Espelhos

Esta publicidade é à pedofilia. Não é contra a pedofilia. É um elogio à pedofilia. Os argumentos que o responsável aduziu para a justificar são clarinhos como água. Segundo ele, fumar é uma subjugação ao vício, e qual é o maior símbolo de subjugação? O sexo oral. Quê? Sexo oral, mêmo? Não explica se vê o sexo oral praticado na mulher – vulgo cunninlingus – como símbolo de subjugação. Mas entende o sexo oral praticado num homem – vulgo broche, mamada, blowing, blasen, faire une pipe – como subjugação. Este anúncio diz muito da vida do homem que o concebeu; mais, muito mais, do que o símbolo de uma sociedade sem escrúpulos, sem valores e onde vale tudo para vender uma ideia. Explica, mesmo que recorrendo a uma interpretação brutalmente psicanalítica, que o senhor foi vítima de abuso sexual em criança: pelo pai, por um tio ou avô, é indiferente – houve certamente uma figura masculina que o forçou a praticar actos sexuais, que o forçou a praticar o acto que ele agora tenta sublimar através de uma campanha anti-tabágica. Nesse sentido, é tanto um alerta relativo à pedofilia como uma assunção de que ela existiu na vida do homem que concebeu a campanha. “Eu fui vítima disto que estão aqui a ver. Se não compreendem que fumar é experimentar a mesma impotência, então não compreendem nada do que eu passei”, diz-nos ele nas suas imagens compostas com um misto de inocência e perversidade assumida. Por vezes, as imagens publicitárias não passam de fantasmas que os próprios publicitários transportam não sabendo o que deles fazer senão estetizá-los. Curioso mundo onde somos convidados a entrar nas fantasias reprimidas de adultos a pretexto de serem imagens que causam impacto.

O país TVI

Estranho é que a dramatização oposta pela dramatis personae Cavaco Silva não suscite comentários depreciativos, do mesmo estilo daqueles que soaram pela comunicação social e sobretudo pela blogosfera quando Sócrates foi vender computadores Magalhães para a cimeira Europa – Latino-américa. Ontem não pude deixar de notar que Cavaco foi para a Madeira investido do seu novo estatuto de promotor de time-sharing. É que para além de tecer loas ao trabalho levado a cabo pelo governo regional, certificou ainda os camones de que a zona hoteleira encontrava-se intocada pela calamidade (que só o é nos jornais, porque na realidade do discurso político, não se trata de uma calamidade: um ventito que se abateu sobre o jardim do atlântico, portanto).

É bom sabermos que o presidente de todos os portugueses possui qualidades insuspeitas e inexploradas. Vender o turismo da Madeira – “isto aqui é uma maravilha; quando eu puder venho para cá com a minha Maria”, etc (não disse, mas foi como se o tivesse dito) – apaziguando as ânsias do potencial turista da velha Albion, é atitude que eu espero do presidente da República; principalmente quando este, abrindo a boca, é geralmente claro e sucinto. Por exemplo, a sua mensagem de esperança foi literalmente “uma mensagem de esperança”, ou seja, “quero deixar uma mensagem de esperança”. A esperança afinal é a esperança, e não há mais nada a dizer, porra.

Cavaco vai somar votos com isto? Claro que sim. Soma e segue. Aqueles anúncios da TVI e da SIC espalhados pelas estações de metro e autocarro a imitar as séries norte-americanas… e até conseguem fazê-lo: o apuro imagético começa a ser cultivado em terras lusas. Depois, vai-se ver o produto na íntegra e a fogachada com que ele era apresentado é tudo a fingir. Os actores são pateticamente cabotinos, a fotografia é uma tristeza, os diálogos são ridículos, o argumento dá dó… Assim é Portugal. Afinal temos mais afinidades com a TVI do que aquelas com que somos bombardeados diariamente.  

Ai eu quase morto no deserto, e Cuba aqui tão perto.

