Skip to content

Pequenos ódios de estimação I

Julho 5, 2010

Mesmo assim, não consegui disfarçar a alegria pela vitória da Holanda sobre o Brasil. Existe um mito, por aqui difundido, e partilhado pelas quatro partidas do mundo, segundo o qual o único escape que este povo tem é o futebol. É ele, o desporto rei, que aqui há muito que é imperador, que faz o brasileiro, de outra forma vergado sob o peso das duras condições de vida que carrega do morro para a cidade e da cidade para o morro, sonhar. É do futebol que o brasileiro retira a esperança, de outra forma para sempre adiada, enredada que está nas inúmeras contrariedades de uma vida dura, demasiado dura. Balelas. O futebol é uma imensa máquina publicitária que mistura um marketing bem planeado e consumista com um orgulho nacional descomedido. De tal forma que após a derrota, multiplicaram-se os elogios fúnebres dos vários comentadores, exéquias acompanhadas por actores e personalidades diversas da globo, num frenezim pouco comum até porque se tratava de um funeral.

Os lutos são momentos complicados. Sobretudo actualmente, onde a proximidade da morte é algo de incómodo; onde, por via de múltiplos mitos de eterna juventude se encontra particularmente dificultada essa relação ontológica que é a de saber lidar com a finitude. Apesar das inúmeras e reiteradas chamadas de atenção para a dimensão lúdica do futebol (e alguma vez ela existiu?) os exorcismos, de uma violência inaudita por paragens europeias da Aufklarung, não se fizeram esperar. Violência extrema manifesta no enxovalho a que Dunga foi sujeito, cordeiro sacrificial de um povo que se considera o escolhido… da América do Sul.

Esta animosidade contra o seleccionador, por estes dias encarnando o bode-expiatório de toda uma nação, poderia apenas ser aplacada pelo regozijo, mau, brutal, feio seja porque prisma for encarado, com a derrota e consequente afastamento da Argentina. Se há lugar onde a mesquinhez perdura é nesta relação atribulada que os Brasileiros mantêm com a sua vizinha Argentina. Devo dizer que nem os jornais considerados minimamente sérios, ou seja, sem aquele gostinho de pasquim amarelo de tantos outros que por aqui vicejam, fugiram à xenófoba e elementarmente primitiva chacota contra a Argentina. Maradona foi apoucado até quase uma condição animalesca. Os Argentinos foram gozados por equipas de televisão da globo – nas suas diversas versões de mofa e palhaçada – à saída do jogo, mesmo às portas do estádio. Programas ouve que utilizaram um linguagem tal relativamente à Argentina que nunca por nunca seria permitida na velha Europa.

Esta derrisão deixa-me francamente incomodado. Um país que necessita de se levantar dos escombros – e o exagero fútil de sofrer televisivamente uma morte mais que anunciada não pode senão ser tido em conta da mais orgânica mesquinhez – rindo com a miséria do seu vizinho, é algo que roça o patológico – o patológico colectivo, se tal coisa existisse, e eu até acho que sim, que pode existir…

Anúncios
One Comment leave one →
  1. Fabrício permalink
    Julho 6, 2010 11:47 am

    bravo! belíssimo texto. concordo plenamente, inclusive postei na acanhada Narroterapia um texto com o viés semelhante aproveitando a derrota para a holanda.
    abs

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: