Über unsere Kirche ist eine große Dunkelheit gekommen und große Schuld”

 

No Baixo-Reno, terra que representa o paraíso na terra para Ratzinger, anda a comoção à solta. Os fiéis abandonam a santa-madre ao seu destino aziago; os padres fazem actos de contrição perante a ara da dissolução dos costumes; a hierarquia persegue os sodomitas com o mesmo zelo purgador dos tempos em que Pedro Damião jurou limpar a igreja dos ímpios amantes de rapazinhos. A causa do caos instalado no seio do catolicismo alemão passa pelas sucessivas denúncias de abusos de menores praticados por padres em internatos católicos. A Alemanha ficou chocada. Desde o mea culpa institucional pelo extermínio dos judeus que não havia um sobressalto tão intenso na bela e ordeira Alemanha. E que ele surja dos luxuriantes prados onde Bento XVI corria em petiz, apenas amplia a dimensão da tragédia.

O grito de guerra vociferado por um dos responsáveis pela hierarquia que mais perto do Papa se encontra, arregimentando tropas para a limpeza necessária, chega tarde. E tarda não por qualquer necessária retribuição às vítimas que se teria tornado ineficaz, mas porque a desconfiança instalou-se dentre o rebanho dos crentes. Chegam-nos descrições de igrejas vazias; da perplexidade dos padres face à sua mensagem; de medo das nefastas consequências que qualquer contacto com uma criança possa acarretar. Disso mesmo nos dá conta o padre Eckl: “O que devo fazer? Como me devo dirigir à congregação? Como deverei pedir desculpas pelo sucedido?”. Questões que não são de fácil resposta.

As terapias sucedem-se. Como se a repetição dos casos de abuso de crianças tivesse alguma coisa a ver com problemas psicológicos. Como se as razões que levaram a tantos escândalos não se encontrassem na própria instituição, nas formas de recrutamento, no convívio que se estabelece entre os jovens e os clérigos. Nada disto encontra explicação nas putativas perturbações psíquicas dos padres; tanto quanto a cruzada empreendida por Pedro Damião contra os sodomitas dos mosteiros. A razão para tal prática, já na altura se sabia, encontrava-se muito simplesmente na tradição de colocar os noviços a dormirem nas mesmas celas dos velhos padres que, obviamente, iniciavam-nos tanto nos caminhos da salvação da alma como da perdição do corpo.

Se a razão era óbvia tão cedo quanto o século XI, porque insistem em convocar o batalhão de doutores do espírito – psiquiatras, psicólogos e outros adeptos de terapias várias – para “curar” aquilo que não tem qualquer relação com o espírito? Se testemunhos faltassem, suficiente seria relembrar o filme de Almodóvar, La Mala Educación, que tão bem revela a relação ambígua entre padres e jovens nas instituições católicas.

A guerra contra a homossexualidade movida pela Igreja Católica sempre foi – utilizemos o mesmo raciocínio que Zizek usa para a instituição militar – uma deslocação da estrutura homossexual das suas hierarquias e práticas.  

“Sobre a nossa igreja caiu uma grande escuridão e grande culpa”, frase proferida por um dos padres em terapia e que dá o título a este post.  Não é de agora, conviria acrescentar. A igreja tem que olhar directamente para o próprio abismo que criou.

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The Rocky Horror Picture Show

Na toca blogosférica do PSD pode bem aduzir-se da qualidade da militância deste partido. Depois de rasgos encomiásticos às principais figuras do partido; após louvaminhas alucinadas aos discursos bocejantes de Rangel e Passos Coelho; a seguir à apologética das origens esturricadas de Sá Carneiro, vem a consternação pelo ataque pouco subtil a João Jardim no final da subida de Passos Coelho ao palanque . Entendamo-nos: esta gente cultiva a aporia como quem semeia cajus em Cabo-verde. O espanto assarapantado decorrente da novidade estatutária que rolha as bocas mais incómodas durante 60 dias de estado de excepção, é certamente um pasmo patetazinho de quem julga que milita nas fileiras do partido da liberdade. Mas eles lá se atropelam: ideias de cunho negativista, outras empestadas, diz-se, de laivos estalinistas – o que seja: é preciso é não fazer ondas que o mar vai encrespado que chegue.

