O fim do pesadelo

Não será exagerado dizer que Portugal foi a selecção que praticou pior futebol neste campeonato do mundo… exceptuando a Austrália e a Coreia do Norte, dirá o leitor. Mas estas duas equipas não têm futebol; têm vontadepor vezes têm velocidade, mas futebol, nem por isso. Neste sentido Portugal foi seguramente a selecção que praticou o futebol mais feio, mais errático, mais inconsistente. De bom´só teve mesmo o Eduardo, não por acaso o único verdadeiramente inconsolável por causa do afastamento.

Portugal chegou aos oitavos porque apanhou pela frente um Brasil adormecido, que não queria gastar muitos cartuchos contra uma equipa que já tinha tornado as suas fragilidades tão evidentes. Se dúvidas houvessem quanto ao frete prestado pelo Brasil a Portugal elas rapidamente dissiparam-se contra o Chile. Tornou-se patente que o Brasil não ligara pêvas ao confronto com Portugal. Por isso, Portugal, com uma sorte inteiramente imerecida, apenas defrontou uma equipa verdadeiramente forte hoje. E foi-se abaixo das canetas como deixara indícios que o faria frente à Costa do Marfim. Aliás, pergunto-me, a bem do desporto e da estética futebolística, se os africanos não teriam estado bem mais à altura do embate com a Espanha?

Tudo no jogo português foi caricato: os passes invariavelmente deficientes, contra-ataques sem qualquer intenção, um meio-campo que não sabia o que fazer com a bola… Foi mau de mais. A Espanha deu um baile a Portugal à maneira das velhas faenas; e só não se ouviram expressivos olés porque as vuvuzelas abafavam a alegria taurina. De resto, a selecção portuguesa não tem jogadores à altura de um mundial; e Ronaldo não pode fazer tudo sozinho.

Seguindo o estilo jornalístico-desportivo, que argumentos tem a selecção portuguesa contra jogadores como Villa, Iniesta, Busquets, Alonso, Ramos…?  Coentrão, dos mais inconformados em campo, ainda fez o que pôde contra Ramos, mas nem toda a sua boa-vontade foi suficiente para parar aquele lateral endiabrado. O resto foi uma tristeza. Ronaldo teve igual a ele próprio… na selecção: mau demais para ser verdade. Aqui no Rio, a opinião dos conhecedores é que Ronaldo é um bluf. E eu começo sinceramente a acreditar nisso.

Vimos embora, e justificadamente o fazemos. Seria antinatura continuar num mundial ao qual não pertencíamos desde o início. O que suspeitávamos – que Carlos Queiroz é um péssimo treinador – comprovou-se amplamente. E quanto aos jogadores seleccionados, não sei para que servem Meireles, Liedson, Almeida, Danny, Pepe, e tantos outros.

Tivemos o nosso momento de glória no confronto com a Coreia do Norte. Somos, como se diz em gíria popular, bons a bater em mortos. Tudo o resto é conversa de merda.

Venham lá para casa, que já não andavam a fazer nada na África do Sul.

Casa grande e favela

Começemos por inverter a fórmula de Freyre: e se em vez de “Um brasileiro em terras portuguesas” tivessemos “O Brasil em terras portuguesas”? Imaginemos que todo o esforço de Freyre consistiu em inventar uma história para o Brasil. História exemplar, acrescente-se, posto que nela tudo é singular em relação ao frio intelectualismo europeu ou ao “albinismo” dos grandes impérios ocidentais. E se esta missão singular fosse menos a de Portugal tornar-se na sua essência como queria Pessoa, e mais a do Brasil firmar a sua verdade… antes da história?

Com efeito, causa perplexidade como é que um país que tem século e meio de independência nacional produziu tanta história da sua nação. Porventura, serão mais e mais vastas as compilações historiográficas brasileiras do que as do próprio Portugal. E se “O modo de ser Português” fosse antes “o modo de ser brasileiro”? E se o que Freyre queria dizer fosse que aquilo que era latente no português recebeu expressão vitoriosa no brasileiro? Repare-se que, se falar de hibridismo, ou fusionismo como então se dizia, é relativamente descomplicado no caso brasileiro, que expressão poderia ter este no caso português? Pese embora a obsessão de etnógrafos e antropólogos como Jorge Dias ou Mendes Correia pela fusão entre povos supostamente fundadora da nação portuguesa, que diferenças existem entre esta e Espanha que teve igualmente a influência dos bárbaros do norte seguida da penetração moçárabe? Que singularidade é essa que os franceses não podessem igualmente reclamar com as suas lendas de hierarquização entre francos e romanos?

