente nestes casos, sobretudo tomando o exemplo grego, é a facilidade com que a onda de protesto e insatisfação é engolida novamente pelas relações sociais capitalistas. Leia-se: pelo dinheiro.

Hoje em dia na Grécia já ninguém se lembra dos distúrbios nas ruas, dos carros incendiados, dos jovens feridos e mortos, da Acrópole em chamas – metáfora mítico-poética que até teve a sua materialização em composições gráficas na internet. Tudo regressou à pacatez da vida económica assim como a conhecemos. Porquê?

Uma primeira hipótese, é que a Grécia caiu num limbo quer político (no sentido lato do termo) quer económico. Sendo o limbo uma situação indefinida, as soluções que dele resultarem serão sempre inesperadas. A pacificação social deu-se mais pelo esgotamento do protesto que não teve alternativa que não fosse a de aplacar a sua fúria perante o aluvião de privatizações que se anunciam. O governo grego, a este propósito, anunciou que privatizaria tanto sectores como os transportes – aliás, já parcialmente privatizados – como bens essenciais, tais como a água ou o saneamento. Este processo de privatizações galopantes teve, eventualmente, um efeito disuasor imediato. Começa a ser patente que a capacidade mobilizadora incide basicamente na população inactiva – estudantes principalmente – e nos funcionários públicos. As greves e manifestações de rua não são alimentadas pelo terciário e tão-pouco pelos sectores de investimento intensivo privados. Neste sentido, retirando a base de arregimentação aos protestos através da perspectiva das privatizações (que aumentarão previsivelmente no futuro) as lutas urbanas foram gradualmente aplacadas. O que surge como mais interessante no caso grego, é que estando a sua dívida completamente desacreditada pelos bancos internacionais, BCE à cabeça, quem se mostra interessado em investir maciçamente nas empresas gregas são os inevitáveis… chineses. Parece assim que o zen budista ficará ligado ao berço da racionalidade, não por via espiritual, mas por caminhos bem materiais.

Uma segunda hipótese, é a de que os protestos foram-se dissipando porque é da natureza dos protestos atingirem um pico e, a partir daí, caírem até desaparecerem. Não tendo mudado nada de fundamental, fugazes como têm sido estas guerrilhas urbanas contemporâneas, dissipam-se sem deixarem rasto, para além das pirotécnicas imagens que os registaram e das mortes com que se saldaram. Contrariamente aos protestos operários do século XIX e princípios dos XX, com seu cortejo de mortes e violências, mas que conquistavam vitórias parciais – seja nas condições do trabalho; seja nas organizações operárias; seja ainda na extensão da cidadania – estes novos protestos parecem desabar no imediato, não deixando para trás nenhuma conquista fundamental. É isso que, pelo menos a mim, mais surpreende nestas irrupções: a sua incapacidade transformadora.

Porém, uma tal constatação não nos deve fazer pender para a ideia de inutilidade destes protestos. Eles são essenciais; quando mais não seja porque estabelecem limites, mesmo que posteriormente reabsorvidos, mesmo que facilmente manietados, eles impõem uma espécie de perturbação crónica que nos remete a todos para a necessidade de nos pensarmos em crise. O velho tópico marxiano da crise como método? Sim, isso também. Mas aqui é, mais uma vez, o igualmente velho tropo soreliano de que a violência contra os poderosos (e não contra o poder, desde logo porque a violência é um exercício determinado de poder) é rejuvenescedora de um tecido social gangrenado. Por isso deve ser celebrada. Para além disso, à violência das negociatas financeiras, devemos, aqueles que não estão integrados sistemicamente nessas mesmas negociatas, opor a violência de que somos capazes: violência de rua; guerrilha urbana; paralisação da economia. É no fundo o embate de duas violências. Expressão óbvia de um antagonismo.

Seríamos felizes e abençoados se as coisas ficassem por aqui. Quer dizer, se as coisas se resumissem a um antagonismo cuja expressão relacional estaria nestes confrontos urbanos. Infelizmente, julgo que não é assim.

Putas

 

Em torno da votação do orçamento, tem-se assistido aos mais destravados golpes de cintura. Alguém recentemente caracterizou com exactidão sábia, as reviravoltas dos implicados. Disse: “São dois jotas a brincarem às juventudes partidárias e que julgam que os destinos do país são compagináveis com as guerras da JSD. Nada me parece mais certeiro.

