Povo Lda

O povo-conceito tem muito pouco a ver com o povo-realidade. No trajecto que liga o centro do Rio de Janeiro à orla, quando apenas um mar de favelas se vislumbra até perder de vista, quando aquela impressão do que será viver com merda, piolhos, baratas, insectos, ruas fétidas, um cheiro insuportável em virtude da mistura alquímica de fossas a céu aberto com monturos de lixo nas traseiras dos casebres, se começa a formar na nossa cabeça – primeiro como ilustração ténue do exótico quotidiano, à distância, depois, de mais perto, como a forma de vida excrementícia, de carne para canhão, de vida de expediente para comer, de vida de expediente para beber, de vida de expediente para foder, a perder de vista, sobretudo à noite, que os morros ficam iluminados como gigantescas árvores de natal e se ouve o riso gutural do santa claus nas sirenes da polícia que se arrastam como mortos-vivos pelas ruas esconsas do morro. As figuras espectrais, desta vez dos moradores, não dos polícias porque esses caminham rectos mas reciosos, alerta, como gatos  a farejarem a morte, as figuras espectrais animam-se com vozes e músicas que saem de tantas janelas que parecem buracos, ou de buracos que dão a impressão de janelas, donde por vezes assomam cabeças, habituados ao cheiro a merda, à fetidez do mijo dos putos arrastado pelos recôncavos das bordas das ruelas, com os seus passeios improvisados, as suas lonas a taparem poças, as suas rectidões improvisadas de betão…

É quando esta gente vem arrastada pelo andar estugado do metro, comprimidos como gado num vai-vém diário de olheiras e insónias, que nos apercebemos da estupidez do povo, que o povo-realidade, não o povo-conceito, não tem piada alguma; que o povo-realidade, arrastado em labutas exaustas e desperançadas, este povo, não tem pena, não tem qualquer solidariedade, não tem qualquer respeito; o povo que finca pés e mãos no estribo da porta do metro e que ali fica sem mexer um centímetro, de músculos retesados do esforço que faz para não perder o seu lugar, esse povo não é engraçado, não é emancipatório, não é filosoficamente imanente… O povo-realidade conhece uma linguagem e uma só: a da escassez. Mal ou bem, a luta quotiana é entre o desejo e a escassez. De tal forma que defender zelosamente o seu lugar dentro do metropolitano equivale a reivindicar um rincão de terra – “isto é só meu e quem quiser que se foda”. O povo é estúpido. Aguerridamente estúpido. Perante a escassez, os instintos mais básicos afloram às carcaças insurgidas de uma multidão que defende individualmente o que é seu. Mesmo que isso seja apenas e só o lugar dentro do metropolitano. O povo é de tal forma estúpido que ao invés de fazer como na educada Europa, sair do metro para dar a passagem a quem vai descer naquela estação e voltar a entrar com mais espaço do que anteriormente, prefere reter aquela multidão, porque sair do metro, por cortesia, por lógica, por solidariedade, por civismo, por respeito, por empatia, é ceder, e na cultura de escassez ninguém cede. A cultura da escassez, o hábito da escassez, ou a escassez feita hábito, só conhece o mata-mata, como aqui se diz na gíria, não funciona na base da concessão, mas sim do atropelo e da corrida.

O metro da orla do Rio de Janeiro, aquele que cai até à boca das favelas despejando como narinas aspergindo ranho uma multidão pesada e barulhenta é uma brava ilustração da violência do povo-realidade. É um belíssimo quadro, a contrastar com os folguedos estéticos e estitizantes do povo-conceito.