Ler Freyre ao contrário implica uma justificada acentuação do orgulho nacional brasileiro. Esse mesmo que é expresso exacerbadamente após cada jogo da copa, terminando as vitórias com o barulhento “Sou brasileiro, e com orgulho!”.

Pensado às avesas, Freyre não celebra a natureza do português luso, mas antes vindica a grandeza do jovem Brasil. País que, numa adequação quase blomiana, se seguirmos o preceito da angústia da influência, antecipa o espiríto português post factum. Se o caminho fosse o de provar que algures na pequenez de uma origem se encontrava uma grandeza só mais tarde cumprida, o império apenas se cumpriu através do Brasil, sem o qual a sua potência ficaria para sempre inutilizada.

Quando Freyre lê no carácter português esse claudicar sistemático entre aventura e rotina, auscultando na tradição da Quinta portuguesa (o espaço agrário quinta, como em Quinta das lágrimas ou Quinta da Bacalhoa) um travejamento moral e social, não estará ele a projectar para trás essas mesmas características que tinha teorizado do patriarcalismo do sistema de plantação?

Por conseguinte, e para espanto eventual das autoridades serôdeas do estado novo, o que Freyre se propunha ao projectar a ibéria assim como a via no mundo, era porventura uma reinvenção do Brasil; reivenção que passava em alongar o Brasil a um tempo histórico que ele, factualmente, não poderia reivindicar.

A teoria de Freyre sobre a persistência das relações hierárquicas entre o patriarcado das plantações e os escravos, entre os sobrados e os mucambos, não precisa de mais do que uma volta por Copacabana e pelo Leblon para ser inteiramente comprovada. Desconheço país que tenha reservado, nos tempos que correm, um lugar tão amplo e presente aos usos e costumes da aristocracia de antanho como o Brasil. Passear por Ipanema, Leblon ou Copacabana é revisitar a microfísica dos poderes revelada por Freyre na Casa Grande e nos Sobrados e Mucambos. Mais nesta última, acrescente-se. Até porque a ideia segundo a qual apesar – ou exactamente por essa razão – da distância hierárquica e simbólica entre o patriarca do sistema de plantação e o trabalho, os dois termos da equação de dominação na plantação brasileira encontrar-se-iam pacificamente na sua convivialidade quotidiana, é prontamente confirmada. E todavia, se há país que produz um excesso absolutamente anormal de subemprego, esse país será o Brasil. Certo é que Freyre colocava uma diferença de monta entre o sistema de plantação brasileiro e os restantes sistemas de plantação da américa do sul. Desde logo, porque os segundos teriam produzido essa espécie bem mais cruel e sádica que era o caudillo, enquanto o Brasil teria gerado, mesmo que crivado de distâncias hierárquicas irredutíveis, a “unidade na diferença”.

Assim temos o incrível desperdício humano de ter gente que apenas tem por tarefa abrir portas. Existem milhares de trabalhadores inúteis que gozam de ser serviçais do gesto de carregar no botão – esse ínfimo gesto que é estender o dedo para um botão, aqui dá emprego. E que outro país teria empregados de elevador até para o elevador de carga? Sim, que outro país teria o desplante humano de pôr pessoas sentadas num banco desconfortável com a inócua tarefa de premir o botão do andar enunciado pelo homem que carrega o lixo ou os barris de cerveja? Estranho? Nem por isso, se tivermos em consideração que os elevadores são sempre qualitativamente aos pares: um apelidado de social; outro de serviço. O paradigma do abuso da bizarria aristocrática encontra-se encerrado na obrigação de utilizar o elevador de serviço quando se tem um insignificante saco de compras. Pode este conter apenas uma caixa de ovos e um boião de mel caseiro, mas nada que seja embrulho ou sacola passa pela sagrada porta do elevador social.