 

Da tragédia na Madeira dois aspectos me pareceram desde o início salientes. Primeiro, uma preocupação, expressa rotundamente nas palavras do presidente do Governo regional, em limitar os danos informativos. Fiquei siderado quando vi João Jardim parecer mais preocupado em conter os danos de “uma dramatização para o exterior” do que a confrontar a amplitude do drama real que não carecia de dramatização. Segundo, uma escassez evidente de imagens por parte dos órgãos de informação oficial da ilha que foram, ao longo dos dias subsequentes, sendo “sabotados” pela miríade de imagens e registros que entretanto invadiram a internet.

Estes dois comportamentos receberam plena confirmação na confusão que se instalou em torno da contagem das vítimas. Algo está podre no reino insular – e não são os cadáveres.

A primeira – e tardia – aparição de Jardim, mostrou aquilo que ele é: um homem desonesto e pusilânime cuja primeira preocupação foi a de enveredar por uma qualquer estratégia de contenção de danos propagandísticos. A frase com que rematou a sua declaração, segundo a qual seria preciso evitar a dramatização para o exterior, deveria entrar para os annais do cinismo político e da falta de carácter dos homens de Estado. Jardim nem sequer é um biltre salazarento e autoritário: é um poltrão que revela facilmente a sua têmpera quando colocado perante sérias adversidades. Claro que temos que pensar no turismo da Madeira, nos milhões que entram para os cofres do governo regional. Mas naquele momento, pensar sobretudo nisso, é reles. Imaginem o presidente do Haiti a ser interpelado pelos jornalistas e a afirmar que não devíamos “dramatizar para o exterior”; ou um qualquer jornal tailandês a vender a ideia de que não podemos deixar passar uma imagem demasiado negativa da Tailândia após o tsunami.

Por isso, não admira minimamente que as autoridades competentes andem a fazer malabarismos com os números das vítimas; que testemunhas oculares digam que viram retirar seis cadáveres do interior do parque de estacionamento do centro comercial Anadia e que o seu presidente negue peremptoriamente. Para Jardim e o seu “polvo” madeirense o que interessa é preservar a imagem. Seja a do bufão destemido que aparece a zurzir nos políticos do continente; seja a do éden insular onde tudo corre às mil maravilhas. Espanto. Quando certas vozes apareceram a aquilatar os estragos e as razões dos mesmos, o suíno Jardim verberou-os imediatamente colocando-lhes o labéu do aproveitamento político. Agora que os estragos começam a ser contabilizados e os números ascendem às centenas de milhões, as autoridades madeirenses revelam-se estranhamente mansas e agradecidas com o altruísmo das instituições do continente e dos seus habitantes. Os cubanos sempre servem para alguma coisa, sr. Jardim?

Felícia Cabrona

“Se isto é um homem” a grave afirmação poética que serve de título ao mais famoso livro de Primo Levi, poderia bem ser transmudada para “se isto é uma jornalista” no caso de Felícia Cabrita.

Verdade: os boys do PS são qualquer coisa entre o asco e a podridão. Contudo, para nos precavermos contra o erro manipulativo do Sol, devemos ter presente que isto não corresponde a nenhuma tipificação que apenas se ajustasse aos boys do PS – este é o comportamento de todos os boys: dos políticos, dos grandes grupos económicos, do futebol, etc. O que as escutas mostram é a existência de grandes negociatas, que apenas a amplificação em certas personagens do PS leva a crer que são delas exclusivas. Neste sentido, a operação Sol é devedora da mais perigosa obnubilação; mais perigosa ainda do que qualquer negociata manhosa: a de fazer crer que esta plutocracia arrivista e sem escrúpulos existe apenas nas hostes partidárias dos socialistas portugueses.

Quantas negociatas igualmente obscenas não seriam trazidas à luz caso tivéssemos acesso às conversas privadas de tantos conselhos de administração por essa realidade empresarial afora? Quantas?  

O ardil é de há muito o cunho desta jornalista. Começa com o caso “Casa Pia” e na insistência persecutória desta jornalista em relação a Paulo Pedroso. Felícia Cabrita foi das jornalistas que mais contribuiu para que o caso da rede de pedofilia se transformasse no caso Paulo Pedroso. Será que a jornalista está de facto convencida que a rede se reduzia a Paulo Pedroso, ou de quem estaria ela a desviar as atenções através da sua sanha persecutória ao deputado do PS? De duas uma, ou Felícia Cabrita é uma péssima jornalista que não consegue, apesar dos meios que lhe são colocados à disposição, descortinar na rede de pedofilia mais (muito mais) implicados, ou tem uma agenda contra o deputado do PS. Em ambos os casos, trata-se de jornalismo de sarjeta.

Durante o seu depoimento, Felícia Cabrita declara que o jornalismo de investigação é extremamente caro e que cada vez é mais raro fazê-lo. Por maioria de razão, devemos perguntarmo-nos, se o jornalismo de investigação é assim tão caro, como se justifica que um jornal em apuros financeiros se possa dar ao luxo de ter uma equipa – coordenada pela jornalista Felícia – exclusivamente concentrada no caso Face Oculta? Se é assim tão caro, quem custeia esta exclusividade? Gostaria, sinceramente, de saber a resposta.

Mas não foi só isso que incomodou ontem em Felícia Cabrita. Tirando o início do seu depoimento, onde notoriamente a lição estava estudada e o discurso preparado, o resto foi de uma mediocridade confrangedora. Desde erros de português dignos de jovens em idade púbere, até um discurso atabalhoado, pouquíssimo espontâneo, visivelmente comprometido, se viu e ouviu no seu depoimento. A dificuldade com que respondeu a questões que não implicariam qualquer renitência por parte de alguém que estivesse de boa-fé foi acompanhada por escusas sistemáticas em responder a questões sobre financiamentos do Sol remetendo-as sempre para o seu patrão José António Saraiva. Em contrapartida, não se coibiu de expor por diversas vezes planos de financiamento e de incorporação empresarial por parte da PT e das empresas implicadas nestas audições parlamentares. Que dizer de uma jornalista de investigação que desconhece os canais de financiamento do próprio jornal onde trabalha, mas que se mostra apurada conhecedora das operações de capital que envolveram as tentativas de compra da TVI? Sem dúvida, estamos perante um caso de concentração extrema numa matéria, concentração essa que a leva a súbitas amnésias relativas à sua entidade empregadora.

Não ficou por aqui. A desculpa esfarrapada invocada como razão para não publicar a mesma edição do Sol em Angola merecia melhor réplica dos deputados, obviamente mais preocupados em encalacrarem o PS do que a perceberem o que se encontra verdadeiramente por detrás desta insistência do Sol.  

Finalmente, a ideia segundo a qual insinuar que Felícia Cabrita teria relações extra-profissionais com certos magistrados seja “vil” e atentadora do bom nome da jornalista, só pode surpreender em quem tem como timbre manchar o nome de pessoas públicas através dos seus artigos especulativos. Pois que se Felícia Cabrita tem acesso a material que deveria estar em segredo de justiça é porque alguém lho concede, seja porque meio for. Eu, por mais que me esforçasse, nunca conseguiria ter acesso a documentos “zelosamente” guardados ao abrigo do segredo de justiça. Se esta jornalista o tem – como já provou inúmeras vezes – é razoável considerar que ela possua um qualquer acesso privilegiado ao mundo da magistratura. De outra forma não se compreende.

O aprendiz de Maquiavel

Ando a ler o livro de Miguel Bandeira Jerónimo sobre a “missão civilizadora” do império colonial português. O seu título – Livros brancos: corpos e almas negras – remete directamente para a obra de Fannon “Peau noire, masques blancs”, diríamos mesmo que é uma sua glosa. Comecemos por aí: a referência é desafortunada, na medida em que entre o livro de Jerónimo e o parafraseado título de Fannon, vai uma distância incomensurável. Não me refiro à qualidade científica, que essa, quer num quer noutro, pode sempre ser interpelada, criticada, comentada. Refiro-me tão-somente à força crítica do livro de Fannon, à sua vontade emancipatória, de deslocação de uma versão da humanidade hegemónica, quando cotejada contra o academismo do livro de Jerónimo. Aqui academismo deve ser compreendido num sentido não totalmente pejorativo, mas enquanto estilo e afinidade com uma determinada forma de fazer história. Essa forma comporta um estilo academista por excelência; qualquer coisa entre a curiosidade de alfarrabista e o fascínio arquivístico.

