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The horror!, the horror!

Fevereiro 9, 2010

O espectáculo da entrega do ceptro à figura régia de João Jardim, desgostou-me profundamente. Quando da esquerda, se esperaria um regicídio, oferecem-nos uma entronização. Estranhos momentos, esses.

Recordo a sanha com que Louçã bradava contra Alberto João Jardim e o seu offshore. Onde estava a indignação, quando o deputado do BE apareceu a dizer que 50 milhões de euros era uma quantia demasiado comezinha para aquele escândalo?

A esquerda teve a oportunidade de dar uma lição ao PSD-Madeira – lição essa que seria inteiramente merecida. Em vez disso, deu tempo de antena para aquele energúmeno de charuto na boca se vir pavonear para a televisão. Onde estava a esquerda do deficit democrático na Madeira? De férias, com certeza.

Porque de ambos os partidos ainda ditos de esquerda vieram as declarações mais inauditas em relação à Madeira e aos 50 milhões. A esquerda teve a oportunidade de decepar uma das cabeças da hidra, em vez disso trouxe-lhe a cabeça do baptista numa bandeja.

Quem sabe se uma demonstração de fraqueza de Jardim perante o governo da República, não seria o princípio do fim do caudilho madeirense? Quem sabe?

Nós, nunca saberemos. O que sabemos é que ele voltou a aparecer na televisão, com aquele ar de soberba de quem enverga a insígnia dos intocáveis, e disse esta coisa fantástica: “Estão criadas as condições no parlamento para derrubar o governo PS”. Se não foi isto, foi parecido. Referia-se, evidentemente, ao consenso obtido entre a esquerda e a direita contra o partido socialista. Estranho jubilo, vindo de um homem que chamou à República do continente “os cubanos”, que pratica um anticomunismo primário em todos os discursos e palanques por onde passeia a sua retórica podre; ; que detesta o 25 de Abril e já o fez saber em diversas ocasiões. Nada disto interessa. Não deve interessar. Senão como explicar as declarações de Honório Novo do PCP, partido que Jardim quis proibir através da Constituição, a secundarem a batalha de Jardim? Prima facie, não existe explicação.

Será assim tão impetuosa essa urgência de fazer cair o PS e ver uma nova aliança democrática ascender ao poder? É certo que as alianças entre PCP e o PSD contra o PS a nível do poder local, são já lendárias. O Bloco tem ainda pouca força no poder autárquico. Mas com a excepção de Lisboa, não há autarquia por esse país fora em que o PCP não faça coligações tácitas com o PSD nas assembleias municipais. Tivemos um exemplo disso nesta encenação patética de carpideiras pela Madeira. Posto que, e contrariamente ao que dizem jornalistas e comentadores, a encenação foi de facto da oposição e não do governo. Este último, respondeu da única maneira que lhe restava perante tremendo contra-senso: dramatizando. A encenação da esquerda, essa sim, revestiu-se de esperanto maquiavélico e de birra em surdina.

O argumento arvorado era o de que 50 milhões de euros eram uma ninharia e que o braço de ferro do governo só poderia ter razões pessoais. A pergunta foi feita variadíssimas vezes chegando-se sempre à conclusão que o argumento era reversível; ou seja, se 50 milhões é uma ninharia, por que razão lutar por eles? Não houve resposta. E não houve porque essa não era sequer a questão fulcral. Essa, era a desautorização do governo.

Todavia, um argumento não era reversível: o das razões pessoais. Esse mantém-se inalterável. E eu julguei que essas mesmas “razões pessoais” eram partilhadas pela esquerda. Claro que sim – razões pessoais. Que mais poderia ser? Esse argumento justificava inteiramente a negação dos 50 milhões. Essas “razões pessoais” que nos moviam a todos contra Alberto João Jardim. Sim, são razões pessoais! – afirmemo-lo com clareza e sem temores. São “razões pessoais” porque o homem é repugnante; porque como estadista é um verme; porque como político é um cínico asqueroso; porque como parceiro da Repúplica é um escroque que dela vive à custa há tantos anos, dando-se ao luxo de a injuriar a seu bel-prazer. Julgava eu que estas “razões pessoais” eram consensuais à esquerda. Que qualquer pessoa atenta à vida política neste país dos último trinta anos, não teria qualquer problema em as advogar. Que qualquer homem e mulher que tivesse assistido, mesmo sem ser em directo, aos famosos comícios de Chão d’Alagoa não teria dúvidas em fazer suas.

Enganei-me. A esquerda, no seu acordo de ratazanas, mostrou-me que não; que não era assim: que em democracia não há lugar para estas “razões pessoais”, mesmo que lhes assista toda a justiça. A esquerda mostrou-me quão bom era apoiar o Dr. Alberto João, se isso significar tramar o PS. E lá estava ele, com o seu charuto na boca, com o seu sorriso boçal, a congratular-se pelo consenso atingido no Parlamento entre esquerda e direita.

De facto, perante tamanha desfaçatez, o que são 50 milhões de euros? Com o meu voto não contam mais.      

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