O Rio está repleto deste subemprego, remanescência clara dos tempos do sistema de plantação. Se não atente-se na brancura dos jovens do Leblon, tão bem expressa nos actores de telenovelas da globo, quando estes têm a praia à porta e os dias solarengos se espraiam pelo inteiro do ano. Não era famosa a mesma ideia de preservação da brancura entre os burgueses senhores dos engenhos do açúcar? Não foi essa mesma brancura tantas vezes considerada em perigo pela presença insidiosa, e incontrolável, do mestiço? A semelhança entre estes modos aristocráticos da novel aristocracia brasileira com a sua predecessora das plantações de açúcar não nos deve surpreender. Nela, como era já patente na aristocracia do antigo regime, se pavoneia a aversão ao trabalho. Porém, nos tempos que correm terão os brasileiros aversão ao trabalho? Nada mais incerto e incongruente com os ritmos alucinantes com que o PIB deste país cresce anualmente. Seguramente não se trata de todo o trabalho, não é com certeza o trabalho de escritório, ou o trabalho industrial. Esse reserva o seu quinhão de aprovação e nada lhe é apontado. Um outro trabalho, ao qual eu teria a ousadia de considerar desnecessário, esse vem ainda com estigma da plantação. Melhor dizendo é um herdeiro directo daquilo que os pretos chamavam a época do “vai”: Vai fazer isto!, Vai buscar água!, Vai levar a comida!, etc, etc. Esta miríade de trabalhos excedentários, inúteis, redutores, só aparentemente são disfuncionais. Em muitos deles concentra-se uma população crescente das favelas que apenas a conta-gotas é absorvida pela classe média ascendente e pelo mercado de trabalho sua condição sine qua non. E se da favela descem jovens delinquentes como pedras em arrastões nocturnos e diurnos, outro movimento existe, este mais regular, efectivo, pendular, que é o do proletariado urbano que desliza como calhaus imponderáveis logo pela madrugada a ocupar essa inconsistente multitude de tarefas. Porque a favela é um depósito inesgotável de mão-de-obra desqualificada, a classe média, média-alta, e uma classe que já não é rica, mas sim uma verdadeira aristocracia, dela se serve sem grandes custos acrescidos. Este sistema reflecte com fiel crueza o sistema ancestral da criadagem. É verdade que já não dão de mamar aos filhos dos senhores da casa grande, nem os iniciam (suponho) na descoberta dos ínvios caminhos da sexualidade. Contudo, continuam, na sua actividade vigilante, em vigílias mais monótonas do que a própria monotonia do desemprego, a zelar pelos filhos desta nova abundância. Através das câmaras; fechando e abrindo trincos judiciosamente escondidos em tampos de mesas, inquirindo todo e qualquer ser humano que se aproxime dos portões palacianos de tantos destes prédios velhos da zona sul do Rio. Eles são os nossos guardiães. Quando não estão alerta para descobrir larápios no escuro da meia-noite, estão comprometidamente a lavar as entradas das mansardas modernas no frescor do dealbar.

Que outro país em pleno século XXI se daria ao luxo de manter um sistema de criadagem tão efectivamente natural?    

E do meio da lusofonia só amores guardei ao meu cartão de crédito

Quão diferente é o Rio de Janeiro actual daquele que Freyre apodou de “filho de Lisboa”. Quanto dessa Lisboa romântica descrita por Freyre nas primeiras páginas de Aventura e Rotina se encontra nas paredes lisas dos centros comerciais, nas lajes acetinadas do novo Terreiro do Paço, nas varandas burguesas dos prédios do Estoril? Se continuidade existisse – entre um Brasil crivado de influência do espírito luso e uma Lisboa romântica e em paz com a natureza – ela transportou-se para os centros comerciais, os viadutos, os cineplexes, as casas de hambúrgueres, os outdoors com as estrelas do futebol nacional… Nada disso retira um pingo que seja à ideia de continuidade. Continuidade, sim; mas continuidade num outro eixo, numa outra matriz; transporte de uma coerência “lusológica” para uma incoerência globalizadora. Pequenos retalhos aproveitados em jeito filigranado de uma identidade comum esmagados pela voragem consumista, tardo-capitalista? Porventura, nunca essa afinidade tão esmagadoramente pressentida por Freyre nas suas páginas de uma ciência luso-tropical existiu. Porventura, apenas nos olhos de Freyre comprometidos com o mundo moldado pelo português como matéria-prima criada por efeito alquimista, essa continuidade espalhada pelo lençol de uma identificação tão comum quanto imediata, tão inteira quanto verdadeira, foi uma evidência. Olhando o Rio, o centro, a sua cinelândia, com evocações de brodway tropical, o que eu vejo é Nova York e não a pequena e provinciana Lisboa, envergonhada com a sua timidez de pelourinho e as suas ruelas de desfecho escuso. Na planura do gigante Rio de Janeiro, não surgem em mim as imagens de uma Mouraria ínvia ou de um Rossio feito imitação das grandes praças imperiais europeias. O embate é outro. O choque é o de um Molloch tropical correndo com a pressa do dinheiro, do crescimento económico que é anunciado intermitente e persistentemente nos canais de televisão públicos, da miséria conspícua de braço dado com a ostentação mais descarada. Tão-pouco a configuração sinuosa dos seus passeios marítimos se aproximam à retctidão do encontro de Lisboa com o Tejo. O Botafogo não é Belém; Ipanema não é Carcavelos; Copacabana nada deve à Costa da Caparica… Este mundo está a milhares de quilómetros – históricos, poéticos, literários, ideários… – das nossas viagens de comboio de Cascais até ao Cais do Sodré, dos nossos passeios rústicos a Sintra, a Cintra, como ainda a escrevia Freyre, do nosso deglutir bulímico de travesseiros e queijadas. Que me perdoe o grande Gilberto Freyre, mas no Rio de hoje já nada se encontra que alguma fez o português tenha criado.

