Skip to content

A imaginação tecnocrática

Agosto 9, 2010

 

 Nos dias d’hoje há sempre um idiota qualquer a explicar aos outros como é que se faz e como sem ele o mundo era apenas um imenso manto de ignara inconsciência. Nada é mais esclarecedor desta obsessão do marcar presença, da vontade de aparecer, dos velhos cinco minutos de fama a que todos temos direito (reduzidos agora a luzidios cinco segundos de leitura) do que os comentários aos artigos dos plumitivos nos diversos jornais nacionais. A blogosfera é um pouco diferente: desde logo, porque ali se pode entabular uma conversa, mesmo que intermitente, mas que permite uma réplica quer do comentador quer do comentado. Nos comentários deixados avonde em seguro anonimato, como se os comentadores tivessem receio que o seu nome fosse arrastado pela lama da inconfidência jornalística – aí sim, aí surge em seu excelso domínio de obstinação macaqueada esta vontade indómita de fazer parte do grande círculo da comunicação incontinente.

As razões destas singelas linhas foram-me suscitadas por um comentário (o único, se não estou em erro) ao último artigo de Clara Ferreira Alves alias a Pluma Caprichosa. Acabara a escritora de fazer um trocadilho com o ponto de exclamação invertido que precede o Hola da famosa revista Hola, confessando a sua incapacidade em digitar o referido sinal ortográfico, quando um cretino cheio de exaltação epistular veio reprová-la pela sua putativa ignorância informática. Ora, independentemente de a plumitiva saber ou não introduzir o ponto de exclamação invertido a la espanhola, o trocadilho que se lhe seguiu fazia com que qualquer comentário fosse perfeitamente desnecessário. A ideia segundo a qual, assim como os dois pontos de exclamação – high and low – também a revista se encontra vocacionada para dois tipos de público – high and low – é uma óptima metáfora na qual, diga-se, o resto do texto se ancorava. Esta “âncora” era precisamente aquilo que desencadeava a narrativa; a sugestão ulterior de que os dois públicos – high and low – não eram mais do que o receptáculo do mais inóspito deserto de ideias. Deserto esse que desde sempre fora a griffe da revista Hola. Esta pressão para o detalhe académico que a admoestação de tão informado leitor ilustra, constitui-se igualmente em torno de uma proliferação de signos vazios, sem referência que não seja ela própria uma obsessão formulaica que cospe na integridade narrativa de textos alheios. Também ela é sintomática de uma esfera pública que pensa (e já agora – que se pensa) como um tribunal de última instância, um areópago que zela pela probidade da textualidade dos comunicadores públicos, sintoma, porventura, dessa inveja tão bem caracterizada por José Gil enquanto apanágio da sociedade portuguesa. Mas julgo que não se trata apenas de inveja. Temos que ir mais longe; press the argument. Sucede que esta postura-vontade de mestre-escola, este ímpeto para a correcção, esconde uma profunda falta de imaginação. O detalhe é uma arma de tecnocratas. Estamos por conseguinte perante um exército de tecnocratas do texto: que arrolam, escrutinam, sopesam, pormenores, vírgulas, acentos, falhas, deslizes… Enfim, um exército de espantalhos do computador que acham que a sua atenção filatélica é essencial para a higiene do sentido. Essa higienização do sentido – sentida em tantos comentários da blogosfera por exemplo; e em tantos textos – reduz o texto ao seu potencial informativo. Temos assim que o texto deixa de ser pensado como proliferação de formas, de investimentos semânticos, dos quais a metáfora é o paradigma e a alavanca adequada, para o reduzirmos ao seu esqueleto funcional.

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: