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E do meio da lusofonia só amores guardei ao meu cartão de crédito

Junho 28, 2010

Quão diferente é o Rio de Janeiro actual daquele que Freyre apodou de “filho de Lisboa”. Quanto dessa Lisboa romântica descrita por Freyre nas primeiras páginas de Aventura e Rotina se encontra nas paredes lisas dos centros comerciais, nas lajes acetinadas do novo Terreiro do Paço, nas varandas burguesas dos prédios do Estoril? Se continuidade existisse – entre um Brasil crivado de influência do espírito luso e uma Lisboa romântica e em paz com a natureza – ela transportou-se para os centros comerciais, os viadutos, os cineplexes, as casas de hambúrgueres, os outdoors com as estrelas do futebol nacional… Nada disso retira um pingo que seja à ideia de continuidade. Continuidade, sim; mas continuidade num outro eixo, numa outra matriz; transporte de uma coerência “lusológica” para uma incoerência globalizadora. Pequenos retalhos aproveitados em jeito filigranado de uma identidade comum esmagados pela voragem consumista, tardo-capitalista? Porventura, nunca essa afinidade tão esmagadoramente pressentida por Freyre nas suas páginas de uma ciência luso-tropical existiu. Porventura, apenas nos olhos de Freyre comprometidos com o mundo moldado pelo português como matéria-prima criada por efeito alquimista, essa continuidade espalhada pelo lençol de uma identificação tão comum quanto imediata, tão inteira quanto verdadeira, foi uma evidência. Olhando o Rio, o centro, a sua cinelândia, com evocações de brodway tropical, o que eu vejo é Nova York e não a pequena e provinciana Lisboa, envergonhada com a sua timidez de pelourinho e as suas ruelas de desfecho escuso. Na planura do gigante Rio de Janeiro, não surgem em mim as imagens de uma Mouraria ínvia ou de um Rossio feito imitação das grandes praças imperiais europeias. O embate é outro. O choque é o de um Molloch tropical correndo com a pressa do dinheiro, do crescimento económico que é anunciado intermitente e persistentemente nos canais de televisão públicos, da miséria conspícua de braço dado com a ostentação mais descarada. Tão-pouco a configuração sinuosa dos seus passeios marítimos se aproximam à retctidão do encontro de Lisboa com o Tejo. O Botafogo não é Belém; Ipanema não é Carcavelos; Copacabana nada deve à Costa da Caparica… Este mundo está a milhares de quilómetros – históricos, poéticos, literários, ideários… – das nossas viagens de comboio de Cascais até ao Cais do Sodré, dos nossos passeios rústicos a Sintra, a Cintra, como ainda a escrevia Freyre, do nosso deglutir bulímico de travesseiros e queijadas. Que me perdoe o grande Gilberto Freyre, mas no Rio de hoje já nada se encontra que alguma fez o português tenha criado.

A língua. Ah sim, a língua. Partilhamos esse veículo da menor ambiguidade possível, do encontro tão discreto quanto impulsivo que é a partilha de palavras mesmas, de expressões imediatamente reconhecíveis… Nem isso… Vejo-me forçado a quase soletrar um expresso curto para a menina do balcão da cafetaria que deixou de ser café e que semelhantemente sequer se compadece com a minha urgência por um pequeno-almoço porque esse, aqui, não possui existência.  

O Rio é outro mundo. Nele nada ausculto de portugalidade, de fusionismo original lusitano, de franciscanismo luso. Enquanto assisto ao curioso embate entre os putativos países irmãos – embate futebolístico que qualquer outro mais pareceria David e Golias – ouço remoques tão fusionistas quanto aprazíveis como “português filho da puta” ou o mais geográfico “filho da puta vai para Lisboa” – para os jogadores bem entendido, que eu por aqui, por mais que me pesem as gritantes teodiceias de Freyre não arrisco um olé bem estirado quando uma qualquer finta portuguesa me dá oportunidade para isso. Foram raras, diga-se a abono da verdade – as oportunidades, quero eu dizer…

E se, nem analógicas, nem metafóricas, são aceitáveis as comparações entre Lisboa e o Rio de Janeiro, porque persiste alguma intelectualidade dos dois lados do grande oceano em colocar-lhes os contornos onde apenas a distância incolmatável existe? Ocorre-me a presteza com que Rubem Fonseca coloca o apelido Kibir ao seu herói em o “Seminarista”. Kibir, vindo lá de bem longe das planícies pedregosas de Alcácer Kibir, onde D. Sebastião, assistido de suspeita virilidade pela pena do escritor, ganha vida no assassino contratado que espalha máximas latinas em cada crime cometido. Dá para compreender?

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Falando de Rubem Fonseca, o que eu considero motivo de indagação na sua escrita, para além de muitos outros onde não me vejo competência, é a estrutura psicológica dos seus personagens. Numa primeira impressão, o grotesco dos personagens não encontra paralelo com a vida real. Aliás, a quintessência dos livros de RF é justamente a fantasia mais declarada e sem receios, tão rara na literatura portuguesa do século XX, e mesmo na Brasileira desse mesmo século (tanto quanto conheço). Mas pensar que aqueles personagens são hipérboles de modelos chandlerianos (de Raymond Chandler) é falhar o essencial. E esse para mim consiste em, reduzida a bizarria dos momentos e acontecimentos que povoam a literatura de RF damos de caras com o Carioca em toda sua beleza e fulgor. Se tal coisa existir, ou seja, um tipo fixo que caracteriza um habitante de uma cidade, de um estado… Não acredito nessa linearidade. Porém, alguma coisa deve constituir a ilusão de uma essência, caso contrário não estariam em grupos compactos, nos botecos do Flamengo, do Catete e da Glória, gritando em uníssono Brasil campeão!

O que existe de matricial nos personagens de RF é essa capacidade ímpar para a dissimulação. Sejam mulheres, ou homens, até mesmo crianças, todos comungam dessa técnica fantástica que é a de ser bem sucedido nos mais elaborados, como aqui chamam, esquematismos. E nisso, perdoem-me o preconceito – mas o que seria do mundo sem a sua beleza organizadora -, o Carioca é exímio. Por isso o Malandro é tão presente na cultura carioca moderna. Ele aparece como herói romântico, conquanto por vezes agressivo, e mesmo violento. Mas consubstancial ao modo de ser carioca está essa tendência quase impulsiva para o engano, para a impostura, para o engodo. E isto em todas as áreas da vida, se é que de áreas podemos falar.

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