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Traumnovelle

Fevereiro 2, 2010

A estória de Mário Crespo e os vários desenlaces jornalísticos que esta ocasionou peca por excesso de verosimilhança.

Juntas as peças, equilibrados os relatos, calibradas as opiniões, a coisa fica mais ou menos assim: o primeiro-ministro mais a sua trupe de histriões deslocou-se à mesa onde se encontravam pacatamente a almoçar o Nuno Santos e a sensual Bárbara Guimarães. Chegados à ilharga desta (da mesa, não da Bárbara) cumprimentaram efusivamente os dois jornalistas: Lacão mandou uma beijoca na bochecha da Bárbara enquanto espiava conspicuamente as acetinadas tetas da diva televisiva, que rebentavam, como tem que ser, com o afogo do wonderbra. Silva Pereira, cumprimentou excitado o Nuno Santos revelando-lhe logo ali a sua admiração pelo excelente trabalho enquanto seleccionador oficial da televisão concorrente. Apenas Sócrates, mais comedido entre as mulheres, se vergou em digníssima vénia deixando escorregar um ósculo, deposto sobriamente, sobre a mão gélida de Bárbara; acrescentando: e como vai a Srª minha dama?

Feitas as apresentações costumeiras, lançou-se Silva Pereira num discretear enfático sobre as capacidades mentais de Mário Crespo: “aquele homem é um atrasado mental! Um verdadeiro perigo para a lisura da comunicação social”. Bárbara, não se contendo, admoestou o Ministro da Presidência, lembrando que aquele não era o sítio nem o momento apropriado para falar mal do seu colega, não renunciando, todavia, a secundar o Ministro, não se contentando em aquiescer que Mário Crespo era um retardado como ainda acrescentou que tinha mau hálito. Todos se riram. Mas foi Lacão que pôs fim aquele regabofe, vendo que a Duquesa do Cadaval, sentada mesmo ao lado, se mostrava agastada com o ruído que perturbava insistentemente a sua refeição de trufas brancas. Sócrates, dirigindo-se à duquesa, vergou a cerviz, produzindo mais uma acentuada vénia, não sem antes rematar a censura de Lacão com um “peço imensa desculpa pelo nosso comportamento, a todos os títulos reprovável; porém, permita-me que me exprima desabridamente, duquesa, a culpa é do cabrão do Mário Crespo, que me fode a vida todas as noites no jornal da SICNot”. Apesar do vernáculo, a duquesa condescendeu, concordando seguidamente que assim era: tornava-se necessário silenciar Crespo.  

Silva Pereira, partilhando da angústia do seu chefe, não quis deixar de se mostrar solidário (e mais do que isso: que melhor momento para demonstrar a sua fidelidade do que perante a duquesa do Cadaval?) e, tocando ao de leve no ombro de Nuno Santos, que entretanto deglutia um Vole aux Vin de perdiz desossada, sussurrou-lhe ao ouvido: “e, olha lá, não há maneira de solucionar este problema?”. Nuno Santos estremeceu. Não porque a pergunta lhe parecesse inusitada, mas porque Silva Pereira gritou de tal forma que aquilo que julgou ser um sussurro, repercutiu-se pela sala inteira, deixando inclusivamente um empregado, homem afeito às liberdades cívicas, importunado. De tal forma que não se conteve e exclamou: porcos, gatunos, filhos da puta! – Querem calar o Crespo! Primeiro foi a Moura Guedes. Agora o Crespo…Onde é que isto pára? Se calhar o próximo é o Nuno Santos? Era só o que faltava. Antes disso, saio para a rua…”

Perante aquela reacção, até Nuno Santos, homem dado a hábeis manobras de gabinete, se sentiu incomodado. Virando-se para Silva Pereira, exclamou: ouça lá, você tá bêbedo, ou quê. Então põe-se aqui a gritar-me aos ouvidos? Agora que toda a gente sabe vou ter que contar ao Crespo. Mas que porra de calhandrice!

Sócrates, que entrementes se sentara junto da duquesa do Cadaval, confessava-lhe o amor por arquitectura e como tinha sido ele a montar o bidé na sua nova casa.

Lacão tentava, em vão, aplacar a fúria de Nuno Santos, que entretanto esbracejava como um louco, invectivando Silva Pereira e acusando-o de apenas querer impressionar a Bárbara. Foi então que Silva Pereira, não contendo um espasmo que por ali já andava a alguns minutos, mistura do Whisky de 24 com o Quinta da Piriquita, vomitou para cima dos sapatos de Nuno Santos, facto que multiplicou a ira deste que desta vez, dizia, ia mesmo contar ao Crespo, “para vos foder a todos”(sic). Lacão, visivelmente transtornado com o sucedido, bradava que a culpa era do Crespo, que ele era uma ameaça, e que devia não somente ser irradiado do JN, como deixar de fazer aquele comentário idiota ao programa 60 minutos que não necessita de intróito. Sócrates concordou, acrescentando que detestava o programa e que preferia mil vezes ver o Henrique Monteiro do expresso a fazer o discurso idiota de contextualização de um programa que se contextualiza a ele próprio. A duquesa de Cadaval telefonava entretanto ao cardeal patriarca a dizer que ele nem adivinhava com quem estava a almoçar? Ah sim, e é quem? O menino d’ouro!, exclamou a duquesa. Sócrates ficou comovido com a atenção da duquesa, e colocou-lhe um ósculo na mão enrugada o que lhe provocou um esgar de sofrimento.

E pronto: foi isto que aconteceu.    

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