A guerra de orgulhos que se tem ensaido em torno da votação do orçamento, inaugura assim um braço de ferro que não possui nada de substancial para além das questiúnculas reais em torno da sucessão ao trono. Nesse sentido, tanto Passos como Sócrates, comportam-se como verdadeiros monarcas, pondo e dispondo através das suas atitudes enfadadas, dos negócios da coisa pública como se se tratasse de uma simples dança de poderes – um em vias de extinção; o outro em vias de ascensão. 

O psicodrama encenado por Passos Coelho e o PSD está a dar os seus frutos. Por um lado, deixa o governo PS entre a espada e a parede. Ou seja, ao contrário do que dizem diversos comentadores, para os quais o chumbo do Orçamento seria uma bênção para o PS porque arriscaria a (pouca) popularidade de Passos Coelho, julgo que o PS será “preso por ter cão e preso por não ter”. Quer o PS saia reforçado eleitoralmente por um chumbo no Orçamento induzido pelo PSD quer seja responsabilizado pela catástrofe nacional a que este Orçamento nos condena (e da qual os comentadores afectos ao PSD têm insistido com assaz pertinácia), o socratismo tem os dias contados e o partido socialista português precisará – à imagem do que se vem passando em França – de iniciar uma grande reflexão sobre o seu papel e missão na terra, antes que se torne um partido verdadeiramente imaterial.

Passos é um cobarde, cheio de jogo de cintura e faces dúplices, tríplices e tetraplices… e por aí fora, num imenso refractar de “Passos” em espelhos convexos e côncavos, para todos os feitios e desejos. Enfim, um cavalheiro da fortuna para os tempos políticos conturbados em que vivemos. Na cabeça de Passos giram em turbilhão infrene duas ideias correspondentes a dois destinos igualmente tenebrosos: deitar o governo abaixo e ficar com a responsabilidade das medidas impopulares que virão após as novas eleições e a exigência de um novo Orçamento pós-eleitoral; ou passar o Orçamento e ficar marcado como sendo o político que deu mais tempo de antena ao PS de José Sócrates. Ambas as soluções são inconvinientes para o PSD. Reparem que digo inconvinientes, e não catastróficas ou terríveis. Isso, simplesmente, porque não o são. Aliás, o grande torniquete de Passos ao PS em fim de carreira seria aprovar um Orçamento em que a estratégia fundamental pertencesse ao PSD. Um orçamento PSD, por conseguinte. Nisso se afadigaram os homens da São Caetano à Lapa, e o que saiu do conciliábulo foi justamente a de impor uma redução de 4.700 milhões na despesa do Estado.

O PS disse-se disposto a negociar e pronto a contemplar propostas vindas de que sector político for – excepto aquelas que chumbam o orçamento. Passos encontra-se no fundamental de acordo com o orçamento. Como alguém disse, e nem sequer é grande descoberta, trata-se do orçamento mais à direita do pós-25 de Abril. Nesse particular, Passos não se pode dar por falsamente incomodado. Até porque o orçamento anuncia a inversão há muito esperada pelos sectores de direita – pelas elites, pelas oligarquias, pela inteligentzia –, inversão essa a ser consumada sobre a fórmula “os ricos que paguem a crise”. Única fórmula que faz sentido, porque se são ricos, é à total desplicência redistributiva do Estado que o devem. Ora como o Estado somos todos nós e não apenas uns senhores que se deslocam em carros negros com motoristas de óculos escuros (mas graduados…), e como “nós” os não-ricos, pelo menos até ver, somos a maioria, e muito significativa, a única fórmula de justiça social possível é a dos ricos, a minoria que concentra a “tranche” de leão do capital, pagarem a crise. Assim não entendeu o PS e o seu Orçamento; assim não entende (nem nunca entenderá) Passos e o seu PSD; e definitivamente, assim não entendem as oligarquias europeias. 