A língua. Ah sim, a língua. Partilhamos esse veículo da menor ambiguidade possível, do encontro tão discreto quanto impulsivo que é a partilha de palavras mesmas, de expressões imediatamente reconhecíveis… Nem isso… Vejo-me forçado a quase soletrar um expresso curto para a menina do balcão da cafetaria que deixou de ser café e que semelhantemente sequer se compadece com a minha urgência por um pequeno-almoço porque esse, aqui, não possui existência.  

O Rio é outro mundo. Nele nada ausculto de portugalidade, de fusionismo original lusitano, de franciscanismo luso. Enquanto assisto ao curioso embate entre os putativos países irmãos – embate futebolístico que qualquer outro mais pareceria David e Golias – ouço remoques tão fusionistas quanto aprazíveis como “português filho da puta” ou o mais geográfico “filho da puta vai para Lisboa” – para os jogadores bem entendido, que eu por aqui, por mais que me pesem as gritantes teodiceias de Freyre não arrisco um olé bem estirado quando uma qualquer finta portuguesa me dá oportunidade para isso. Foram raras, diga-se a abono da verdade – as oportunidades, quero eu dizer…

E se, nem analógicas, nem metafóricas, são aceitáveis as comparações entre Lisboa e o Rio de Janeiro, porque persiste alguma intelectualidade dos dois lados do grande oceano em colocar-lhes os contornos onde apenas a distância incolmatável existe? Ocorre-me a presteza com que Rubem Fonseca coloca o apelido Kibir ao seu herói em o “Seminarista”. Kibir, vindo lá de bem longe das planícies pedregosas de Alcácer Kibir, onde D. Sebastião, assistido de suspeita virilidade pela pena do escritor, ganha vida no assassino contratado que espalha máximas latinas em cada crime cometido. Dá para compreender?

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Falando de Rubem Fonseca, o que eu considero motivo de indagação na sua escrita, para além de muitos outros onde não me vejo competência, é a estrutura psicológica dos seus personagens. Numa primeira impressão, o grotesco dos personagens não encontra paralelo com a vida real. Aliás, a quintessência dos livros de RF é justamente a fantasia mais declarada e sem receios, tão rara na literatura portuguesa do século XX, e mesmo na Brasileira desse mesmo século (tanto quanto conheço). Mas pensar que aqueles personagens são hipérboles de modelos chandlerianos (de Raymond Chandler) é falhar o essencial. E esse para mim consiste em, reduzida a bizarria dos momentos e acontecimentos que povoam a literatura de RF damos de caras com o Carioca em toda sua beleza e fulgor. Se tal coisa existir, ou seja, um tipo fixo que caracteriza um habitante de uma cidade, de um estado… Não acredito nessa linearidade. Porém, alguma coisa deve constituir a ilusão de uma essência, caso contrário não estariam em grupos compactos, nos botecos do Flamengo, do Catete e da Glória, gritando em uníssono Brasil campeão!

O que existe de matricial nos personagens de RF é essa capacidade ímpar para a dissimulação. Sejam mulheres, ou homens, até mesmo crianças, todos comungam dessa técnica fantástica que é a de ser bem sucedido nos mais elaborados, como aqui chamam, esquematismos. E nisso, perdoem-me o preconceito – mas o que seria do mundo sem a sua beleza organizadora -, o Carioca é exímio. Por isso o Malandro é tão presente na cultura carioca moderna. Ele aparece como herói romântico, conquanto por vezes agressivo, e mesmo violento. Mas consubstancial ao modo de ser carioca está essa tendência quase impulsiva para o engano, para a impostura, para o engodo. E isto em todas as áreas da vida, se é que de áreas podemos falar.

