It’s the elephant in the room, stupid!

Não sei que diga da selecção. Porventura não interessa dizer nada. Aquilo não vai melhorar por milagre. Aquilo é o que vamos ver na África do Sul. Se algumas dúvidas restassem depois do exemplo da miserável fase de qualificação, elas foram ontem dissipadas.

A selecção não interessa nada para os destinos do mundo. Apesar da estátua de Cristiano Ronaldo, a imitar os antigos “colossos” da estética clássica, colocada em tempo de crise na frontaria do Colombo, não são os nossos meninos-guerreiros que nos vão fazer sair da crise. E mesmo que a ideia fosse distrair-nos da crise, com desempenhos daqueles, só nos vão é afundar mais numa depressão anémica que ateou fogos de selvajaria verbal no rectângulo esquecido pelos deuses – até os do futebol.

Nada disso interessa. Importa sim olhar com o descaro necessário, de quem não teme ventos e marés, agruras várias e dias mais aziagos do que os profetizados por Cassandra, para o desplante energúmeno de alguns dos comentadores bloguistas. Estes por exemplo. Surripiando um texto a Krugman (ah, o sempre genial Krugman, o que seria de nós sem ele? Eventualmente estaríamos entregues a expedientes de rua, a vender o que cultivássemos como nas ruas dardejadas pelo sol do Lubango), estes boys (de que partido nem sequer é relevante) salientam o acessório (obviamente ideológico, manipulador, falacioso…), desporto favorito português, porque é assim que se gama, na realidade, que se açambarca, o essencial. E o acessório é justamente a ameaça de redução salarial na ordem dos 20 a 30%. Porém, continuassem eles a ler até ao fim, sendo fiéis aos princípios mais básicos da racionalidade textual, em vez de se deliciarem com trapacices imundas, chegariam à conclusão que nenhum mercado laboral é assim tão flexível! A moral da história é escorreita: o problema não é a flexibilidade dos mercados, que de qualquer forma seria sempre um desejo incomportavelmente mau. O problema é o euro, sempre foi o euro, e continuará a ser o euro. Ou seja, o incómodo elefante, mais ainda, o intratável elefante, sentado no meio do quarto.

The official answer is that this just shows the need for more flexible labor markets. But this was a subject we all batted back and forth in the initial debate about the euro, circa 1990: nobody has labor markets that flexible. If the euro isn’t workable without highly flexible nominal wages, well, it isn’t workable.

Mundo cadela

Um acesso de burrice contemplativa e ingénua apoderou-se de alguns portugueses famosos. Falo, primeiro, de Fernando Tordo, esse homem que em tempos nos bandarilhou com a sua tourada e que agora faz hinos a Amy Winhouse! Sim, Fernando Tordo publicita através do seu novo álbum a sua paixão platónica pela inimitável Amy.

A música dedicada a Amy não se concentra em alguns aspectos da cantora – as mamas bojudas e kunstliche!, por exemplo – mas sim no alcoolismo. Fernando Tordo parece achar que o facto de terem partilhado a mesma maleita teria criado uma especial empatia entre os dois, mesmo que à distância. Na música, Tordo sofre pela Amy, pela sua entrega ao copo, pela sua queda sem fim, por aquilo que ele julga ser a manipulação e o aproveitamento comercial de que a cantora é vítima. Seria patético, não tivesse o seu quê de parolo bem-intencionado, de provinciano babado com o fausto, por vezes grotesco, da grande fábrica de música consumista. Teria Tordo afectado a mesma compreensão por Tom Waits, por Jim Morrison, por Elis Regina… É que a lista de cantores bêbedos é vastíssima. Para não falar que nem todos são tão execráveis como a hedionda Amy.

O babanso de Tordo pela Amy é duplamente senil: por um lado, a Amy não é nenhum génio, ou seja, diz ela que compõe as músicas, mas nós bem sabemos que hoje em dia há sempre quem fique na sombra e que esse sim é o verdadeiro génio; por outro lado, Amy é arrogante, despudorada, sem respeito pelo público. Para Tordo isso deve-se à doença, ao alcoolismo. Estranha singularidade esta, quando tantos artistas alcoólicos deram os seus melhores espectáculos completamente ébrios. Não é por aí com certeza.

Mas Tordo vai mais longe e leva o carpir até aos píncaros da imbecilidade. O que se poderá dizer do voto que o português faz de rápida reabilitação da mulher que não quer ir à reab?