Assistimos, por conseguinte, e em jeito paradoxal, irónico, quase histriónico, à inversão total das expectativas deixadas no rescaldo da crise financeira de 2008. Se nela vimos a anunciação do admirável mundo novo do poder do comum, a institucionalização do que se tem vindo a organizar para negar essa mesma potência, vai precisamente no sentido contrário. O chock doctrine previa soluções draconianas – imposição de ditaduras, perseguições políticas, mortos e raptos – para efectuar a sua delapidação radical dos direitos dos trabalhadores e do trabalho. Actualmente, o choque é aplicado por via técnica, sem recurso ao aparatus do Estado todo-poderoso; bem pelo contrário: usam-se apenas as armas da retórica e do ajuste contabilístico. Mas a ideia é a mesma. O que se lhe encontra subjacente é uma crescente des-socialização do capital e concomitante mercadorização. Disso mesmo dá sinal a ideia de corte radical na despesa do Estado. O Estado-maior do PSD fez as contas e chegou à conclusão que era possível decepar uma despesa equivalente àquela que será recolhida com o aumento do IRS. A equação está à partida torpedeada, porque os valores são incomensuravelmente diferentes. O IRS arrecada 100 mil milhões de euros; a proposta do PSD corta 4.700 milhões de euros na despesa – ou seja, menos de 5%.

Os economistas da São Caetano à Lapa não são assim tão burros – oh não! – tomá-los por burros é o maior erro de qualquer observador interessado nestas coisas. O que eles propõem, dada a diferença abissal que separa o valor do corte com a recolha via impostos, é simplesmente um corte. Aqui não há qualquer substituição; não vamos sanear as finanças públicas sem recorrer a um aumento de impostos: isso é facto consumado. E os psds estão inteiramente cientes de que assim é.

O corte é uma preparação para o futuro. Vem embrulhado em retórica equilibradora e justicialista, mas nós não conhecemos onde, em que rubricas, as tesouras do psd exerceram o seu trabalho tonsurador. Apenas fomos avisados que era possível cortar a despesa do Estado para não recorrermos aos impostos directos. Uma mentira enrolada em retórica “eficientista”. Pois o que o psd quer é diminuir a incidência do IRS para valores mais consonantes com a sua tese de libertação do capital para o investimento – que foi justamente aquilo que nos levou à situação actual, visto que o capital liberta-se mas não é para a função de investimento em bens transacionáveis, mas sim para a especulação financeira. Do mesmo passo, corta, eventualmente com efeitos irreversíveis na despesa do Estado – embora não nos diga onde.

Está portanto a ser cozinhado o cenário de escalpelização do sector público que se anuncia nos anos vindouros. Vejamos, não digo que o PS não tenha uma imensa responsabilidade nesse processo – claro que sim, e a ele devem esses atentados serem assacados. Mas é minha convicção que o psd vai sempre mais longe, e que irá mais longe, e que a medida agora aventada assinala exactamente esse passo mais comprido na direcção da protecção do capital oligárquico ou das oligarquias do capital (como se quiser).

Em resumo, diminuição da incidência do IRS acompanhada de cortes ainda mais radicais na despesa do Estado consuma de facto a política de direita congeminada nos corredores de Bruxelas. Conseguindo fazer passar as suas intenções – e vertê-las para o OE 2011 – Passos ganha um avanço para poder encurtar ainda mais a despesa quando for a altura do seu reinado (para breve, obviamente). Dirá então que o responsável por essa solução tão drástica foi o PS, e que a ele só lhe resta reincidir na fórmula para sanear as contas do Estado.  

Essa reincidência não será apenas aparente, ou seja, não será apenas fruto de retórica e pendor ideológico. Se 2011 parece negro, 2013 será duplamente negro. Não é que a catástrofe anunciada pelo filme de Roland Emerich tenha sido protelada mais um ano e em vez de sermos varridos da face da terra por um tsunami de proporções ciclópicas em 2012, o seremos em 2013. Anuncia-se no horizonte um tsunami – é facto. E ele não é climático. É contabilístico. Esse tsunami dá pelo acrónimo PPP. Cacofonia patética, não se desse o caso de significar milhares de milhões de euros. PPP lê-se Parcerias Público Privado. O dinheiro emprestado pela Europa para os milhares de projectos celebrados entre os organismos do Estado e os privados – desde a construção de pavilhões gimnodesportivos em Vila Nova de Cerveira até a um qualquer estudo sobre imigrantes e o preço dos vistos do trabalho – terá que ser abatido em 2013. Fim do quadro comunitário, ou é como quem diz, altura em que nos deixam a vogar no mar europeu por nossa conta e risco. Dirão: mas a navegar, sobretudo a bolinar, sempre fomos nós bons! Suponho que sim; e grande precisão iremos ter dessa capacidade autóctone que nos distinguiu durante tantos séculos. Não parece é que a embarcação chega em grande estado na altura de ser largada em alto-mar.