Repare-se que o partido que considera ignomínia criticar o Alberto João Jardim, fica extremamente amofinado porque declaram uma lei da rolha por 60 dias. Ele há coisas estranhas a Oeste! Daí que chamar “gaffe” às putativas críticas (e aquilo foram críticas? Só a entronização do grande líder madeirense é que pode levar as santas almas amadoras da liberdade a considerarem os murchos comentários de Passos Coelho, críticas!) proferidas por Passos Coelho vai de encontro ao black-out decretado estatutariamente. Não há qualquer contradição; assim como também não há coincidências.

De resto, arrepia ver uma militância em gáudio imperial por causa do discurso marialva do presidente das Caldas da Rainha. Quando a sala se descompôs em risota uníssona porque o homem pediu vinho em vez de água, tivemos o momento Vasco Santana do dia. Só lá faltava a carroça Salazar para proteger as crianças órfãs do regime…não, que digo eu, claro que estava lá: a carroça Marcelo, homem!, essa carroça que estende a sua sombra aos mais recônditos cantos da moral decaída dos sociais-democratas.

Contudo, não se tivesse dado este fait-divers do paradigma estalinista, e o congresso seria a maior pornochachada que deus já deitou à terra desde que obrigou as filhas de Noé a dormir com ele. E aliás, a comunicação social, assim como os diversos quadrantes afectos ao PSD que pululam por essa rede afora, de há muito se especializaram em preencher aquele imenso vazio de ideias a que se dá o nome de congresso do PSD com um happening qualquer. Seguindo o velho mote: em política o que parece é! Por conseguinte, de um congresso que daria sono a uma pessoa sob o efeito de um cocktail de anfetaminas, ficará para a posteridade o episódio do copo de vinho (venham mais cinco, ó Costa!) e a lei da rolha.

Por razões que a razão desconhece, duas televisões privadas fizeram um directo daquilo, doze sobre doze horas. Os comentadores arrolados foram extremamente objectivos; e, porventura fazendo jus à liberdade de expressão que grassa por aquele partido, não emitiram nem uma crítica de fundo, o mínimo comentário que pusesse a nu o balão de ar que aqueles senhores que foram passear as fatiotas pelo palanque representaram. Nada de estranho. Tivemos até um dos momentos mais hilariantes do comentário jornalístico quando um dos habitués dos salões televisivos da TVI sugeriu, mas com a veemência das prioridades inescapáveis, que a aprovação do PEC fosse adiada para depois das eleições do PSD. Claro que sim: o país está em suspenso para ver quem sai daquela feira dos horrores.

Alice já não mora aqui

Se foi uma grande desilusão? Não posso dizer que tenha sido. Foi uma desilusão? Isso, com certeza que foi.

A beleza, diria mesmo mais, a singular beleza da história de Alice escrita por Lewis Carrol está toda nos jogos lógicos. Por isso é que Alice sempre foi um texto difícil para crianças e por isso, também, é que sempre foi um texto para pequenos e graúdos. A mim, eterno admirador dos jogos de linguagem a que Carrol se entrega nas suas duas “Alices”, foi justamente isso que me deixou perplexo em pequeno e que mais tarde me viria a fascinar em graúdo. Porque Alice é um livro que deve ser lido em duas épocas: primeiro, com a consciência infantil de que nos entregamos a um mundo onírico onde os animais falam, as cartas são pessoas, o tempo chega atrasado, etc, etc; depois, com a consciência aprimorada de que o sentido é o que fizermos dele e que aceitar o mundo de Alice é entrar num território em que a palavra é rainha e senhora. Alice no País das Maravilhas é, de todos os contos infantis, aquele que leva mais a sério a plenitude da língua. A plenitude e a sua plasticidade – duas formas de ajuizar o indefinido horizonte linguístico.

Por isso, ao contrário de os contos dos Irmãos Grim, a Alice de Carrol não se limita a semear o imaginário de personagens bizarras, situações inverosímeis, combinações que apenas podem existir no mundo dos sonhos. É bem mais do que isso. Ou melhor, é tudo isso mais o gozo da palavra; o fantástico potencial de abertura do sentido, antecipação do pós-estruturalismo francês em pelo menos meio século. Veja-se, por exemplo, o Logique du sens, de Deleuze e como Carrol é aí convocado como exemplo de as múltiplas e potenciais deslocações do sentido. E não é essa antecipação que nos é oferecida no diálogo entre Alice e as duas rainhas em “Alice do outro lado do espelho”? “Consegues fazer perguntas úteis?” – questiona a rainha negra aquando de uma porfia sobre a capacidade de Alice em colocar questões. Os diálogos de Alice têm qualquer coisa de subversivo; qualquer coisa de Enciclopédia Chinesa de Borges. É esse território de deslocação lógica que Lewis Carrol celebra.   