Bem se afadigam uma legião de filósofos do abstracto (em homenagem a Badiou cuja concepção de acontecimento por ele tecida só a consigo encontrar na passagem do figuracionismo para o abstraccionismo – esse sim, é o único acontecimento digno da alta exigência ontológica do évenment assim como o entende Badiou!) a falar do povo-conceito. No seu afã logoexcremental, falam, e falam, e belas palavras e frases produzem eles. É tudo merda. O povo não é aquilo. O capitalismo não é aquilo. Z-Jaz o famoso rapper que arrasta multidões de jovens do ghetto é dono de um clube de basquetebol e de uma marca de produtos de beleza femininos; Boaventura confessa com orgulho que possui uma colecção de mais de 400 santos que vão dos medievais aos contemporâneos; uma mulher de extrema beleza sofre da síndroma de dismorfismo de personalidade porque acredita que é horrenda e gasta milhares em operações plásticas; um bando de esfomeados concentra-se à porta de um pastor evangelista multimilionário e pede-lhe que partilhe com eles o segredo da sua fortuna; uma conferência sobre o povo e o fim do capitalismo é financiada pela EDP umas das maiores empresas portuguesas. Sinais de esquizofrenia. Pura. Não se trata de esquizofrenia e capitalismo – oh, por deus, não. É outra coisa. Talvez capitalismo seja um termo em desuso; talvez não expresse minimamente o estado de coisas. Por certo não é aquela fantochada de burgueses contra operários, que tem tanto cabimento nos dias de hoje como académicos profissionais a brincarem aos precários vítimas da voragem capitalista. Também não é a parlapatice dos desapossados dos meios de produção que os comunistas do starsystem tanto gostam de apregoar, mesmo que sejam homens da media, bem pagos e bem aburguesados. Lá está esta palavra novamente: nem sei o que isso significa, ser aburguesado, burguês, etc. Manuel Luís Goucha é, em última análise, um precário que ganha 40 mil euros por mês – não pode ele ser despedido a qualquer momento? Isto é outra coisa. Para qual falta ainda o nome. E da qual não é com certeza o povo o seu oposto dialético. O povo não tem piada. Só é engraçado visto à distância. Ninguém quer ser do povo, para além das tiradas pseudo-filosóficas, outras de filósofos profissionais, e outros ainda de jograis de um qualquer oposicionismo que convive muito bem com as premícias da abundância. Esse povo da fábula fica bem envergar em quermesses e coktails erudito-ecléticos para penduricar em currículos obesos. E o povo, o povo-realidade, o povo da escassez, manda-os a todos levar no cu.  

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Errar é humano – não reconhecer o erro é bronco.

O texto de Sérgio Lavos de concitação à manifestação contra o castigo da delapidação ainda praticado na República Iraniana é de uma parvoíce que irrita. Não devemos ser tíbios com as palavras, porque o que está ali escrito, irónico ou não -para o caso é indiferente-, é tolo e presta-se a todo o tipo de interpretações equivocadas.

Se o Sérgio não é um islamofóbico retinto – como eu acredito que não seja -, como tantos que enchem as caixas de comentários do arrastão, deveria ter-se apercebido disso. Só por capricho de prima-dona ofendida se compreende as justificações canhestras que SL tem dado e, consequentemente, a permanência daquele insulto à inteligência de qualquer pessoa minimamente preocupada com estas questões. O número – que se quer expressivo – não justifica a chamada às armas de todos os islamofóbicos do curral. Aliás, o que esta chamada às armas mostra claramente é a incompreensão profunda que SL tem do fenómeno islamofóbico. É que parece ele depreender que a islamofobia pode ser partida em bocados verdadeiramente reprováveis e em parcelas que até são aceitáveis. Caso consigamos expressar a indignação moral perante a delapidação aproveitando a parcela aceitável dos islamofóbicos então estamos porreirinhos e de bem com a nossa consciência. Estupidez; erro dele, má fortuna para todos os outros.

Um islamofóbico tem uma probabilidade muito grande de ser igualmente um “romafóbico” (ciganos) um negrofóbico… enfim, um xenófobo, tout court. A propósito de uma horrenda delapidação, SL fomenta uma manifestação xenófoba total: onde a xenofobia se vê caucionada por um discurso moral. O nazismo fez justamente isto.   