Se Cabral sonhasse…

Existem dois brasis; e não me refiro ao Bresil contra o Brásil cantados por Elis, a doce Elis, a Elis de boa memória e de quem o Filipe, um paulistano bem-humorado e com o inconfundível sotaque italiano que leva qualquer carioca a despeitar os sulistas como “carcamanos”, evoca contando a história de como viveu na mesma rua da Elis e a via passar por vezes completamente embriagada. Estes dois brasis também não são os de Freyre – de um lado os senhores da casa grande do outro as pretas de mamas fartas e convidativas da senzala e pelo meio, a caminho do esgar suado e do gesto cansado, os milhões de mulatos de paternidade duvidosa que se foram disseminando por sobrados e mocambos.

Não. Refiro-me simplesmente ao clima. E neste sentido, e para ser mais preciso, eventualmente o que existe em dobro, é o Rio. Sim, fiquemos pela visão mais objectiva: de dois, só mesmo o Rio. Um de Verão, o outro, a léguas do primeiro, de Inverno.

Dizer que o segundo Rio é soturno e cansativo, é dizer pouco. Chove copiosamente. Porém, e contrariamente ao Rio do Inverno, a chuva é fria e fustigante, nada tendo a ver com aquela morrinha agradável que de repente se metamorfoseia em bátega, lavando almas e sarjetas (o que vem a dar no mesmo).

Este Rio não tem garotas de Ipanema; tem apenas preços de Ipanema, exagerados, escandalosos, obscenos. A obscenidade reside apenas em girar a cabeça, efectuando uma ligeira torção do pescoço, coisa pouca, mesmo ínfima, e dar de caras com a ladeira dos tabajaras, imponente favela (ou comunidade como por aqui agora se diz) estendendo-se como manto profano sobre a floresta virgem. Sim, porque o Rio, do qual alguém disse semelhar-se a uma mulher, com os seus lânguidos recôncavos, outras tantas colinas de formas bem definidas e lúbricas, tem destas feridas na carne das ruas. Desconheço a resposta: são as favelas feridas abertas nas habitações lineares ou a vontade mais telúrica a fazer-se presente, manifesta, divina? Pois não sei.

Em Botafogo ouviram-se distintamente dois tiros, vindos da praia, aquela que está face a face com o Pão de Açúcar, o outeiro mais famoso do mundo. Rezou a história, logo na manhã seguinte, que uns “pivétes” tinham parado o carro na marra com pistolas de brincar, o condutor é que não esteve para brincadeiras e sacando do seu real arcabuz passou bala nos assaltantes que foram mais tarde hospitalizados. Estória cândida. Pela manhã um grupo de atletas já se fazia à pista, cobrindo em quilómetros corridos, a distância que fica entre o Botafogo e o aterro do Flamengo.

É verdade: uma cortina cinzenta e pesada faz de tecto da cidade. Onde está a auréola solar que ela usa na chamada época alta?

Ai vida, vida!

Chama-se “Vidas” e é o último livro de Maria Filomena Mónica. Na badana lê-se que a historiadora fez mais uma incursão pelo método biográfico, método esse em que se teria especializado como releva de obras consagradas sobre Eça ou Fontes Pereira de Melo. Puro engano.

Não sei que noção terá a autora do método biográfico, ou qual a do editor, mas uma colecção de artigos publicados na revista G&Q, não é seguramente o que um especialista chamaria de uma incursão no método biográfico.

À boa maneira de Filomena Mónica, carimba-se um livro com a sugestão de que se vai escarafunchar nas vidas de ilustres personalidades nacionais e depois serve-se um apanhado avulso de temas tão díspares quanto a androgenia dos modelos fotográficos ou os achaques da socióloga com a governação PS. Então e “Vidas”, não se encontram por lá? – pergunta o leitor. E pergunta muito bem. A menos que coscuvilhices sobre um punhado de actores políticos e não só se passassem a chamar de método biográfico, só por má fé é que se pode vender tal produto com tamanho embrulho.