A Alice de Burton é um espectáculo visual…imarcescivelmente marcado com o ferrete Disney. E isso traduz-se no descalabro de Alice segundo Tim Burton. Raramente vi o realizador falhar tão redondamente o golpe de asa. Se Carrol escreveu Alice com a consciência de um adulto que ainda se dá ao luxo de brincar, Burton fez uma Alice a brincar para ser recebida por um espectador infantil. Desaparecem, como por magia, os jogos de linguagem, as impossibilidades lógicas, os sentidos imperfeitos e invertidos: nunca o gato se esfumou tão completamente numa pirotecnia vazia e previsível. A lebre maluca não é maluca por aquilo que diz, mas porque é frenética e atira com objectos sem qualquer razão; o lanche em que Alice chega inexoravelmente atrasada (porque tem sempre que chegar atrasada) torna-se louco porque as personagens que habitam a mesa possuem um olhar desorbitado, e não porque aquilo que dizem apenas faz sentido no mundo subterrâneo (primeiro título de Alice no País das Maravilhas). E que dizer da batalha final com um dragão cuspidor de fogo? Estamos perante uma versão bastarda de Alice; qualquer coisa como Alice meets Schreck meets Roger Rabit. A lebre epiléctrica é um triste arremedo de Roger Rabit; a batalha entre Alice e o “Rarazoado” mimetiza caricaturalmente a luta final entre Schreck e o dragão. Os animais falantes parecem igualmente terem saído de uma animação Disney, porque se limitam a falar, não tendo qualquer interesse aquilo que dizem. Não, definitivamente, Alice já não mora aqui. E Burton, ao querer substituir a palavra pelo visual, consumou um atentado. Mostrou, paralelamente, aquilo que todos suspeitávamos: que o visual, o imagético, possui os seus limites intrínsecos. Avatar foi a primeira grande vítima dessa megalomania audiovisual que se apoderou recentemente dos realizadores de Hollywood. Como é que Burton caiu direitinho na esparrela, eis o enigma. O 3D funciona, mas como o universo de Alice é irreal, não faz sentido criar um efeito de realidade como o que é pretendido em Avatar.

A conclusão é que seremos porventura forçados a aceitar que a imagem não esgota o universo linguístico; que por mais que a este se tente justapor ficarão sempre umas margens, uma fímbria, pondo a nu os limites da imagem perante o grande jogo dos significados. A Alice de Carrol é a exploração ousada dessa descoincidência. A Alice de Burton é a entrega desinspirada ao fascínio da imagem.

Famas

E porque invoquei o grande Cortázar a propósito do interessante Maradona, convém dizer que os debates entre os candidatos a líderes do PSD… aquilo ali é tudo Famas! Raio de partido que nem um Cronópio, por mais envergonhado ou estremunhado que por lá se passeasse, ocupa ou sequer atravessa as fagueiras luzes da ribalta.

O espectáculo de Famas em desfilada tem sempre grande cobertura (fanfarra e tapete vermelho, até) na comunicação social. Aquilo é o reino da inocuidade doméstica. Há muitas guerras; mas os Famas não guerreiam substantivamente, ou seja, com o pingo de subjectividade e os seus correspondentes investimentos inerentes às ideias de comoção e arregimentação (por que escondê-lo) das massas. Os Famas guerreiam por uns sapatos mais abrilhantados, por uma gravata mais caprichosa, por uma lapela mais vincada… Os Famas adoram os espelhos da Rosa e Teixeira: Olhe lá, acha que este lacinho vai melhor com os tecidos bordeaux do parlamento?

Rangel e Branco – uhhhhh, que medo. Fez sangue! Que debate, que eloquência, que profundidade de ideias, que veias latejantes à flor da pele: pela pátria, pela pátria! Rapunzel! Gostei particularmente do momento em que Rangel foi comparado a um guterrista impenitente. Viva o vaudeville. Afinal a revista à portuguesa está de saúde e esmera-se por alcançar novos palcos. Sim senhora – quase me vieram as lágrimas aos olhos de gargalhadas desbragadas e espasmos incontidos do sinus nasal.

