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Pessoa desce numa pororoca

Julho 12, 2010

Do alto de Santa Teresa, junto ao Parque das Ruínas, aguarda-nos uma vista ao bom e velho estilo Manhattan cartão-postal. O centro do Rio, com seus não-tão-gigantescos prédios, todo ele luz e neons sobre o pano negro e fundo da Baía da Guanabara. À noite a baía é negra e dela apenas se distinguem os contornos desenhados pelas luzes de Niterói.

O sítio chama-se Terra Brasilis. É um hostel. Da sua varanda é onde se pode avistar esta fotografia Rio-Manhattan, apenas interrompida pela nobreza rústica do morro de Santa Teresa e do famoso bondinho que vai calcando a vertente no seu vagar de outros tempos. Do outro lado fica a ladeira e a muito requisitada – para fotografias e vídeos – escadaria Seleron. A beleza de tal coisa é discutível; mas o facto de em torno dela se cultivar um verdadeiro culto não precisa de confirmação.

Ainda no topo, bebo um chop com aquela imensidão a meus pés. Contrariamente ao que seria de esperar, aquela varanda imensa, decorada de camas-de-rede e bancos do sertão, está vazia. Pergunto à moça que me serviu o chop, se ali não devia estar cheio de gringo? Ela fica meio incomodada e diz que a altura não é a melhor. Mas eu sei que as pessoas não sobem por receio. O mesmo receio do casal negro que me avisou para não subir porque a ladeira “àquela altura da noitte era bem perigosa”. Qual perigo? Só se for o de ficarmos sem respiração perante aquele cenário. Nada que não se consiga curar com mais uma cerveja geladinha. E por ali fico a inspirar aquela imensidão de luzes, luzes esguias que deslizam pela encosta para se irem encontrar no furor da Lapa.

A Lapa, ah a Lapa. Num canto escondido de uma rua penumbrenta fica o Beco do Rato. Lá, onde flúem sons de samba castiço, do interior da alma carioca, e onde mulheres e homens enamoradas se encontram para um arrasta pé. A Lapa regurgita vida: alternativa, nocturna, estranha, por vezes perigosa, alcoolizada, parda, como os gatos. É isso aí: os gatos da Lapa são pardos. Há brancos, mulatos, negros, e nessa confusão policrómica as paredes vão-se munindo de sombras pardas. O rio de cores é o Rio das cores… Os “negões” vão debitando piropos às mulatas que passam, altivas, pelos passeios da confusão. É tempo de encher a pança com carne do sol e aipim, regada com cerveja, sempre com muita cerveja… porque o calor não nos dá descanso, o suor escorrega pelas costas na sua lentidão de bicho preguiçoso… e as mulatas vão passando, alheias aos olhares concuspiscentes dos negões da malhação. Pouco tempo se perde com estas minudências: o caudal de gente não estanca; os olhos têm muito que remar contra a maré. E como diz o povo, se é verdade que há mais marés do que marinheiros (no que eu não tenho por certo) também é certo que quem não sabe nadar corre o risco de se afogar. E se é verdade que navegar é preciso, não quer dizer que Pessoa desagúe numa pororoca num qualquer braço do Guandu. Não é hora de Pessoa. Nem sei porque lhe prestam tanta homenagem… Ou prestaram. Pessoa é o oposto da alma Carioca. Pessoa, o homem dos paradoxos, vontade de ser e não ser, dar-se-ia bem com o Drummond do “amor é privilégio de maduros/”? Pois, não sei. Nem me interessa. Porque quando chego aqui, assalta-me o Lima Barreto

Trazemos dentro de nós sentinelas perdidas

Que devem gritar sempre e muito forte: alerta!

Porém, que vão passando a vida adormecidas,

Deixando a porta da alma inteiramente aberta!

Então saio do táxi. Pago o que devo pela janela entreaberta. Subo no elevador para o lado escuro do Botafogo, o lado adormecido… e lá cai nos braços de sua mãe e regressa a Pessoa como se nunca dele tivesse saído.

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