Radical left meets Heidi

O país da revolução, do no turning point, do no turning behind, do acontecimento, do radicalmente fracturante, do all or nothing, é afinal a Suíça. É lá que o escol de novos filósofos (não confundir com a cáfila dos nouveaux philosophes) se encontra para discutir, em longas e engraçadas diatribes, o futuro radicalmente libertário dos explorados pelo neo-capitalismo. Não só Marx errou as suas previsões revolucionárias quando anteviu a emergência do surto comunista na industriais Inglaterra ou Alemanha , como nem lhe passava pela cabeça que a Suíça albergasse um tal fermento revolucionário no sopé das suas luxuriantes montanhas. O bunker renascentista onde a vanguarda se reúne chama-se Saas-Fee. Ali germinam as mentes mais radicais… e têm razão em germinar, porque entre o strudell da manhã e as passeatas pelos caminhos de montanha, que melhor ambiente se pode imaginar para a frutificação de toda aquela radicalidade?

O sítio é a European Graduate School (EGS). Servida por um elenco de luxo de professores (quem é que não quer passar uma temporada numa estância de férias na Suíça – em Saas-Fee, que lindo!) não haja dúvidas que muitos serão os eleitos mas poucos, mesmo poucochinhos, serão os escolhidos que terão o prazer de confraternizar com aquele saber todo concentrado nos Alpes suíços. Podiam encontrar-se nas favelas de Lima, no Peru, ou mesmo na Universidade Mondlane em Maputo. Mas qual quê: um rústico edifício na Suíça proporciona um ar bem mais puro para congeminar a transcendência do mundo as we know it. Não congeminou Lenine as suas ideias revolucionárias na Suíça? Não foi na Suíça onde Hans Castorp se confrontou com as suas terrífeis alucinações que o mantinham refém da Zauberberg? Não foi por lá que Walser se entretinha a coleccionar microgramas até dar com os queixos de borco no gelo? Sim, sim, sim. Então porque não repetir o ritual inspirador para os radicais filósofos da nova vaga? Admirai-vos que os jovens discípulos da nova geração de filósofos comunistas dêem o cu e cinco tostões para se sentarem à mesma mesa que um Badiou, Zizek, Ranciére, Negri, DeLanda (o menos marxista, esquerdista de todos, mas achei que deveria igualmente figurar porque é mesmo muito bom)… e partilharem um Apfelstrudell e um Heiseschockolat? A miséria do mundo, para glosar um título igualmente patético, pode ser solucionada de forma bem mais eficaz com um bom Fru(umlaut)schtuck e depois de uma passeata a pé pelas faldas das montanhas de Saas-Fee. Se ao menos tudo fosse assim tão simples…

Tango with Obama ou de como a arte, por vezes, nem sabe onde fica a realidade

Tem o seu quê… de engraçado; quer dizer: o actor é parecido com Obama (ou julgavam que era o próprio Obama que se dispusera a um pequeno exercício de homoerotismo a bem da arte contemporânea?) e Martin Sastre até acerta o passo com o negro sósia do presidente dos USA que ele foi desencantar a Espanha…

Se a arte tem uma função política? Ui, a discussão é tão vasta que eu não saberia por onde começar, nem por onde acabar. Mas esta instalação (um tanto-ou-quanto pretensiosa, por oposição a “despretensiosa” como por vezes se quer numa instalação) tem certamente uma mensagem política. Ela simples; qualquer pessoa a entende. Saber se ela está correcta, isso é matéria para discussão.

