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Lo Papa é Mobile!

Maio 13, 2010

“O Papa até é querido”, ouço dizer à minha volta. Ou seja, apesar das fotografias que sempre o representam como um vampiro falhado da transilvânia (e o que é um vampiro falhado?).

Estou tentado a concordar. Se a fotogenia não é um forte do papa, a sua aparição televisiva muda substancialmente qualquer julgamento apressado que se possa fazer à imagem do Papa. Os dentes enegrecidos, quando devidamente encerrados na boca sagrada, deixam de assustar criancinhas, assim como os comunistas que não mostram os dentes tornam-se por definição inofensivos…para as crianças, claro está.

Mas é difícil negar um certo halo de santidade que emergia do santo padre, sumo-pontíficie, pai espiritual do maior rebanho de hipócritas que descende das 12 tribos de Israel, quando vista a sua silhueta a contra-luz. A luz que banhava ontem o papa emprestava-lhe, com efeito, uma áurea de santidade. E sim, todo ele respingava uma ternura que apenas encontramos nos nossos avós, quando estes não estão bêbedos.

Aliás, as sistemáticas alusões à espiritualidade do momento, uma espécie de advento em formato polaroid que coube em sorte à Câmara Municipal de Lisboa e que mereceu comentários elogiosos ao país. Estávamos nesta toada espiritual eucarística quando Aguiar Branco, entrevistado pela televisão, associou a vinda do santo padre à recuperação do país. Nos seguintes termos: a vinda do papa dá-nos esperança num momento particularmente difícil da vida do país. Eu seja, o papa veio para influenciar as agências de ratting. E a mim não me custa acreditar que o banco ambrosiano até tivesse poder para o fazer. Porém, olho em derredor, e constato que quer o Banco de Portugal quer o da Fé estão em bancarrota; e que o papa, nem com as ajudas de todas as virgens que por aí amamentam virtudes e crendices consegue preencher nenhum deles.

Da Fé, e do amor, seu comparsa de logos e significação, pouco resta nas consciências dos portugueses. Um país de sacanas deste calibre pode bem comprazer-se em mensagens de amor e fraternidade universal, porque no dia seguinte estão a afiar faca para degolarem o vizinho. O mote será então: ama a tua vizinha como amaste as saias da mãe – não esqueças que podes fazer mais javardices com a primeira.

Sim, é isso, não cobices a mulher do outro. Menor dos males, está bem de ver. Não cobices a criança alheia. Aqui as coisas complicam, e só mesmo o terceiro segredo de Fátima podia devolver alguma compostura aos delíquios das beatas perante as chocantes revelações de acólitos sodomizados em massa.

O Papa é até fofinho. A senhora apareceu e caiu com estrondo sobre o pénis ainda em formação de Francisco, o pastorinho que não lavava o cu porque não tinha água quente. A partir daí, Lúcia guardou com um zelo budista o mais aterrador dos segredos de Fátima: a expiação. Lúcia viveu acabrunhada, assistindo a violações de crianças nos escuros e esguios corredores dos seminários, mas sabendo que a culpa é a única coisa que nos traz a salvação. Por isso não o revelou. Guardou a ignomínia bem no fundo do seu peito, compactuando assim com a perversidade de pedófilos e de homens santos.

Em boa verdade vos digo, vim para trazer… Nada disso: o que em boa verdade vos digo é que a pedofilia não me interessa um caraças. A histeria em torno das crianças (as nossas e as dos outros) só tem equivalente nas perseguições movidas aos benandanti, tão brilhantemente descritas pelo grande (enormíssimo) historiador Carlo Ginzburg. Os benandanti não andavam a aproveitar-se do rabinho das crianças, mas como dizia o Botto, lavadinhos e sem pentelhos, ele gostava. E nunca ninguém viu nisso se não poesia.

Ontem, perante aquele mar de círios, fiquei com a sensação que a comunidade cristã tinha feito as pazes com a grande congregação de pedófilos. O que lhe retira metade da piada, porque a pedofilia só tem piada quando é transgressiva. Alguém, alguma vez, teceu considerações menos abonatórias sobre a iniciação espartana que o Miller teve a decência de não revelar na sua adaptação dos 300 das Termópilas? Nunca.

Deixem lá o papa em paz, que ele, dizem à minha volta, até é fofinho. E perdoar, afinal de contas, não só é divino, como foi o pai que me ensinou.

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One Comment leave one →
  1. Maio 13, 2010 2:09 pm

    Estou a ficar deveras e muito positivamente conquistado com as tuas considerações, que embora ditas com uma ironia feroz são absolutamente correctas.

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