Exemplo paradigmático: a vida de Louçã. Em três escassas páginas, despacha a autora aquilo que obviamente tem por mais significativo na vida do político e deputado parlamentar. Interessa-lhe dizer que o pai de Louçã era almirante da marinha, que encontrava-se ao largo quando foi o 25 de Abril (e onde é que sua exª estava no 25 de Abril) e que dele teria o jovem Louçã herdado a mania da disciplina. Entre outras curiosidades, ficamos a saber que Louçã era trotskista na juventude e que andava a colar cartazes onde se lia “nem mais um soldado para as colónias” (que espantoso trabalho de investigação!!!). Fazendo jus à sua habitual objectividade, Filomena Mónica remata por fim tão poderosa exploração da vida do político, dizendo que percebe que se seja socialista quando ainda se é imberbe, mas com 50 anos? – Valha-nos S. Cipriano! Remoque a fazer lembrar frase de igual recorte profético proferida em tempos pelo actual patrão da União Europeia.

Perguntamo-nos: mas o que é que isto tem a ver com o método biográfico? Mas que trafulhice nos quer impingir a socióloga do jet set e o seu distinto editor? Pobre método biográfico…

A Morte de Saramago

 

Morreu. Não posso de deixar de me sentir combalido, tocado, magoado, mesmo que fosse uma pessoa com quem nunca me cruzei, que estivesse a uma distância física gigantesca. Porém, fiquei abalado com a notícia da sua morte. Não como quem fica abalado porque a morte abala, cevando os sonhos e as promessas de alguém (essa promessa eternamente incompleta que é uma pessoa em vida); tampouco como o abalo que sobrevém quando se deixa de ver um rosto, de ouvir uma voz que nos é próxima, fisicamente próxima, e de quem sabemos ser a ausência sempiterna. Muito menos como quem sente a perda de um símbolo nacional, a insigne figura que completava um todo coerente a que se poderia chamar a “alma da nação”. Nada disso. Sinto saudade dos livros que ele não mais escreverá. E isto, que assim dito soa a platitude de “programa da manhã”, é absolutamente real e concreto quando se instala a presença dos seus livros passados. Na memória, claro está; na memória.

Lembro então o meu assombro com o Memorial do Convento; a comoção ao ler as páginas humanas demasiado humanas de Levantado do Chão: o carreiro de formigas, contadas, e recontadas, pela vítima de espancamentos da PIDE, tão vívidos através da memória escrita que Saramago nos legou.

Não eram os livros. Ou seja, não era o enredo, a narrativa, o ir de A para B numa cadência de estilos e de semânticas. Foi, bem assim como viria a suceder com a sua morte, a experiência de uma nova linguagem. Foi isso que se abriu; foi a isso que me abri. Na oralidade de Saramago – a tal tantas vezes alvo do anátema de “analfabetismo” por bestas analfabetas – havia algo de intenso, a anunciação de uma nova harmonia, essa mesma anunciação que Saramago tantas vezes viria a parodiar. A sensação que eu tinha (perdoe-se-me a puerilidade da imagem) era de entrar numa montanha russa da qual só se saía nas páginas finais. Essa foi a imagem que me ocorreu – e socorreu – quando pela primeira vez me travei de razões com os seus livros. Nem todos. Nem todos os livros. Outros houveram que não me provocaram esta sensação; que não me provocaram qualquer sensação para ser franco. Mas isso não obsta que a primeira descoberta, fosse aproximada a um advento. Com o seu quê de espiritual, obviamente. Com o seu quê de perturbação, de distúrbio emancipador ao qual poderíamos, se calhar a despropósito, colocar  no retábulo discreto daquilo a que Deleuze chamou “literatura mínima”.

Saramago não agitou simplesmente as convicções seculares de uma pátria beata. Aliás, este diagnóstico, forçado como ferrete no corpo do escritor, é abusivo, quando não erróneo. Só um escritor profundamente espiritual teria dedicado tantos dos seus dias a humanizar (no sentido de fazer descer as coisas do sagrado à mundanidade do humano) o espiritual.

Em a Morte de Empédocles, de Holderlin, o sábio grego é banido pela população porque, segundo o sacerdote Hermócrates, o outrora admirado Empédocles tornara-se um impostor. Empédocles parte da sua terra natal com Pausânias, seu filho e fiel confidente. Rechaçado por todos, até pelos camponeses mais rudes, vê-se condenado à errância por terras estranhas. Mas eis que senão, a população, percebendo o erro que cometera, acorre a implorar que volte, que regresse ao seu legítimo trono, que governe, que erga os destinos da política aos acumes da natureza. Empédocles recusa, e nessa recusa caminha para a morte como sendo o único desfecho digno do seu trajecto na terra.

