O Leão mostra a sua (desg)raça

Benfiquista tailandês reza a deus pela vitória arrazadora do Benfica numa das manifestações dos “Camisas Vermelhas”

Um dia a história rezará que o sporting caiu aos pés da águia, com aparato e estrondo, e que toda gente de bem se reuniu e confraternizou até serem altas horas da madrugada, menos os lagartos ressabiados que ficariam contentes caso o Braga ganhasse o campeonato, demonstração de menor solidariedade lisboeta é difícil e já tivemos a prova viva de que estes leões só rugem com o Benfica e que quando confrontados com os porcos do Porto ou os suínos do Braga é só mesuras e loas e salamaleques.

Levaram com o abanão do voo da águia e agora podem bem ir rezar ao Bom Jesus.

Goya e a verdade do mundo

Sou um mero apreciador de pintura; não sou um conhecedor. Faço este aviso de entrada para me permitir dizer as boutades que me derem na gana no que vou escrever a seguir. É também um alerta para mim próprio, como se precisasse de ter alguém que me sussurrasse intermitentemente ao ouvido “não percebes nada desta merda”. Seja. Aceito e vergo-me perante esta evidência, embora por vezes possa tresler nas minhas interpretações alguma coisa mais substancial do que o mero pasmo perante o sublime da arte. E assim.

Foi isso que, perante a grandeza de Goya me fez pairar por momentos, saltar a fronteira invisível entre o imediatamente aparente e as ideias que gritam, sobre uma interpretação, especulativa certamente, que cuidava de entrar, ou espreitar, ficando somente na ombreira, algo de essencial expresso na linguagem da natureza humana. Isto porque se em Velásquez pode ser tecido todo um discurso sobre sofisticação pictórica e sobretextualização, em Goya, e aqui sou eu a meter o bedelho, há uma presença da dualidade humana obsidiante. De tal forma, que culmina com o mergulho no negrume obsessivo da sua fase final. Se em Vélasquez é o jogo perspectival, ou o jogo dos espelhos, dos reflexos, em Goya a Maja vira-se para nós e mostra o sexo no langor da sua chaise longue.  

 Não é notícia que Velásquez glosa Van Eick na sua opus magnum Las Meninas; também não constitui qualquer novidade que Goya segue Van Dyck nas pinturas de corte, e venera El Greco e Velásquez pela atenção ao pormenor sem no entanto serem exaustivos, ou seja, como nestes dois pintores o pormenor pode ser retido sem recorrerem ao esforço da exaustividade. Goya assume esta marca e expande-a a terrenos ainda não percorridos. Técnicos? Nem tanto. A minha humilde opinião é que Goya não se rende à facilidade do aparente, do belo forçado, do contraste da luminosidade para criar efeitos de perspectiva. Ou melhor, eles estão todos lá, obviamente, mas Goya oferece-nos mais: oferece-nos um contraste radical que se encontra bem no âmago da verdade humana. É assim que interpreto a Maja desnuda, por contraste com a Maja vestida. E isto é uma banalidade. Todos o lêem assim, porque estando um ao lado do outro, como passaram a estar, só assim poderão ser lidos. Contudo, não me fico pelo contraste vestimentário, nem pelo experimentalismo que, quando aplicado à época, nos diz que pela primeira vez se pintava o sexo de uma mulher num quadro em exposição pública. Longe ia o tempo das tetinhas de Fouquet a comporem uma virgem cândida e maternal. Ali está uma mulher prenhe de sensualidade, e de sexualidade, acrescente-se. Mas também, se me permitem, e se mo permito, não é nenhuma exploração no campo da sexualidade humana que Goya ensaia nas suas duas “Majas”. O que Goya nos diz, a meu ver, é “eis o corpo na sua apresentação pública; e eis o corpo na sua verdade despida”. Aliás, quando olhamos para as suas pinturas de corte, Goya não tenta disfarçar a fealdade dos seus modelos, do rosto dos seus modelos, como por exemplo Velásquez ou o Van Dyck. Esse mesmo jogo dos contrastes pode ser encontrado, julgo, na concomitância entre os “Caprichos” e os quadros naturalistas evocativos da vida quotidiana e campestre espanhola. E se os “Negros” de Goya parecem configurar uma ruptura no seu estilo, basta ver que é justamente nos Caprichos que a visão “enegrecida”, que viria mais tarde a constituir o universo obsessivo de Goya, se encontrava já em status nascendi.

Bruxas e figuras espectrais sobrevoando o mundo dos humanos, referências cruzadas à constelação de superstições da cultura popular e a algo de malevolência latente nas coisas humanas. Um retrato do Mal? Julgo que não estamos em presença de um pintor metafísico; ou sequer de um pintor da metafísica. Os rostos outrora belos e seráficos das crianças e das sevilhanas são abruptamente substituídos pelos rostos desfigurados da populaça em “A romaria de Santo Isidro” ou em “Homens lendo”. A violência das invasões napoleónicas que Goya deixou testemunho no imorredoiro retrato dos fuzilamentos de 3 de Maio, explicam parcialmente a emergência do negrume na obra outrora luminosa de Goya. Saturno a devorar o filho presta-se a interpretações apocalípticas do fim dos dias e quejandos. Mas que dizer do bem mais simples e directo Duelo a Garrotazos onde vemos dois homens à bordoada com intenções assassinas? Não são soldados franceses na sua fúria aniquiladora; tão-pouco o poder terrível do tribunal do Santo Ofício do qual Goya deixou igualmente testemunho. São homens, camponeses eventualmente, envolvidos numa peleja até à morte. A brutalidade aí expressa contrasta com a serenidade com que o Gran Cábron se senta de costas viradas para nós como se fosse um participante atento dos nossos desvarios, como se a sua presença fosse algo de natural, sentado à nossa mesa a partilhar o repasto que nos irá ser eventualmente servido.

