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A Morte de Saramago

Junho 19, 2010

 

Morreu. Não posso de deixar de me sentir combalido, tocado, magoado, mesmo que fosse uma pessoa com quem nunca me cruzei, que estivesse a uma distância física gigantesca. Porém, fiquei abalado com a notícia da sua morte. Não como quem fica abalado porque a morte abala, cevando os sonhos e as promessas de alguém (essa promessa eternamente incompleta que é uma pessoa em vida); tampouco como o abalo que sobrevém quando se deixa de ver um rosto, de ouvir uma voz que nos é próxima, fisicamente próxima, e de quem sabemos ser a ausência sempiterna. Muito menos como quem sente a perda de um símbolo nacional, a insigne figura que completava um todo coerente a que se poderia chamar a “alma da nação”. Nada disso. Sinto saudade dos livros que ele não mais escreverá. E isto, que assim dito soa a platitude de “programa da manhã”, é absolutamente real e concreto quando se instala a presença dos seus livros passados. Na memória, claro está; na memória.

Lembro então o meu assombro com o Memorial do Convento; a comoção ao ler as páginas humanas demasiado humanas de Levantado do Chão: o carreiro de formigas, contadas, e recontadas, pela vítima de espancamentos da PIDE, tão vívidos através da memória escrita que Saramago nos legou.

Não eram os livros. Ou seja, não era o enredo, a narrativa, o ir de A para B numa cadência de estilos e de semânticas. Foi, bem assim como viria a suceder com a sua morte, a experiência de uma nova linguagem. Foi isso que se abriu; foi a isso que me abri. Na oralidade de Saramago – a tal tantas vezes alvo do anátema de “analfabetismo” por bestas analfabetas – havia algo de intenso, a anunciação de uma nova harmonia, essa mesma anunciação que Saramago tantas vezes viria a parodiar. A sensação que eu tinha (perdoe-se-me a puerilidade da imagem) era de entrar numa montanha russa da qual só se saía nas páginas finais. Essa foi a imagem que me ocorreu – e socorreu – quando pela primeira vez me travei de razões com os seus livros. Nem todos. Nem todos os livros. Outros houveram que não me provocaram esta sensação; que não me provocaram qualquer sensação para ser franco. Mas isso não obsta que a primeira descoberta, fosse aproximada a um advento. Com o seu quê de espiritual, obviamente. Com o seu quê de perturbação, de distúrbio emancipador ao qual poderíamos, se calhar a despropósito, colocar  no retábulo discreto daquilo a que Deleuze chamou “literatura mínima”.

Saramago não agitou simplesmente as convicções seculares de uma pátria beata. Aliás, este diagnóstico, forçado como ferrete no corpo do escritor, é abusivo, quando não erróneo. Só um escritor profundamente espiritual teria dedicado tantos dos seus dias a humanizar (no sentido de fazer descer as coisas do sagrado à mundanidade do humano) o espiritual.

Em a Morte de Empédocles, de Holderlin, o sábio grego é banido pela população porque, segundo o sacerdote Hermócrates, o outrora admirado Empédocles tornara-se um impostor. Empédocles parte da sua terra natal com Pausânias, seu filho e fiel confidente. Rechaçado por todos, até pelos camponeses mais rudes, vê-se condenado à errância por terras estranhas. Mas eis que senão, a população, percebendo o erro que cometera, acorre a implorar que volte, que regresse ao seu legítimo trono, que governe, que erga os destinos da política aos acumes da natureza. Empédocles recusa, e nessa recusa caminha para a morte como sendo o único desfecho digno do seu trajecto na terra.

Saramago foi repudiado – por um governo, por um primeiro-ministro e pelo então seu ministro da cultura Sousa Lara. É fácil ver a similitude que pretendo traçar. Nas palavras de Cavaco, ao prantear a sua morte, vive encoberta essa hipocrisia necessária às figuras públicas. Refira-se, em abono de Sousa Lara, que este foi pelo menos coerente na sua estupidez arrogante. Ficámos no entanto a saber que o problema não eram as vírgulas, mas era o opróbrio que os livros de Saramago representavam para a crença cristã. Crendices, portanto.

Apesar das inúmeras campanhas que lhe foram movidas, Saramago será o escritor do século XX português. Não será Aquilino, nem Vergílio Ferreira, nem Jorge de Sena, e menos ainda Agustina. Será Saramago. Todavia convém questionarmo-nos se acaso não tivesse sobrevindo o reconhecimento internacinal com que Saramago foi bafejado, tivesse-se dado o caso em que Saramago ficasse fechado entre paredes nacionais, se, se, se, estariam agora tantas e tão importantes figuras a tecer tão rasgados elogios? A minha ideia é que não. Num país de hipócritas onde a tal religião maioritária, de que fala ainda Sousa Lara, reina suprema sobre a consciências, Saramago teria sido espremido, triturado, e empurrado para o olvido. Tal como Empédocles só lhe restaria Panthea a prodigalizar-lhe um amor sem receios.         

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