Saramago foi repudiado – por um governo, por um primeiro-ministro e pelo então seu ministro da cultura Sousa Lara. É fácil ver a similitude que pretendo traçar. Nas palavras de Cavaco, ao prantear a sua morte, vive encoberta essa hipocrisia necessária às figuras públicas. Refira-se, em abono de Sousa Lara, que este foi pelo menos coerente na sua estupidez arrogante. Ficámos no entanto a saber que o problema não eram as vírgulas, mas era o opróbrio que os livros de Saramago representavam para a crença cristã. Crendices, portanto.

Apesar das inúmeras campanhas que lhe foram movidas, Saramago será o escritor do século XX português. Não será Aquilino, nem Vergílio Ferreira, nem Jorge de Sena, e menos ainda Agustina. Será Saramago. Todavia convém questionarmo-nos se acaso não tivesse sobrevindo o reconhecimento internacinal com que Saramago foi bafejado, tivesse-se dado o caso em que Saramago ficasse fechado entre paredes nacionais, se, se, se, estariam agora tantas e tão importantes figuras a tecer tão rasgados elogios? A minha ideia é que não. Num país de hipócritas onde a tal religião maioritária, de que fala ainda Sousa Lara, reina suprema sobre a consciências, Saramago teria sido espremido, triturado, e empurrado para o olvido. Tal como Empédocles só lhe restaria Panthea a prodigalizar-lhe um amor sem receios.         

Os deuses! Oh, os deuses!

Não gostei do discurso de António Barreto. Geralmente não gosto do que diz ou escreve Barreto. Mas não foi isso que influenciou a minha reacção ao seu discurso. Pelo menos acho que não. E acho que não, porque consigo localizar exactamente – com a precisão de um relógio de cuco suíço ligado ao reactor de partículas do CERN – o que francamente me desagradou. E isso foi a ausência de menção às tropas dos movimentos anti-coloniais, pró-independentistas, terroristas, como lhes chamavam as autoridades portuguesas da altura.

Diz o Daniel que é tempo de sarar as feridas. Estou de acordo. Porém, considero que as feridas não podem nunca ser saradas unilateralmente. Portugal tem um amor patriótico pelos seus ex-combatentes, algo que se insere estruturalmente na matriz dos nacionalismos, de todos os nacionalismos, particularmente dos nacionalismos colonialistas.

A sensação de perda, evidenciada tantas vezes por todos aqueles que recriminam a descolonização, o modo como esta foi feita, o corte umbilical que sentem ter acontecido com a metrópole, revela um conjunto de sentimentos ainda não apaziguados. Ela faz parte, fatidicamente, do imaginário de qualquer potência colonial de outrora. E nisso não somos diferentes dos restantes ex-impérios.

A maneira de colmatar esta sensação de perda, de inelutável apagamento de um passado glorioso, é homenagear os antigos guerreiros. Transfere-se assim o fantasma do falhanço para a glorificação do esforço. Vimo-lo vezes sem conta no exorcismo periódico que os americanos fazem em relação à sua guerra-sintoma: o Vietname.

Com Portugal, passa-se sensivelmente a mesma coisa. Uma guerra perdida é sempre uma ferida aberta no peito da nação. Não saram depressa estas feridas. Demoram tempo. Na escavação que precede a sua cura, tropeçamos em momentos embaraçosos, revelações incómodas, razões desavindas entre partes do mesmo tecido comunitário nacional. De um lado os que invocam o esforço dos guerreiros no teatro de guerra; do outro os que lhes assacam a culpa de terem sangrado a nação. Trata-se obviamente do corpo da nação; trata-se do exercício metonímico de instalação do corpo da nação no corpo do guerreiro. Por isso quando se homenageiam as tropas, cada corpo de soldado homenageado, representa o corpo da nação regenerada. O discurso de Barreto foi disso indicativo.

Não devemos nós prestar homenagem aos soldados que caíram para defender a pátria de aqui e d’além mar? É discutível. Cada soldado carrega nos ombros a cruz do assassinato. Nem todos consumaram o acto. Mas todos foram treinados para o fazer…sem hesitações.

A guerra colonial é um acontecimento histórico mal contado por estas bandas. As versões a que temos acesso ou estão truncadas, viciadas, enviesadas, ou perdem-se em querer ficar pela superfície das coisas, em não esgaravatar demasiado um solo eventualmente pútrido, porque como diz o povo (ou o académico) quanto mais na merda se mexe pior ela cheira.