Situemos primeiro a tese de Jerónimo para percebermos de que falo. Segundo esta as questões do trabalho indígena, as críticas filantrópicas das sociedades contra a escravatura, principalmente inglesas, bem assim como as diligências do governo inglês para perseguir e acabar com o “iníquo comércio” deveram-se sobretudo a pretensões territoriais, a guerras geoestratégicas, confinadas com a necessidade de expansão e controlo imperiais. Com efeito, no vasto espólio historiográfico em que Jerónimo mergulha relativamente à questão de São Tomé e da continuação da prática da escravatura dissimulada sob as pleonásticas palavras dos códigos de trabalho indígena, nunca chegamos a perceber se as acusações a que os comerciantes portugueses eram sistematicamente sujeitos tinham algum cunho de verdade ou se, pelo contrário, se tratavam de meras manobras diplomáticas que, fazendo uso da retórica filantrópica da época, escondiam muito simplesmente interesses económicos e expansionistas. Na verdade, todo o livro parece claudicar entre um maximalismo da diplomacia e das suas jogadas e uma qualquer realidade que por baixo destas se possa aduzir.

Significa que esta história, demasiado preocupada com os discursos, suas retóricas, suas lógicas de evidenciação versus dissimulação, não tem acontecimentos. Como se os discursos, as cartas, as trocas diplomáticas, fossem os acontecimentos por excelência. É uma história que subtrai os factos, podendo estes serem fruto de interpretações diversas ou não, o que para a questão se afigura irrelevante.

Curiosamente, de uma história que se coloca na tradição do linguistic turn acaba por emergir uma “nova velha história”. A obsessão com as lógicas diplomáticas faz com que a história dos subalternos, dos dominados, as suas práticas, a sua dimensão enquanto investidos de historicidade se perca irremediavelmente, esgotando-se nas grandes figuras, nos seus desideratos e malogrados intentos. Esta é a “velha história” travestida de novas roupagens. O fascínio ali contido pelos “homens de estado” não é qualitativamente diferente daquele evidenciado pela história de um Brukhardt ou de um Renan. Por isso ficamos sempre sem saber, ao longo das quase trezentas páginas do livro de Jerónimo, se o “iníquo comércio” continuava a ser praticado pelos ex-esclavagistas portugueses ou não; ficamos sempre na dúvida se as críticas assestadas ao colonialismo português in statu nascendi eram legítimas ou meras maquinações provenientes de França e da Inglaterra para estreitarem os horizontes dessa mesma empresa colonial portuguesa.

E todavia, particularmente na questão de São Tomé, bastava que Jerónimo tivesse cotejado os despachos estatais com, por exemplo, as queixas que chegavam ao Governador de maus tratos e de “escravos” foragidos. Daí outras pistas poderiam surgir e a visão excessivamente contemplativa perante o(s) discurso(s) dos Estados ser complementada com, pelo menos, uma fímbria dos acontecimentos relativos à exploração dos trabalhadores africanos.

Pois que, quando ensaiadas estas visitas às fontes referidas, poucas dúvidas nos restam que o sistema esclavagista de plantação era praticado com o beneplácito dos Governadores da ilha e perante a má-fé dos estadistas da metrópole. Os sistemáticos relatos de maus-tratos e apropriação indevida dos frutos do trabalho, decalcam a permanência de um sistema de exploração que de toda a evidência sugere a escravatura.