Resumidamente, o que eu interpreto, de político, no sentido mais corriqueiro do termo, mais chã (agarra o tchan, segura o tchan, agarra o tchan, tchan, tchan…), mais maria vai com as outras, é que as atenções bélicas dos USA, cansadas dos fiascos médio-orientais (há que inovar nesta plasticidade textual de que falava o Ricoeur, mas nunca se deu ao trabalho de inventar palavras, e sobretudo quando elas se querem estapafúrdias, idiotas, iconoclastas, etc, etc) se virariam para o velho quintal da Latino-América (soy louco por ti Latino-América!!!) e mudaria a política do divide and conquerer apontando agora as baterias (de fósforo branco se for essa a ocasião, porque do outro diz que faz bem ao cérebro) para ufanos governos como o de Caracas ou o de La Paz. Com ou sem Obama a vingança divina cairia sobre as novéis democracias da América-Latina qual inevitável golpe celeste sobre Gomorra; mas parece que seria mais depressa com Obama (ilação que julgo desacertada, mas desde que seja uma pedrada no charco do eterno sublime do novo artístico, tudo vale para mais uma instalaçãozinha).

Depreende-se, portanto, da encenação de Sastre que bem podem os afegãos e iranianos ficarem descansados, porque o Armagedão vai dar-se na América-Latina tendo por objectivo antes de mais decapitar a cabeça da “Besta” que é neste caso a de Chavez. Que o Vale do Megido, onde o Apocalipse narra os acontecimentos da peleja entre deus e o resto da maralha, se transfira temporariamente para a bacia do Amazonas, tem que se lhe diga. É verdade que o espectro ameaçador da aliança entre um renovado bloco de esquerdistas (uns mais do que outros) bem no coração da América do Sul composto por países tão economicamente fortes como Brasil e Venezuela deve causar alguma urticária aos falcões de Washington. Assim como é certo que a promessa Obama não é Jeová e que não pode lutar contra todos os exércitos da terra, mesmo que para isso se sentisse inclinado. Todavia, forças ocultas que se movem por detrás da bonómica cabeça presidencial (e isto está cheio de cabeças… mas também o vídeo de Sastre concentra-se nos olhares trocados entre o artista e o sósia de Obama, logo em cabeças) podem de facto engendrar tenebrosos planos para transferirem o foco de atenção belecista norte-americano para aquilo que outrora foi o grande território de experimentação de criação do homem novo: o homo neoliberalis. Até porque o complexo bélico norte-americano, como não se cansou de dizer o Vidal (o Gore, e não o Carlos, o nosso Carlos) tem mais do que autonomia para pôr e dispor sem que qualquer governo seja para ali chamado. Mas desde aí até rebentar uma terceira guerra mundial com o coração no verde da Amazónia (e os índios, meu deus, o que seria dos índios?) vai um passo de gigante, mesmo para uma pequena humanidade.

Sucede que apesar da hostilidade e do ostracismo a que a Venezuela de Chavez tem sido sujeita pelo actualmente não-tão-gigante USA o bloco cada vez mais coeso que se vai formando entre Brasil, Chile, Bolívia, Uruguai, Venezuela, Argentina e Paraguai, que a seu tempo dará uma extensão do Mercosur, possui tantas e tão variadas ligações com a economia norte-americana – e não só com a economia: a nível académico, artístico, laboral, strito senso, e até político, lato senso – que dificilmente se antevê uma ruptura de algo tão consolidado só porque algo como um rogue state anda lá pelo meio. Ou seja, os USAs deixaram de agir a seu bel-prazer com os países da América-Latina. A conjuntura é nova. A doutrina do choque, embate contra democracias gradualmente mais consolidadas e deixou de ter o respaldo dos regimes militares de outrora; para além de que este eixo económico tornou-se de tal forma importante enquanto ligação com o eixo asiático que hostilizá-lo seria hostilizar meio-mundo.

De “Tango com Obama” fica a impressão generalizada que a arte, por vezes, só quer brincar explorando um efeito icónico novo e desestabilizador dos quadros quotidianos. E não é isso que grande parte da arte coeva faz?  