O PSD quer inaugurar um novo ciclo de poder. Mas sabe que a conjuntura presente e aquela que se avizinha é aziaga, mais ainda do que as terríveis barbas do Adamastor. Nota-se uma certa relutância nas suas lideranças em avançar como que sem peias, de cornos erguidos, arremetendo contra o tsunami que já se avista. E não é de espantar. Esta onda não vai ser para tibiezas e dará todos os pretextos, e mais alguns, para lançar as farpas do capital a toda brida. Se este nos parece o OE mais à direita desde o 25 de Abril, esperem pelo próximo.

Autonomia, ou a doença infantil do pós-fordismo

Hipótese provisória: a aproximação gradual de Zizek a Negri. Basta para isso atentar nos seus escritos desde sensivelmente The Paralax View. Se nessa obra, Zizek ainda partilhava um certo saveur agambeniano, um pessimismo indisfarçável no que diz respeito ao homem e ao seu futuro, nas obras subsequentes tem semeado afinidades com um certo optimismo deleuziano que se encontra bem expresso nas teses de Negri. Começou em registo mais acentuado em “In defense of Lost Causes”: Bartleby desocupa o palco e entram em cena os quatro cavaleiros do apocalipse – que são 3 + 1, como Zizek faz questão de sublinhar reiteradamente a partir daí. Ora os quatro cavaleiros do apocalipse, noção assumidamente teológica dos antagonismos do capitalismo global, cavalgam os prados verdejantes dos “commons”. 

Entre a hipótese comunista de Badiou, esventrada pelo vazio do acontecimento, pela sua “indiscirnibilidade”, pela sua apenas declaração retroactiva, Zizek contrapõe uma hipótese comunista com antagonismos materiais. Segundo ele, é preciso salvar a intuição fundamental de Marx, ou seja, a noção de comunismo não enquanto ideal, mas enquanto “um movimento que reaje” a antagonismos sociais reais. Neste sentido, devemos rejeitar a hipótese comunista enquanto imperativo kantiano, enquanto “Ideia reguladora” alicerçada num axioma apriorístico de obtenção de igualdade, ao mesmo tempo que a perscrutamos na identificação de antagonismos concretos. Tão-pouco, o comunismo como “ideia eterna” sonhado por Badiou. Também aqui espreita o perigo de eternizar um móbil utópico que nunca encontra concretização…

Os antagonismos têm que ser contradições por relação a qualquer coisa. Em Marx, os antagonismos eram em relação à propriedade é à sua forma legal assumida pelo Estado. Mas estes dois tropos da hipótese comunista – Estado e propriedade – estão actualmente desacreditados – não são eles, quer na opinião de Badiou quer na de Zizek, que encerram os antagonismos cruciais para compreender as crises do capitalismo actual. Porém, a ideia comunista enquanto eterno princípio filosofante não chega para Zizek; também aqui se corre o risco de cair num formalismo paralisante que não tem capacidade para mudar nada de fundamental. Ora onde Zizek identifica esses mesmos antagonismos é nos commons de uma forma que guarda algumas afinidades com as teses de Negri. Aqui a adjudicação do princípio de rejeição do socialismo enquanto uma solução parcial é totalmente acompanhada por Zizek. O socialismo é meramente o capitalismo de rosto humano, uma falsa panaceia que apenas “universaliza a dimensão privada”, não a supera nem a transforma radicalmente. Desta forma, a questão da propriedade e do fim desta apenas é resolvida no comum. 