Neste caso concreto, mexer na merda significaria colocar as botas de guerra do inimigo; sentar-se no lugar onde ele vigiou as colunas portuguesas para as emboscar ao dealbar; apropriar-se da condição de vítima da pide em interrogatórios tão morosos como violentos; e deixar uma palavra pelo seu sofrimento. No fundo, o impensável, envergar o corpo de uma pátria alheia.

Os Flinstones

Através do arrastão, chego a esta notícia muito engraçada. Sinceramente, não me preocupa tanto a hipocrisia que os enunciados “cavaqueiros” geralmente encerram. A isso já estou habituado, e Cavaco apenas representa o país de labregos e aldrabões que é Portugal. É a propósito do primeiro, a parte dos labregos, que as mais honestas perplexidades me ocorrem. O espanto de Cavaco perante uns buracos – lindos buracos, sem dúvida, de uma beleza arquitectónica digna da mais deslumbrada admiração – feitos no século IV, rematado com ênfase cristã que os tinham feito (os capadócios, pois bem) para defender a religião, é o paroxismo do parolismo beato-labregueiro.

As pirâmides de Gizé, construídas quase três mil anos a.c. também tinham qualquer coisa a ver com a religião; bem assim como o templo de Apolo, o de Delfos, onde as pitonisas passeavam as suas túnicas e advinhavam coisas inspiradas por drogas leves oraculares – esse era de pouco mais de meio-século antes da vinda do Messias.

Os exemplos são inúmeros, e seria fastidioso para mim andar a catar datas na wikipedia. O que suscita apreensão é o ar babado de Cavaco, enfatizando cada sílaba com aquele semblante de quem profere uma verdade universal em palavras onde se escondem séculos de sabedoria – “No século IV!”. Nem se imagina. Verdade mesmo sr. Presidente? Sim senhora: no século IV já defendiam a religião dos inimigos da fé cristã!  

Nunca tivemos uma colecção de frases tão desinspiradas, tão insípidas, tão chãs, tão esforçadamente banais, como com Cavaco presidente. Um caso concreto de querer voar e faltar-lhe o golpe de asa.

E é isto o futebol?

O problema do futebol actual ficou bem patente para quem viu o França-China. O método Mourinho saiu na perfeição. Uma França a praticar um futebol deslumbrante caiu aos pés de uma China incapaz – e nem sequer vale a pena fazer o trocadilho da muralha, porque não havia nenhuma. Ribery sempre a romper a defesa chinesa; Anelka a partir a espinha aos laterais; Mallouda a brincar com “dribles” à frente da zona de tiro…e nada. Um azar do caraças. Bolas que passaram à frente da baliza sem nenhum dos atacantes ter a sorte de as empurrar para o fundo das redes.

Jogou a França mal? Bem pelo contrário. Jogou mesmo muito bem; tão bem, que provavelmente seria a selecção revelação não se desse o caso de não ter marcado.

Jogou a China bem? Nem de longe. Tão longe que andaram a maior parte do tempo a correr atrás dos franceses empurrados para dentro do seu meio-campo em estratégia muito pouco oriental. Por que ganhou então a China? É simples: porque marcou um golo de bola parada à frente da grande área.

Se houve jogo onde o resultado foi injusto esse foi o França-China. Mas é também o retrato triste de um futebol que de tão técnico, tão ao redor de estatísticas e simulações, se tornou chato, desinteressante, previsível; sim, porque começa a haver previsibilidade no “método Mourinho” que afinal não constitui nenhum método especial, apenas a constatação de que as regras do futebol assim como se encontram favorecem, e de que maneira, quem menos arrisca.

Violência

Não me recordo exactamente onde vi ou li – talvez num dos últimos livros de Zizek – mas para mim é a revelação paradigmática de que aqueles que dizem que Israel é um estado democrático e laico são uns autênticos poltrões.

A imagem, ou descrição, é a seguinte: por detrás de um construtor civil em tudo idêntico aos nossos patos bravos trabalham diversos palestinianos. Enquanto ele, construtor civil, vai discorrendo sobre a necessidade de construir mais colonatos para que Israel se sinta seguro, vão passando trabalhadores palestinianos com tijolos para construir uma casa que irá acrescentar espaço ocupado à sua terra.

Não há forma maior de desumanização: ser sujeito da destruição da sua própria autonomia. Lembra que os judeus também construiram os caminhos de ferro por onde passariam os comboios que os levariam para os campos de extermínio nazis.

Se Israel é um estado democrático e laico então é porque a noção de democracia na boca de certas pessoas não tem qualquer valor.