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Tango with Obama ou de como a arte, por vezes, nem sabe onde fica a realidade

Agosto 26, 2010

Tem o seu quê… de engraçado; quer dizer: o actor é parecido com Obama (ou julgavam que era o próprio Obama que se dispusera a um pequeno exercício de homoerotismo a bem da arte contemporânea?) e Martin Sastre até acerta o passo com o negro sósia do presidente dos USA que ele foi desencantar a Espanha…

Se a arte tem uma função política? Ui, a discussão é tão vasta que eu não saberia por onde começar, nem por onde acabar. Mas esta instalação (um tanto-ou-quanto pretensiosa, por oposição a “despretensiosa” como por vezes se quer numa instalação) tem certamente uma mensagem política. Ela simples; qualquer pessoa a entende. Saber se ela está correcta, isso é matéria para discussão.

Resumidamente, o que eu interpreto, de político, no sentido mais corriqueiro do termo, mais chã (agarra o tchan, segura o tchan, agarra o tchan, tchan, tchan…), mais maria vai com as outras, é que as atenções bélicas dos USA, cansadas dos fiascos médio-orientais (há que inovar nesta plasticidade textual de que falava o Ricoeur, mas nunca se deu ao trabalho de inventar palavras, e sobretudo quando elas se querem estapafúrdias, idiotas, iconoclastas, etc, etc) se virariam para o velho quintal da Latino-América (soy louco por ti Latino-América!!!) e mudaria a política do divide and conquerer apontando agora as baterias (de fósforo branco se for essa a ocasião, porque do outro diz que faz bem ao cérebro) para ufanos governos como o de Caracas ou o de La Paz. Com ou sem Obama a vingança divina cairia sobre as novéis democracias da América-Latina qual inevitável golpe celeste sobre Gomorra; mas parece que seria mais depressa com Obama (ilação que julgo desacertada, mas desde que seja uma pedrada no charco do eterno sublime do novo artístico, tudo vale para mais uma instalaçãozinha).

Depreende-se, portanto, da encenação de Sastre que bem podem os afegãos e iranianos ficarem descansados, porque o Armagedão vai dar-se na América-Latina tendo por objectivo antes de mais decapitar a cabeça da “Besta” que é neste caso a de Chavez. Que o Vale do Megido, onde o Apocalipse narra os acontecimentos da peleja entre deus e o resto da maralha, se transfira temporariamente para a bacia do Amazonas, tem que se lhe diga. É verdade que o espectro ameaçador da aliança entre um renovado bloco de esquerdistas (uns mais do que outros) bem no coração da América do Sul composto por países tão economicamente fortes como Brasil e Venezuela deve causar alguma urticária aos falcões de Washington. Assim como é certo que a promessa Obama não é Jeová e que não pode lutar contra todos os exércitos da terra, mesmo que para isso se sentisse inclinado. Todavia, forças ocultas que se movem por detrás da bonómica cabeça presidencial (e isto está cheio de cabeças… mas também o vídeo de Sastre concentra-se nos olhares trocados entre o artista e o sósia de Obama, logo em cabeças) podem de facto engendrar tenebrosos planos para transferirem o foco de atenção belecista norte-americano para aquilo que outrora foi o grande território de experimentação de criação do homem novo: o homo neoliberalis. Até porque o complexo bélico norte-americano, como não se cansou de dizer o Vidal (o Gore, e não o Carlos, o nosso Carlos) tem mais do que autonomia para pôr e dispor sem que qualquer governo seja para ali chamado. Mas desde aí até rebentar uma terceira guerra mundial com o coração no verde da Amazónia (e os índios, meu deus, o que seria dos índios?) vai um passo de gigante, mesmo para uma pequena humanidade.

Sucede que apesar da hostilidade e do ostracismo a que a Venezuela de Chavez tem sido sujeita pelo actualmente não-tão-gigante USA o bloco cada vez mais coeso que se vai formando entre Brasil, Chile, Bolívia, Uruguai, Venezuela, Argentina e Paraguai, que a seu tempo dará uma extensão do Mercosur, possui tantas e tão variadas ligações com a economia norte-americana – e não só com a economia: a nível académico, artístico, laboral, strito senso, e até político, lato senso – que dificilmente se antevê uma ruptura de algo tão consolidado só porque algo como um rogue state anda lá pelo meio. Ou seja, os USAs deixaram de agir a seu bel-prazer com os países da América-Latina. A conjuntura é nova. A doutrina do choque, embate contra democracias gradualmente mais consolidadas e deixou de ter o respaldo dos regimes militares de outrora; para além de que este eixo económico tornou-se de tal forma importante enquanto ligação com o eixo asiático que hostilizá-lo seria hostilizar meio-mundo.

De “Tango com Obama” fica a impressão generalizada que a arte, por vezes, só quer brincar explorando um efeito icónico novo e desestabilizador dos quadros quotidianos. E não é isso que grande parte da arte coeva faz?  

Chegados aqui (se entretanto alguém chegou aqui) poder-se-ão perguntar: mas que caralho está ele a falar? Pois é… É que a versão do youtube de Tango with Obama subtrai judiciosamente (capciosamente seria outro advérbio de modo a aplicar) as mensagens políticas que vão aparecendo ao longo do vídeo e que estão presentes no original. Contam-se depressa: USA declara guerra à Venezuela que por sua vez tem o apoio desse novo bloco económico formado por alguns dos países referidos anteriormente. A coisa embrulha-se de tal ordem que a terceira guerra é desencadeada por todos eles e tudo acaba num festival de fogo divino. E sempre ao som dos Guns and Roses, tirado de Apetite for destruction… Que a versão do youtube seja, digamos, aséptica, tem mais que se lhe diga do que qualquer interpretação que fosse devida à instalação de Sastre.  

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