Goya, o pintor realista das danças e brincadeiras, rodeado no final da sua vida pelos seus “Negros” na famosa Quinta del Sordo. Especula-se o que o terá levado a fazê-lo: a loucura, que tal como Nietszhe chegou sem ser anunciada (mas que no caso de Goya é esta interpretação colocada em causa, afirmando-se, pelo contrário,  a sua sanidade mental)? A impossibilidade de conviver alegramente com toda violência à sua volta, aquela que o marcou directamente e a outra que em seu redor grassava e colhia jovens vidas espanholas, da sua amada Espanha? Ou simplesmente o ter chegado à conclusão que o mundo das aparências não lhe chegava; que a beleza não se sobrepunha ao negro; que as figuras míticas e bizarras das suas gravuras dos “Caprichos” abriam, em antevisão, a grande porta da fealdade humana? Afinal a beleza de Maja sobrevive, sem dúvida. O que morre é a ideia de que esta pode estar fora do olhar de quem a imagina.  Lá fora, apenas pairam os pesadelos.

Hipócritas de todo o mundo – uni-vos!

 

Há já algum tempo que não me absorvia nas sábias, quiçá proféticas, palavras de são Bruno Peixe. De sermão em sermão, conquanto espaçados para não maçar, esparsos para não ofuscar em demasia, o sermão do Peixe chega com uma cadência que só as andorinhas conseguem imitar nas suas migrações estivais. O homem baba-se em “igualdades colectivas”, dispara liberdades apócrifas mais rápido que a sua própria sombra, e anatemiza os escritores da liberdade individual – mesmo os mais paroquiais – num name dropping desenfreado em que é perito domesticador (os comentários subsequentes ao post linkado são de maior interesse do que o post propriamente dito).

O “terror” é palavra sibilina que ele respiga nos catarpácios dos filósofos contemporâneos e que ele, na sua jactância de militante encardido nos templos consumistas da moda – as fnacs e os cafés do bairro alto – lança em brados revolucionários que se perdem de mansinho entre os restaurantes de luxo e os gadgets dimanados do monstro capitalista do ocidente. It is, indeed, a resourceful human being!

Este mantra (que outra coisa poderá ser?) repete coisas tão absurdas como a preferência pela “educação, saúde e alimentação”, dentre putativas conquistas revolucionárias, em detrimento da liberdade de expressão. Digo putativas (e referimo-nos à revolução cubana, espécie de étimo perfeito do princípio revolucionário desta esquerda pseudo-revolucionária), porque nenhuma das chamadas conquistas, nem sequer a saúde, estão minimamente garantidas em Cuba. E depois, por que carga d’água não posso ter saúde e educação e mais liberdade de expressão? Onde está escrito que se excluem mutuamente? Onde termina a fantasia revolucionária e começa a simples manipulação de vontades estribada no poder absoluto da ditadura do proletariado? Como justificar que pode existir educação que mereça esse nome sem a sua (essencial, terá alguém dúvida?) componente de liberdade de questionamento e interpelação aos poderes constituídos (sejam eles intelectuais ou organizacionais)? Onde? De facto a estupidez, quando servida em baixelas de filósofos franceses e quejandos, passa por iluminação.

Porque conheci a pessoa em questão sei bem o âmago hipócrita das suas declarações; conheço como um mapa os seus malabarismos retóricos, caldeados num comportamento ignóbil e em absoluto digno de reprovação por qualquer pessoa que tenha um pingo de vergonha.

Mas lá está: o que falta avonde à leva de pseudo-revolucionários da praça é vergonha. A vergonha que caracterizava os homens que lutaram, realmente, contra a opressão, contra todas as opressões. A vergonha que levava estes homens a pensarem que as suas palavras seriam cotejadas com os seus actos e assim mesmo mediam as suas têmperas. A vergonha que falta a estes galarós de capoeiras acetinadas que salivam prestígio académico sob cobertura de intervenção cívica.

Não, não me deixo enganar. E estou convencido que tipos como o Peixe deveriam ser denunciados, expostos na sua verdade mais crua, despidos do seu arsenal de laboratório e esventrados na praça pública para que as entranhas da sua hipocrisia fiquem bem visíveis. Não me cabe a mim fazê-lo. A mim cabe apenas manter presente que aquilo não é o que mostra; que ter esta constatação presente é sumamente importante para aquilatar do que é a esquerda (e do que não é) hoje em dia. Mais, é sobremodo relevante para saber se vale a pena ser de esquerda, desta esquerda, uma esquerda despojada de valores, de carácter e de frontalidade. Desta esquerda que é tanto mais verborreica quanto falseia em cada acto as suas declarações, desta esquerda, não temos nada a aprender. E se isto é a única esquerda que pela terra se desloca, então não temos mesmo nada a que prestar atenção.

Afinal de contas se a diferença que separa a esquerda da direita consubstancia-se somente numa questão de modismo intelectual, de tiques de escol forjado numa qualquer livraria do império da high brow culture, então meus amigos, mais vale mesmo dedicarmo-nos à nossa horta.