Ai eu quase morto no deserto, e Cuba aqui tão perto.

 

Da tragédia na Madeira dois aspectos me pareceram desde o início salientes. Primeiro, uma preocupação, expressa rotundamente nas palavras do presidente do Governo regional, em limitar os danos informativos. Fiquei siderado quando vi João Jardim parecer mais preocupado em conter os danos de “uma dramatização para o exterior” do que a confrontar a amplitude do drama real que não carecia de dramatização. Segundo, uma escassez evidente de imagens por parte dos órgãos de informação oficial da ilha que foram, ao longo dos dias subsequentes, sendo “sabotados” pela miríade de imagens e registros que entretanto invadiram a internet.

Estes dois comportamentos receberam plena confirmação na confusão que se instalou em torno da contagem das vítimas. Algo está podre no reino insular – e não são os cadáveres.

A primeira – e tardia – aparição de Jardim, mostrou aquilo que ele é: um homem desonesto e pusilânime cuja primeira preocupação foi a de enveredar por uma qualquer estratégia de contenção de danos propagandísticos. A frase com que rematou a sua declaração, segundo a qual seria preciso evitar a dramatização para o exterior, deveria entrar para os annais do cinismo político e da falta de carácter dos homens de Estado. Jardim nem sequer é um biltre salazarento e autoritário: é um poltrão que revela facilmente a sua têmpera quando colocado perante sérias adversidades. Claro que temos que pensar no turismo da Madeira, nos milhões que entram para os cofres do governo regional. Mas naquele momento, pensar sobretudo nisso, é reles. Imaginem o presidente do Haiti a ser interpelado pelos jornalistas e a afirmar que não devíamos “dramatizar para o exterior”; ou um qualquer jornal tailandês a vender a ideia de que não podemos deixar passar uma imagem demasiado negativa da Tailândia após o tsunami.

Por isso, não admira minimamente que as autoridades competentes andem a fazer malabarismos com os números das vítimas; que testemunhas oculares digam que viram retirar seis cadáveres do interior do parque de estacionamento do centro comercial Anadia e que o seu presidente negue peremptoriamente. Para Jardim e o seu “polvo” madeirense o que interessa é preservar a imagem. Seja a do bufão destemido que aparece a zurzir nos políticos do continente; seja a do éden insular onde tudo corre às mil maravilhas. Espanto. Quando certas vozes apareceram a aquilatar os estragos e as razões dos mesmos, o suíno Jardim verberou-os imediatamente colocando-lhes o labéu do aproveitamento político. Agora que os estragos começam a ser contabilizados e os números ascendem às centenas de milhões, as autoridades madeirenses revelam-se estranhamente mansas e agradecidas com o altruísmo das instituições do continente e dos seus habitantes. Os cubanos sempre servem para alguma coisa, sr. Jardim?

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