Depois, esforçaram-se por dar a entender que tinham rompido. Os pombinhos; os namoradinhos da nação, levados pela mão da tia Manela, romperam. É caso para dar à estampa na Hola, ser comentado pelo Cláudio Ramos, abrir o novo programa da Júlia em que esta vai falar com os mortos: Rangel e Branco – os espíritos do Natal passado, presente e futuro. Sobretudo futuro; o nosso futuro.

Jardim, porventura porque assistiu ao debate de ontem, vaticinou o advento do Grande Marcelo como eleito do carreirismo social-democrata. Isso é que era. Marcelo a jogar-se nas tempestuosas águas do Guincho para provar que ele é ainda navegável… Navegar é preciso, viver não é preciso.

Alguém disse que os advogados deveriam sair do Parlamento. Rangel e Branco são a fina-flor dos grandes escritórios de advogados do Porto. Ordenados multimilionários e redes bem estabelecidas de interesses, com privados e públicos. Os do PS, diga-se em abono da verdade, não nasceram ricos, por isso querem ficar ricos e, melhor ou pior (salvo quando são acusados de pedofilia) conseguem-no. Os do PSD não precisam de maningâncias: nasceram ricos, continuam ricos, doarão riqueza pelos poros, levitarão na própria riqueza até ao Nirvana dos Barões. Que bonito é ouvir Rangel afirmar que o PSD não tem militantes de primeira ou de segunda, um partido que se refere à cúpula como “os barões”. Assinalados estarão portanto estes dois. Para grandes voos e maiores empresas. É estimulante saber que estas são as alternativas ao que lá anda. Mudam os Famas mas o mundo cai em si como uma pedra precipitando-se verticalmente num lago de inchaços e dores de cabeça.

Nem todas as greves são boas greves.

 

Sou contra a greve da função pública. Primeiro porque não é uma greve da função pública. Como bem expressam os números da adesão, é uma greve de médicos e professores. Assim sendo, revolta-me que médicos e professores achem que têm direito a fazer greve por melhores salários. Eu não acho.

Segundo, a ser uma greve da função pública, os únicos que poderiam queixar-se seriam os escalões inferiores. Isto porque os escalões superiores da função pública ganham, quando se tem a conta a sua produtividade, bem de mais. Aliás, se alguma coisa, médicos e professores seriam aqueles que teriam mais a responder pela qualidade dos serviços públicos. Por exemplo, ainda estou para ver os médicos a unirem-se para pedirem a exclusividade no serviço público. Isso sim, seria uma luta pelo colectivo e pelos direitos a um serviço de saúde com qualidade. Pois. No dia em que as galinhas tiverem dentes.

Por isso quando vejo as propostas do bloco de esquerda sobre o aumento do sector público da saúde pergunto-me de que médicos estarão eles a falar? Daqueles que vão ao centro de saúde da parte da tarde porque fazem uma perninha na clínica privada da sua localidade – onde são principescamente remunerados – da parte da manhã? Ou daqueles enfermeiros que saltam os turnos para atenderem uns domicílios? Ou daqueles médicos que se encontram nas urgências hospitalares e de repente desaparecem para só reaparecerem seis e sete horas mais tarde porque saltam de hospital em hospital? Bom, se é desses que estamos a falar então o impacto da greve no sector da saúde só pode ser considerado vergonhoso. É que estes não têm que se queixar. Longe disso.

Terceiro. Até pode ser uma greve com que todos os trabalhadores se devem identificar. Todavia, creio que se identificarão de forma negativa. E é fácil perceber; não são necessários exercícios de macroeconomia. O sector privado em Portugal, com o contributo do novo código laboral aprovado pela maioria do PS, tornou os trabalhadores mais desmunidos do que nunca, mais fragilizados e à mercê do empregador. Por outro lado, não consta que este sector pense em subir salários; bem pelo contrário: a reivindicação expressa pelo patronato é justamente no sentido inverso. Neste contexto, que moral têm os trabalhadores da função pública para exigirem aumentos salariais? Rigorosamente nenhuma.

Quem quiser que embarque na retórica das lutas transversais e que isto é uma luta de todos os trabalhadores. Não é. É uma luta de trabalhadores com prerrogativas especiais. Não estão nos mais pobres, nem nos mais precários. Estão naqueles que possuem os seus direitos laborais mais assegurados do que a maioria dos trabalhadores.

Para que serve então esta greve? Quando vires o médico teu vizinho a ir passar férias às Bahamas ou o professor a acumular o ordenado com as explicações que dá fora do horário laboral, perceberás que agiste bem ao apoiar esta greve.