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O aprendiz de Maquiavel

Fevereiro 15, 2010

Ando a ler o livro de Miguel Bandeira Jerónimo sobre a “missão civilizadora” do império colonial português. O seu título – Livros brancos: corpos e almas negras – remete directamente para a obra de Fannon “Peau noire, masques blancs”, diríamos mesmo que é uma sua glosa. Comecemos por aí: a referência é desafortunada, na medida em que entre o livro de Jerónimo e o parafraseado título de Fannon, vai uma distância incomensurável. Não me refiro à qualidade científica, que essa, quer num quer noutro, pode sempre ser interpelada, criticada, comentada. Refiro-me tão-somente à força crítica do livro de Fannon, à sua vontade emancipatória, de deslocação de uma versão da humanidade hegemónica, quando cotejada contra o academismo do livro de Jerónimo. Aqui academismo deve ser compreendido num sentido não totalmente pejorativo, mas enquanto estilo e afinidade com uma determinada forma de fazer história. Essa forma comporta um estilo academista por excelência; qualquer coisa entre a curiosidade de alfarrabista e o fascínio arquivístico.

Situemos primeiro a tese de Jerónimo para percebermos de que falo. Segundo esta as questões do trabalho indígena, as críticas filantrópicas das sociedades contra a escravatura, principalmente inglesas, bem assim como as diligências do governo inglês para perseguir e acabar com o “iníquo comércio” deveram-se sobretudo a pretensões territoriais, a guerras geoestratégicas, confinadas com a necessidade de expansão e controlo imperiais. Com efeito, no vasto espólio historiográfico em que Jerónimo mergulha relativamente à questão de São Tomé e da continuação da prática da escravatura dissimulada sob as pleonásticas palavras dos códigos de trabalho indígena, nunca chegamos a perceber se as acusações a que os comerciantes portugueses eram sistematicamente sujeitos tinham algum cunho de verdade ou se, pelo contrário, se tratavam de meras manobras diplomáticas que, fazendo uso da retórica filantrópica da época, escondiam muito simplesmente interesses económicos e expansionistas. Na verdade, todo o livro parece claudicar entre um maximalismo da diplomacia e das suas jogadas e uma qualquer realidade que por baixo destas se possa aduzir.

Significa que esta história, demasiado preocupada com os discursos, suas retóricas, suas lógicas de evidenciação versus dissimulação, não tem acontecimentos. Como se os discursos, as cartas, as trocas diplomáticas, fossem os acontecimentos por excelência. É uma história que subtrai os factos, podendo estes serem fruto de interpretações diversas ou não, o que para a questão se afigura irrelevante.

Curiosamente, de uma história que se coloca na tradição do linguistic turn acaba por emergir uma “nova velha história”. A obsessão com as lógicas diplomáticas faz com que a história dos subalternos, dos dominados, as suas práticas, a sua dimensão enquanto investidos de historicidade se perca irremediavelmente, esgotando-se nas grandes figuras, nos seus desideratos e malogrados intentos. Esta é a “velha história” travestida de novas roupagens. O fascínio ali contido pelos “homens de estado” não é qualitativamente diferente daquele evidenciado pela história de um Brukhardt ou de um Renan. Por isso ficamos sempre sem saber, ao longo das quase trezentas páginas do livro de Jerónimo, se o “iníquo comércio” continuava a ser praticado pelos ex-esclavagistas portugueses ou não; ficamos sempre na dúvida se as críticas assestadas ao colonialismo português in statu nascendi eram legítimas ou meras maquinações provenientes de França e da Inglaterra para estreitarem os horizontes dessa mesma empresa colonial portuguesa.

E todavia, particularmente na questão de São Tomé, bastava que Jerónimo tivesse cotejado os despachos estatais com, por exemplo, as queixas que chegavam ao Governador de maus tratos e de “escravos” foragidos. Daí outras pistas poderiam surgir e a visão excessivamente contemplativa perante o(s) discurso(s) dos Estados ser complementada com, pelo menos, uma fímbria dos acontecimentos relativos à exploração dos trabalhadores africanos.

Pois que, quando ensaiadas estas visitas às fontes referidas, poucas dúvidas nos restam que o sistema esclavagista de plantação era praticado com o beneplácito dos Governadores da ilha e perante a má-fé dos estadistas da metrópole. Os sistemáticos relatos de maus-tratos e apropriação indevida dos frutos do trabalho, decalcam a permanência de um sistema de exploração que de toda a evidência sugere a escravatura.

Conclusão, entre a obra de Fannon e o livro de Jerónimo vai um hiato incolmatável. Não porque, repito, a qualidade científica do segundo – que a mim me parece grande e estimável – se apresente como óbice. Mas porque o seu potencial crítico – qualquer que ele pudesse ser, e julgo que poderia ser muito – se encontra submerso no relatar da história dos poderosos, das suas jogadas de poder e no seu maquiavelismo. Literalmente no seu maquiavelismo, na medida em que os actores de Jerónimo possuem apenas vontades instrumentalizáveis e nenhuma prática genuína.  

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