Está mais que visto que a canção do Tordo, se alguma coisa, deve fazer bem ao hemorroidal de Amy. Que esta precisava tanto dos conselhos caducos de Tordo como de gonorreia, it goes without saying. Que Tordo acha que deve servir como uma espécie de vate da menina rebelde e multimilionária, isso é mais, muito mais preocupante… para a sanidade do cantor luso.

O outro, por quem nutro admiração, é o professor Machado Vaz. O sexólogo mais hip que Portugal já teve o prazer de ter. Também o professor se deixou arrastar por esta melancolia saloia, digna de um dos velhos que geralmente contemplam Susana. O caso refere-se à menina de Mirandela (ou da terra desconhecida que ela colocou no mapa). Solidarizando-se, como um grupo de trutas do facebook, com o desnudamento de Bruna Real, vai daí começou a bradar, mas sempre naquele jeito fleumático e intocado que ele preserva, contra a Câmara, e a dizer que a Bruna devia fazer aquilo que lhe desse na telha que ninguém tem nada com isso. Se há coisa que me revolve as entranhas é este gesto de solidariedade ociosa para com a mamulhada da playboy. Quero lá saber da Bruna, quando há tanto jovem (e mais idoso) a levar chutos no cu da parte do Estado porque este se acha anafado e inestético! O ridículo que é apoiar a brunazinha na sua gesta pela preservação do tacho estatal quando tantos e tantas com mais qualificações e se calhar com mais vontade de lá estarem dariam o cu e mais os cinco tustos para lá entrarem. Afinal de contas, a Bruna nem chegou a dá-lo (julga-se) – limitou-se a mostrá-lo.    

A Nossa Luta

 

Era o jornal das oito e qualquer coisa. Um punhado de pessoas, semblantes tão bonómicos quanto fundamentalistas – a contradiction in terms, mas nunca ninguém disse que o catolicismo era para os fracos na sofística – fazia grande escarcéu à porta da clínica dos Arcos (debaixo daquela arcada/passava-se a noite bem/ … diziam os filhos da puta paridos por angelical mãe). O motivo? Naquele antro fazem-se abortos!!! E os videirinhos das “Mãos Erguidas”, perdem as tardes a lançar pragas às clientes de tão mal afamado lugar… E a cantar o hino da luz do céu, como num qualquer partido com paredes de vidro, onde a iluminação natural não encontrasse obstáculos. “Deixa a luz do céu entrar”, esgoelam-se aqueles abortos clandestinos, com os cachopos ao colo, e as guitarrinhas do país do faz-de-conta.

E eis que senão entra uma Tia que profere a seguinte calúnia: Hitler não matou os seus filhos! Até este que nem um judeu poupou, não cometeu tamanho opróbrio contra a sua descendência! Pois é mentira. Matou-os e bem. Disse, por exemplo, que caso um pai e uma mãe (ou apenas um deles) não fosse saudável, melhor seria adoptarem uma criancinha, saudável, ora bem, em vez de estarem a procriar dando assim apenas desgostos à Vaterland! (Mein Kampf, Vol. II, Der Statt)  A concepção de enfermidade perfilhada por Hitler era, como todos sabemos, bastante genérica e de difícil circunscrição.

Por conseguinte, Hitler não matou os filhos porque não os teve; mas era um fervoroso adepto do aborto – fosse ele qual fosse. Enganou-se, portanto, a boa alma que queria trazer a luz do céu aos baby killers quando invocou, em vão, o nome do Senhor…Hitler.

via arrastão

Judite do outro lado do espelho

Quem viu ontem a entrevista de Judite de Sousa a Pinto Balsemão não a reconheceu. Ou seja, quem esperava aquela Judite acutilante, mordaz, quase sanguinária, a que assistiu dias antes na entrevista a Sócrates, não pôde deixar de ter uma tremenda desilusão.

Desta vez, perante o patrão da comunicação social, ela brilhava, contorcia-se na cadeira como uma colegial perante o professor com quem costuma ter sonhos húmidos. Até corou perante a indiscrição de perguntar a Balsemão, afinal o que tinha ele contra a RTP. Balsemão transudava charme; e Judite só teve que se render. Os olhinhos da Jornalista impiedosa curoscavam ante a fleuma do histórico do PSD. Estavam os dois em casa. E ainda há quem tenha o desplante de dizer que o governo Sócrates manipula a comunicação social. Está à vista.