Temos por conseguinte um entendimento entre Zizek e Negri quanto a postular um “comum”. É na forma de chegar lá, que diferem, e muito. Desde logo, porque para o filósofo italiano, já lá estamos, ou seja, pouco falta para que o capitalismo tenha que reconhecer a existência do comum, melhor dizendo, a necessidade do comum. “Uma vez que o capital organiza a sua exploração aparacendo como “capital fixo” contra o trabalho vivo, no momento em que a componente do capital fixo é o próprio homem, “general social knowledge”, a fundação social da exploração capitalista encontra-se deteriorada, e o papel do capital torna-se puramente parasítico” (Zizek, 140). De acordo com Negri, com o suporte tecnológico actual, a media e a interacção que esta produz, a criatividade torna-se um bem colectivo, aliás, imediatamente colectivizável, parte dos comuns, de maneira que tentar privatizá-la (por exemplo, através do copyright, torna-se problemático quando não impossível). É fácil reconhecer aqui todos os tropos de um pós-fordismo em estado de latência infantil. Um pós-fordismo autonomista que não prestou atenção cuidada aos desenvolvimentos que entretanto se foram sucedendo. Um pós-fordismo que ficou congelado nos círculos de trabalho autónomo de meados dos anos 80 e princípios dos noventa e que entretanto esqueceu-se de ouvir as críticas e diagnósticos que eram feitas por tipos como Rifkin, Gorz ou Lipietz. Poder-se-á inclusivamente traçar uma analogia entre a famigerada “doença infantil do comunismo” e uma designada doença infantil do pós-fordismo. A segunda é fielmente representada pelos “negrianos”.

Nem todos os autonomistas são assim tão optimistas. Virno conserva algumas reservas a propósito do poder da multidão e da libertação “autonomista”. É na facção mais optimista – ingenuamente optimista acrescentaríamos – que podemos detectar todos os tiques e imprevidências da doença infantil do pós-fordismo.

Hipótese provisória dois: O afastamento generalizado dos “negrianos” em relação ao mundo do trabalho. O excesso de concentração em lutas e protestos avulsos, tem levado a pensar o “general intelect” como uma potência que quebra inexoravelmente os constrangimentos das estruturas capitalistas; mais propriamente, que transborda e assim fazendo submerge essas mesmas estruturas libertando uma força em bruto, força produtiva não mediada pelo capital: produção social pura e simples.

Não podemos de deixar de ficar surpreendidos sempre que lemos ou escutamos as análises dos negrianos com o seu inteiro – porventura aristocrático – afastamento do mundo do trabalho. Não apenas as suas análises surgem desfasadas com os processos reais do pós-pós-fordismo como a sua experiência pessoal avonde convocada para dar testemunho das lutas, na verdade irrupções, da multidão, não encontra paralelo numa putativa experiência (ou exigência) do mundo do trabalho actual. Não se trata de reeditar o tema sartriano do prático-inerte e da necessidade de experimentar Bilancourt para saber o que é Bilancourt. Mas pergunta-se se não seria exigível algum grau de afinidade com o mundo do trabalho que não passasse quase exclusivamente pelos lustrosos corredores da academia. É claro que aí, as formas produtivistas mutantes também se insinuam, e o produtivismo que era suposto ser escorraçado do mundo do trabalho assalariado com a subsequente substituição pela subjectivição plena da criatividade laboral é induzido na academia através de outras formas, mais subtis, menos espalhafatosas, e que determina porventura um erro de cálculo sobre as reais potencialidades do “general intelect”. Potencialidades libertadoras, evidentemente. Aventa-se que o “produtivismo” disfarçado de subjectivação global é, no mundo da academia, facilmente transformável em prestígio; e que essa capacidade de tradução representa um hiato entre a subjectivação geral do trabalho e a especificidade académica dessa mesma subjectivação.

O facto de a academia se assumir como locus incessante de criatividade exigindo para tal os típicos processos recenseados pelos autonomistas – criatividade, cooperação, comunicação, etc -, ou seja, uma sobrevalorização da troca simbólica sem a (aparente?) mediação do capital e da troca reificada, não significa que a mesma equação seja observada no espaço produtivo contemporâneo por excelência, ou seja, a empresa.

Este alheamento do mundo das empresas por parte dos cultores actuais do pós-fordismo autonomista, explica em grande parte que processos de exploração total possam ser confundidos – pelo viés da intelectualização do trabalho resultante do trabalho da intelectualidade – com processos de libertação da subjectividade. É justamente quanto a este aspecto que as análises do “general intelect” se tornam mais míopes.

Como tem sido frequentemente apontado pelos críticos do “Brave new world of work” para glosar um título famoso, assistimos, a despeito de publicitações diversas em contrário, a uma sobre-exploração da energia laboral. Evito a expressão força-de-trabalho porque ela encontra-se ainda demasiado colada a um paradigma marxista. No concreto, acredito que o problema geral da propriedade, e em particular da propriedade dos meios de produção, deixaram de ser, se alguma vez o foram, o núcleo da contenda pela igualdade. É verdade que o pós-fordismo, e os autonomistas sobretudo, devotam uma atenção especial às mutações do regime de propriedade nas sociedades actuais. A conclusão é conhecida: a propriedade imaterial é de difícil circunscrição; as tentativas de apropriação do trabalho intelectual (patentes, etc) são mutilações, verdadeiros atentados, à circulação imanente do trabalho imaterial, logo devem ser combatidas e rejeitadas, em favor de uma sua colectivização espontânea.