Chegados aqui (se entretanto alguém chegou aqui) poder-se-ão perguntar: mas que caralho está ele a falar? Pois é… É que a versão do youtube de Tango with Obama subtrai judiciosamente (capciosamente seria outro advérbio de modo a aplicar) as mensagens políticas que vão aparecendo ao longo do vídeo e que estão presentes no original. Contam-se depressa: USA declara guerra à Venezuela que por sua vez tem o apoio desse novo bloco económico formado por alguns dos países referidos anteriormente. A coisa embrulha-se de tal ordem que a terceira guerra é desencadeada por todos eles e tudo acaba num festival de fogo divino. E sempre ao som dos Guns and Roses, tirado de Apetite for destruction… Que a versão do youtube seja, digamos, aséptica, tem mais que se lhe diga do que qualquer interpretação que fosse devida à instalação de Sastre.  

Million Dollar Boys

“O Boaventura é o Bourdieu do século XXI”, ouço dizer. Se por isso entendermos alguém com a mesma exposição mediática e académica, um homem da razão activa por oposição à “razão indolente”, um interventor, um intelectual público e engajado em causas políticas, então sim, estamos de acordo. Se por isso entendermos um teórico das ciências sociais, um metodólogo, um homem da Grand Theory, então não – estamos em desacordo.

 Aqui devemos ter presente a distinção entre filosofia social e teoria social assim como esta é entendida pelo eixo anglo-saxónico. No primeiro termo cabe a reflexão sobre epistemologia, o leque de matérias sobre o qual as ciências sociais se devem debruçar, a construção do seu objecto, as metodologias a serem utilizadas. O segundo termo seria mais apropriadamente descrito como uma meta-teoria: a multiplicidade de abordagens teóricas, os níveis analíticos e a velha questão realista de saber se existem formas sociais no exterior da percepção e consciência.  

A escassez de trabalhos empíricos dentro da tradição hipotético-dedutiva torna igualmente complicado classificar Boaventura. Um outro teórico, porventura de maior craveira internacional, que não tem qualquer ensejo em participar desse grupo é Bauman; e é igualmente avesso a classificações simples. Porém, Bauman é um hermeneuta e assim gosta de se identificar, com gaúdio e sem qualquer pudor perante os seus concorrentes das teorias da escolha racional ou do bloco hipotético-dedutivo. Boaventura poderia ser igualmente considerado dentro de um grupo fluído de hermenêuticas. Todavia, embora sejam ambos reputados teóricos da modernidade, contrariamente a Bauman, o enfoque do teórico português tem sido as sociedades, na sua terminologia, semiperiféricas e dentre estas, e com especial atenção prática, os movimentos sociais, espécie de magma da mudança social no entender de Boaventura. E digo, contrariamente a Bauman, porque este, partindo analogamente de uma crítica da modernidade, tem-se debruçado principalmente sobre as sociedades do centro. Poderíamos inclusivamente vê-los como complementares nas suas abordagens críticas da globalização capitalista moderna.

Ora, nem um nem o outro partilham da vontade declarada de Bourdieu em empreender uma ciência social com bases empíricas, segundo os cânones de uma ciência hipotético-dedutiva. Uma abordagem cujo objectivo declarado fosse a generalização, mesmo que sem a ambição das leis da física, enveredando contudo pelo compromisso possível entre objectividade e explicação, à maneira das leis de cobertura nas ciências sociais, composta por conceitos aplicáveis em todos os contextos, transhistóricos e capazes de constituírem um saber comulativo – assim são as noções de habitus, capital e poder simbólico. Bourdieu foi para além disso um sociólogo indeciso, ou seja, indeciso no sentido de sempre ter claudicado entre a sociologia e a filosofia: umas vezes mais abertamente, outras de formas mais implícitas. A importância que Bourdieu atribui às formas simbólicas é sobejamente conhecida para aqui acrescentar o que quer que seja, e esta encontra-se estreitamente ligada a uma teoria da linguagem e das suas utilizações políticas que vinha a ser desenvolvida desde as investigações sobre a ontologia em Heidegger. Mas ela é para além disso decisiva na sua concepção de uma sociologia antropológica ou de uma antropologia que encontrasse invariantes no mundo da sociedade ocidental.