Apesar disso, ou mesmo por isso, a Jornalista não lançou as fauces assassinas à jugular de Balsemão. Pelo contrário: manteve a entrevista em lume brando, não havendo que censurar, denegrir ou sequer espiolhar. Nada. Um marasmo completo. As respostas sucediam-se com a previsibilidade das ondas a bordejarem a praia. Nem um pingo de sensacionalismo. Isso, valha-nos São Baptista degolado!

A entrevista poderia ser somente aquilo que se passou naquele estúdio, com aquelas duas pessoas, àquela hora da noite. Porém, é mais, muito mais. Ela expressa como o poder do grande capital – o verdadeiro grande capital – move montanhas, enquanto o político é enxovalhado sem dó nem piedade. Ela mostra uma deferência perante a aristocracia digna dos tempos da vassalagem. Quem diz que Sócrates controla, manda, faz e desfaz a seu bel-prazer, depressa se desenganaria perante aquele espectáculo de lassa concordância. E Balsemão lá foi conduzindo a entrevista como quem leva a menina Judite a passear nos jardins suspensos da Quinta da Marinha. Foi bonito, pá.

Mas para mim, o momento alto da noite foi quando Balsemão confessou que, apesar de dar a sua preferência a Cavaco enquanto futuro presidente da nação, identificava-se mais com Manuel Alegre, pelo seu estilo, pela sua forma de estar na vida. A gente adivinha: dois bons vivants numa saída cinegética… Tiro aos patos e às perdizes, charuto na boca, e umas redondilhas do velho Cancioneiro atiradas do sofá em bafuradas exdrúxulas e afidalgadas.

Real companhia nova

 

Bruna Real é muito boa. Fisicamente? Também. Mas não só. Bruna tem mostrado uma enorme mestria em manipular o seu caso. Admitamos que Bruna não é uma total cabeça de vento, levada pelas circunstâncias e pelos caprichos mais inconfessáveis a expor-se de maneira tão incauta quanto pueril. Estaria Bruna num tal estado de imprevidência que nem por um minuto pensou nas mais que prováveis consequências dos seus actos?

Também não creio que seja uma libertina oportunista, que levasse o calculismo ao menor dos detalhes, que procure a fama a qualquer preço. Será qualquer coisa in between.

Não sendo funcionária pública, quer dizer, com vínculo ao quadro da função pública, poder-se-ia dizer que toda a liberdade lhe assistia de fazer aquilo que lhe desse na real gana, dado tratar-se da sua vida privada. Seria assim, não se desse o caso de os funcionários do Estado, podendo estes não serem vinculados ao quadro, terem especiais responsabilidades e obrigações em matéria de conduta. Privada ou pública. Porque a distinção neste caso é fútil. Na medida em que o que Bruna fez em privado foi tornado público. Desta forma, se tirar fotografias nua é um acto privado; publicá-las numa revista de nus transforma-o, mutatis mutandis, num acto público.

Bem entendido, aqui a definição de público é estendida à sua máxima amplitude. O que transborda para a discusão do público torna-se por definição num acto público. Outra coisa seria as fotografias de Bruna tiradas em privado terem sido colocadas, sem consentimento da mesma, no domínio público. Isso sim, seria um acto meramente privado, algo que não configura o que Bruna fez ao estabelecer um contrato com a Playboy que visava a divulgação das suas fotografias.

Para todos os efeitos, e por mais conservador e atávico que isto possa parecer, Bruna prevaricou. A sua responsabilidade enquanto agente do público, na sua acepção minimalista, do Estado, não lhe permitia a divulgação da sua intimidade através de canais públicos, aqui utilizado na sua acepção mais alargada.

Bruna devia tê-lo compreendido, ou antecipado. Paradoxalmente, e não querendo contradizer o encómio a Bruna com que comecei, penso que ela, não pretendendo deliberadamente aproveitar-se das consequências supervinientes, as explora com verdadeiro denodo. Ou seja, o acto de victimização de Bruna é benéfico para o aumento do seu cachet. Bruna vale mais nua enquanto vítima do que valia enquanto professora do ensino básico.      

