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“A natureza é o teatro de Satan”

Fevereiro 4, 2010

 

Anticristo é um filme atípico. Começa por ser atípico dentro da obra do realizador. Em anticristo deixou de existir o cunho dogma que embora com matizes bem diferentes do início da obra de Lars Von Trier, ainda eram patentes em filmes como Dancing in the Dark, ou Dogville e Manderlay, ou seja, a inacabada trilogia americana. Anticristo corta radicalmente com este legado, reinventando-se como estética. E reinventa-se de tal forma que, a busca da forma pura, sem o mediador tecnológico, o desaparecimento do plano estável, com a câmara a seguir os movimentos do cameraman, procurando assim um efeito de realidade, tão presente em Idiotas ou Breacking the waves, desaparece simplesmente. E se o Dogma emergira em contraposição às remanescências da Nouvelle Vague – objectivo assumido pelo Manifesto de 95 – então Anticristo surge como objecto de ruptura total com este projecto.

É igualmente atípico num certo trajecto moral (mesmo moralizante) que o realizador vinha percorrendo, assim como os seus companheiros do Dogma. Em Anticristo, embora a mensagem religiosa ainda se encontre presente, os seus pressupostos moralistas não se manifestam. Em lugar destes, Lars Von Trier explora um sucedâneo da estética gore dos filmes de terror, com a consciência estetizante, não tanto de impressionar o telespectador numa espécie de prazer sádico distante, mas de filmar o horror numa qualquer beleza intrínseca que o realizador pretenda nele captar. É bem verdade que a temática do sacrifício percorre praticamente toda a obra de Lars Von Trier. E também, tal como na subida para o Gólgota filmada com requintes de fascinação boçal ensaiada por Mel Gibson, sempre pareceu a Lars Von Trier que o sacrifício tinha um inexplorado potencial estético. Este tema é recorrente, e nele reincide em Anticristo. Todavia, não há lição moral a extrair.

O filme é ambíguo e esta mesma ambiguidade encontra-se bem reflectida nas apreciações divergentes que ele tem suscitado. Nem tanto ao mar nem tanto à terra: não é uma obra de génio, mas também não a considero o “reino do mau gosto” como foi assinalado por diversos críticos portugueses. Se bem que uma masturbação em que o esperma é substituído por um jorro de sangue após devida maceração dos testículos com um barrote de madeira possa ser considerada excessiva. Nada que não tenhamos visto, até pior, em filmes como Irreversible, do qual apenas se guarda uma memória desgostosa.

“A natureza é o teatro de Satan”, podia ser uma máxima de P.H. Lovecraft e do seu apócrifo Necronomicon. Mas não é: trata-se da punch line, da ideia que condensa Anticristo. Lars Von Trier, aquando da estreia de Anticristo, explicou que ele era o produto da sua depressão. Houve quem pretendesse ver na putativa sinceridade do autor apenas a derrisão do gozo e do embuste. Penso que estão enganados. Anticristo é um verdadeiro mergulho no âmago da depressão. A obsessão com o sofrimento tornada matéria de vida, sentido e verdade. E se a primeira parte do filme se encena como uma sucessão de sessões terapêuticas; na segunda, Von Trier vinga-se do terapeuta mostrando-lhe que a racionalidade nada pode quanto à potência negativa da natureza. E esta última, é feminina. A natureza que engendra, o gino fecundante, é a mesma que destrói. A sua hegemonia é total. A sua feminilidade é completa. A natureza fêmea, mater, é Satan – a coberto da sua beleza (e o filme é de facto de uma beleza exuberante) a pulsão de morte rasga a carne com a inevitabilidade de um nascimento. Muito freudiano. Não se desse o caso de a depressão trazer outra dimensão, uma dimensão que escapa ao onírico da psicose e que se entrega por inteiro à obsessão da violência. A natureza é malévola. O Éden possui uma beleza falsa. Nada é mais belo do que o mal.

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