Salvaguardando as diferenças, poder-se-ia dizer que a Pasagarda de Boaventura cumpre a mesma função das populações Kabilas estudadas por Bourdieu. Ambas cumprem a mesma lógica de recuo perante o familiar, o próximo, o já conhecido. E não por acaso, o mesmo recurso a efeitos de linguagem – metáforas, metonímias, oximoros – surge frequentemente nos dois autores. Recorde-se o sistemático uso de oximoros por parte de Bourdieu: “o exotismo do doméstico” ou a “exteriorização da interiorização”, etc, e compare-se com o uso igualmente frequente da mesma figura de retórica por parte de Boaventura (e aqui estaríamos no terreno de uma ciência social enquanto literatura, ou pelo menos enquanto mais devedora do literário do que dos procedimentos hipotético-dedutivos e logo totalmente rendida aos procedimentos hermenêuticos).

Porém, as proximidades entre os artifícios retóricos dos dois autores não apagam as gigantescas distâncias teóricas. Também aqui é instrutivo ter presente estas leituras fundacionais do “exótico doméstico” quer da Argélia francesa de Bourdieu quer da Pasagarda de Boaventura. Porque se no primeiro a premissa que guiará a sua perspectiva teórica subsequente aparece como o pré-discursivo feito corpo da sociedade Kabila, no segundo é o pré-normativo feito senso-comum da Pasagarda de Boaventura, aliás, Jacarezinho, a favela na orla do Rio de Janeiro. Ora, tais opções analíticas permitem alicerçar teorias da prática qualitativamente diferentes; e, decorrentemente, teorias do discurso também elas diversas. Se para Bourdieu, o pré-discursivo encontra-se no corpo moldado pela tradição observado nas populações Kabilas e mais tarde no corpo classista da sociedade francesa moderna, para Boaventura o pré-normativo encontra-se nas solidariedades refractárias à institucionalização, sobretudo de um poder centrípeto como é o do Estado. Sumariamente, e dando um salto teórico não autorizado, a consequência é a que se a prática para Bourdieu é quase inerme à teorização, para Boaventura a teorização só faz sentido quando vertida na prática. E estas são posturas teórico-epistemológica radicalmente diferentes. A desconfiança por princípio de toda a teorização que não fosse simultaneamente acompanhada de uma verdadeira revolução nas formas simbólicas interiorizadas pelo corpo, é francamente contrariada pela noção de “rebelde competente” cunhada por Boaventura. Os rebeldes competentes de Boaventura são indivíduos que não desligam a prática da teorização, e que não temem o pecado de “intelectualismo” tantas vezes apontado por Bourdieu. A teoria serve para guiar a prática sendo que esta tem que ser integrada nesse mesmo exercício de contestação prático dos movimentos sociais como se deles fosse uma segunda natureza.

 Há aqui uma distância “relativamente” oposta nas apropriações que os dos dois autores fazem do marxismo. Partindo ambos de uma crítica do conceito de “falsa consciência” chegam a conclusões também elas antagónicas. Para Bourdieu não existe nenhum momento iluminador, nenhum rito de passagem que quebra a ilusão ideológica, até porque esta já se fez corpo e como tal não vive no intelecto, na superestrutura. Para Boaventura a ilusio só pode ser quebrada através das margens e nunca com as ferramentas que o centro oferece. O refractário, o marginalizado, o subjugado…é daí que surgem essas tantas outras vozes que têm quase que por função, quase imanente, estaria tentado a dizer, quebrar a ilusio do centro, dos múltiplos centros, engastados num vórtice cujo nome se pronuncia “modernidade”. Ora para Bourdieu o corpo que melhor sabe é o do trabalho, e por isso a sua confiança emancipatória é ainda deposta no sindicalismo, mais propriamente, nessa grande promessa moderna, o internacionalismo operário. Boaventura, saltou definitivamente na iron cage da modernidade e grita aos quatro ventos que a mente que sabe é a do castigado por essa mesma modernidade, o esquecido, o vilipendiado, o apagado do cânone, essa ferramenta absolutamente essencial para todo o pensamente generalista propriamente moderno.   