Para uma crítica do imanentismo político através da verantwortungsethisch

Claro que a razão que moveu Cavaco a não vetar um diploma com que discordava profundamente foi hipócrita. Dizer que só não o fazia por causa da situação económica do país, é claramente um bom exercício de hipocrisia. Claro que lhe podem ser assacadas culpas nesse capítulo, como Helena Roseta fez ontem, com um Mário Crespo titubeante perante uma reacção tão viral da parte da arquitecta, sublinhando que não se anda atrás do Papa três dias para depois romper com as suas convicções enveredando por uma desculpa esfarrapada: a ética da responsabilidade.

Helena Roseta estava no direito de expressar a sua opinião. Mas estava errada. A ética da responsabilidade deve sobrepor-se às convicções, sem que daqui se infira um carácter de obrigatoriedade inelutável. Melhor quando estas coincidem, não produzindo qualquer fricção ideológica ou moral em quem toma a decisão. Porém, quando assim não é, prosseguir segundo a ética da responsabilidade, embora possa esta prática ser, a determinada luz, classificada de hipócrita, é algo que qualquer causídico conhece bem.

Existem hipocrisias benignas. E mesmo que Cavaco não quisesse confrontar-se com um veto ao seu veto, negando-se-lhe assim um certo quinhão de autoridade, a solução do mal menor conforma-se objectivamente às necessidades actuais. Foi o que Cavaco fez: perante a inevitabilidade de um desfecho, por que razão prolongar a ópera bufa? Por causa das convicções? Mas não estavam estas batidas à partida? Não é mais justo e idóneo reconhecer que se perdeu?

É claro que eu podia ter expendido umas quaisquer considerações iluminadas sobre Weber e a crítica ao imanentismo em teoria política. Mas que se foda.

Os dois corpos do Papa

Os “vivas” ao Papa foram substituídos pelos “bibas” ao Papa. É a pronúncia do norte, em todo o seu esplendor. E bem assim, o Papa Vento XVI largou um rastro de carisma só comparável aos velhos passeios dos monarcas. A referência, óbvia, é à análise de Geertz sobre os diversos cortejos da mui nobre e distinta Elizabeth, the Queen!

Ninguém deixará de notar as remanescências destas velhas cerimónias nos diversos cortejos, multidões, e personalidades públicas que têm acompanhado o Papa. A velha questão do carisma, isto é, decorre este de características psicológicas do ser agraciado com o carisma ou da sua proximidade do poder, não é uma verdadeira questão, mas antes a eficácia desse mesmo carisma. Ou seja, a capacidade que o carisma tem de deixar irrespondida esta mesma interrogação.

Na pessoa do Papa, assim como na pessoa do rei, temos a evidência da impossibilidade de dissociar o que emerge dele, Ratzinger, e o que é espargido pela sua proximidade ao centro. Nenhuma instituição sabe melhor do que a Igreja como inventar carisma através da ritualização. Nisto, a política e os seus rituais são meros aprendizes, verdadeiros principiantes. E como é natural muito se inspiraram nas liturgias religiosas.

Por isso… Pode um país considerar-se salvo porque pressente que o passado lhe tocou? Tudo indica que sim. Pelo menos a julgar pelas declarações de políticos e de clérigos avulsos que fazem sistematicamente menção à capacidade curativa da presença de sua santidade. Portugal precisava do sagrado e ele desceu até Portugal. Isso nos inventamos novamente como que na presença de um deus. Assim nos reconhecemos na pessoa do rei, neste caso o chefe da igreja, e imaginamo-nos a partilhar essa proximidade do divino contida no gesto papal. Portugal pode falhar em tudo, mas a sua identificação com o centro papal eleva-o ao escol da santidade.

Novamente nação escolhida, reencontra o caminho. Não interessa que os impostos venham aí, que as desigualdades sejam as mais obscenas da Europa, que a pobreza, o desemprego, o subemprego, lavrem nas vidas quotidianas dos portugueses. Que grandeza têm esses problemas comezinhos quando de repente nos encontramos tão próximos do centro? Esse centro simbólico que para se fazer centro precisa da irrupção do carisma.

Não foi por acaso que Rui Rio quis associar a vinda do Papa à Câmara do Porto. Ele sabe que todas as gotas de carisma que forem disseminadas pela magnanimidade do Papa e do seu papamóbil são potencialmente capitalizáveis para o jogo político. Política e religião – amigos de longa data. Mas isto também é uma banalidade.