E no entanto, se há lugar onde a individuação da produção mais se faz sentir é nas actividades criativas; se há função de remuneração que equaciona directamente criatividade com indivíduo específico essa decorre seguramente das áreas mais criativas de qualquer processo produtivo. Por exemplo, as remunerações opíparas das personalidades do mundo da imagem – televisão, cinema, meios de comunicação em geral – somente são compreensíveis (e sustentadas) porque há uma ampliação do trabalho real – e da sua produtividade obviamente – efeito de uma imagem multiplicadora. O sistema criativo por excelência, é um sistema predatório das relações laborais assim como as conhecíamos. Basta ver que uma aparente invenção inocente como o twitter proporcionou ao seu inventor biliões de dólares sem qualquer contrapartida no espaço de bens transacionáveis. Ou seja, ao contrário do que diz Negri e Hardt, a despeito de toda a produção biopolítica – produção do social pelo social, de circulação de informação e de afectos, nas redes e no twitter – o que esta gerou foi uma concentração maciça de capital. De tal forma que o twitter irá ter cotação bolsista. Se isto não é o exemplo acabado de como a produção biopolítica não contém só por si o potencial emancipador que os seus arautos lhe atribuem, não sei o que será.

A cotação bolsista do twitter anuncia, por seu turno, desenvolvimentos, a meu ver, extremamente inquietantes. Primeiro, a comunicação pura, ou seja, sem nenhuma mensagem específica que lhe esteja adstrita, incorporada, é capital em estado igualmente puro. Daí que a fórmula de Zizek faça todo o sentido: inverter a fórmula da reificação marxista, consiste em observar que não são as relações sociais que são tomadas por coisas; são as coisas (capital incorporado) que são tomadas por relações sociais.

O fetichismo da mercadoria consistia em confundir, ou melhor, em hipertrofiar, o valor de troca pelo valor de uso. Caminhamos para um estado em que o valor de uso deixará de existir, a ser suplantado – submergido, na verdade -, pelo valor de troca do capital puro. Purificado da sua tangibilidade, o capital transforma-se em mero valor de troca. Mero? Palavra desadequada – é valor de troca absoluto!

Numa situação em que o valor de troca é absoluto, em que este substitui inteiramente o valor de uso, a concentração infinita torna-se possível. Ou seja, se o valor de uso é de facto o que diferencia a dimensão tangível do capital, e logo, permitindo uma sua diferenciação económica e social, a intangibilidade do valor de troca permite a concentração sem limites. E isto porque a sua incorporação de capital variável deixou de ser a medida do lucro. Passando a incorporar relações no seu estado puro, o capital tem apenas a medida da sua concentração. Em estado homólogo, mas a uma escala consideravelmente inferior (mínima, mesmo) podemos observar as relações do face book. Se dantes a qualidade das amizades pesava nas nossas escolhas, hoje em dia o diapasão do nosso leque de relações é a quantidade. São elas relações efectivas, duráveis, estruturadas? Isso tornou-se irrelevante. Por isso é que a discussão sobre a natureza dessas relações é fundamentalmente fútil. A natureza das relações não está mais em causa (seria o equivalente ao capital variável); importa sim, arregimentar relações, sejam elas quais forem, enquanto forma de acumulação primária. A “quantidade” do face book é a medida da fetichização actual: valor de troca puro. Por isso, é também virtualmente infindável; não existe limite para as pessoas que podem ser agregadas à nossa “acumulação primitiva” de capital social. Assim como não existe parâmetros exteriores para a sua exclusão ou inclusão. A relação tornou-se a única verdade da troca; relação enquanto modus vivendi, ou seja, um modo puramente relacional, para o qual os nódulos da relação sejam indiferentes desde que passíveis de incremento contínuo.

A uma escala desfocada, o face book e a mecânica dos seus encontros replica as possibilidades de concentração virtualmente infinita do capital contidas nos processos biopolíticos.