 Certo: para ambos a sociologia é um desporto de combate.

A miséria é única!

Quando é que este país se habituou a conviver pacífica e alheadamente com a miséria ? A miséria quotidiana, dos sem-abrigo, dos rotos e esqueléticos que nem na favela moram, dos famélicos que imploram por um pedaço de pão para comer… Quando é que este país – de desigualdades radicais e múltiplas – se habituou a considerar normal a existência de pessoas a morrerem de fome nos passeios, a dormirem enrolados em mantas infectas, a falarem sozinhas vítimas da loucura que advém com a solidão e com o desprezo? Quando foi que a burguesia deste país, orgulhosa do seu liberalismo, da sua constituição tão avançada para a época e que ainda hoje pede meças às constituições dos seus congéneres ocidentais e ditos desenvolvidos, se habituou a considerar normal o cortejo de desventurados do bem-estar e do conforto que juncam as ruas como outras tantas canoas de índios Tupi abandonadas no fragor da conquista portuguesa? Quando?

Por mais que ele cresça, o país, por mais que economicamente…ponham os olhos nisto suas esquálidas carcaças ocidentais!, por mais que o relato dos seus feitos coevos seja como lambidelas de ferida de um subtexto que anuncia uma permanente dúvida (será que cheguei onde queria?, será que um dia serei o verdadeiro, o único, conforme a promessa?), a miséria que desce dos morros, tão esquálida quanto invisível – e é nisso que ela se torna: invisível, a despeito da sua presença insidiosa; paradoxo gratificante para uma classe média em ascensão…acelerada, rápida demais para olhar para trás, como o anjo da história… quer esquecer o passado, esse que ou se esquece ou se compromete a possibilidade de ultrapassar os seus erros – tem por destino ser relegada para um subconsciente quotidiano… porque é a isso que ela é condenada: a uma indiferença diária… de lojas, de consumo, de dinheiro que troca de mãos a uma velocidade vertiginosa, de mil um esquemas de sobrevivência, surpreendidos na faina diária para um prato de arroz com feijão e com muita, mas mesmo muita, carne.

Existem esqueletos humanos que se passeiam pelo ocaso. Sombras herméticas que descem num anonimato comprido de lonjuras humanas e que se apagam, gradualmente, absorvidas por uma lura negra de míngua.

E o asno sou eu?

Comentário idiota a comentário idiota enche o galo o papo. Podia ser o mote para uma apreciação, conquanto distanciada, sobre os usos do comentário idiota na blogosfera hodierna (sendo que não há outra). Mas não: trata-se somente de uma chamada de atenção para quem, sempre me pareceu, julgar ser mais rápido do que a sua própria sombra.

Respigados alguns comentários blogosféricos sobre o julgamento público a que Duarte Lima está a ser sujeito, noto alguma veemência na parvoíce extemporânea. Então não é que sentem existir uma dualidade de critérios no tocante ao segredo de justiça? Então não é que dizem, broncos e vociferantes: ah, agora já ninguém reage contra a violação do mesmo…! Então não é que se esqueceram que o caso está todo (mas todinho) escarrapachado na imprensa brasileira – país onde presumivelmente Duarte Lima terá cometido o hediondo crime – sendo que na pátria do goleiro Bruno falar de segredo de justiça era como falar de direitos humanos no pátio de Auschwitz há 50 anos atrás!

E depois quem faz comentários idiotas sou eu…