Conclusão, entre a obra de Fannon e o livro de Jerónimo vai um hiato incolmatável. Não porque, repito, a qualidade científica do segundo – que a mim me parece grande e estimável – se apresente como óbice. Mas porque o seu potencial crítico – qualquer que ele pudesse ser, e julgo que poderia ser muito – se encontra submerso no relatar da história dos poderosos, das suas jogadas de poder e no seu maquiavelismo. Literalmente no seu maquiavelismo, na medida em que os actores de Jerónimo possuem apenas vontades instrumentalizáveis e nenhuma prática genuína.  

Venham mais cinco!

Parece consensual que Sócrates se deveria demitir, pôr o lugar à disposição, e salvar o pouco que resta de credibilidade do PS. É também a minha opinião. Sócrates deixou de ter condições de governar, independentemente da justeza ou não das razões que lhe assistem.

Obviamente que a questão do polvo socialista não me causa qualquer repúdio, e muito menos surpresa. Lendo a transcrição das escutas publicada no SOL, afigura-se-me que aquilo deve ser o santo e a senha de qualquer negociata mais escura que aconteça entre estes tubarões das grandes companhias. Imaginem o telefone do Moniz estar sob escuta e estas serem reveladas publicamente – o que não se saberia através delas! Até um homem que ainda há pouco tempo se encontrava enterrado em negociatas com uma universidade de recorte duvidoso, se alçou aos cumes da lisura moral e do comportamento impoluto, bradando do seu púlpito qual pregador evangelista. O jornal da Moura Guedes deveria fazer menção a isso, mas talvez fosse demasiado chocante para os critérios editoriais da senhora.

De qualquer das formas, Sócrates está tão atolado em escândalos, suspeições e intrigas que não tem mais condições para continuar.

Agora o que poderia ser verdadeiramente surpreendente seria o seguinte cenário. Sócrates coloca o seu lugar à disposição. Um sucessor natural de Sócrates dentro do PS seria, a meu ver, António Costa – único que tem capacidade de reunir algum consenso e de garantir um capital de prestígio que tanto faz falta aos socialistas. Ora, Costa poderia nem ser assim tão avesso, pelo menos, a um acordo de incidência parlamentar com o BE, parceiro político com que conviveu no passado na Câmara de Lisboa. Um governo do PS encabeçado por Costa e com o apoio do BE seria um força impulsora para a candidatura de Alegre e esta constelação de figuras a única passível de enviar Cavaco para o eterno olvido. Ao retirar-se, Sócrates faria finalmente um serviço ao país.

Há todavia um factor de perplexidade no meio desta história algo rocambolesca. Vimos suficientes coisas que vão a acontecendo na vida política deste país para que nos deixemos encantar pelo enredo da ingenuidade dos envolvidos. O SOL publicou apenas as escutas agora. Por quê? A sensação que tenho era que estariam à espera da votação do Orçamento. E isso beneficiaria o PS? Não. Beneficia amplamente o PSD e CDS-PP. Qualquer escolha que venha a seguir a Sócrates dentro do PS, quem se perfila é necessariamente mais à esquerda do que a ala socrática. António Costa é o exemplo. Por conseguinte, seja qual for essa escolha, ficará inexoravelmente manietada por um orçamento de direita, negociado à direita, com grande influência do CDS. Os bancos ficam contentes; os grandes grupos económicos também. Sócrates, quer o diabolizem quer o entronizem, é um mero peão. Mas um governo com um pendor esquerdista é uma variável mais incontrolável. O PSD e PP, assim como os interesses que estes representam, sabem-no bem. Daí que atirar Sócrates pela borda fora tem que obedecer escrupulosamente a um timing preciso. A publicação a conta-gotas das escutas por parte do SOL não é inofensiva. Primeiro espera-se a votação do Orçamento, os acordos de bastidores com as forças que realmente interessam; subsequentemente desfere-se uma estocada de morte no socratismo. Acrescente-se a isto a aproximação das eleições no PSD e a emergência de uma sua direcção renovada, e temos uma estratégia muitíssimo bem gizada que nada deve ao acaso.

Repito, a única conjugação de factores que poderia estragar os planos de um pleno de direita – o tal pleno tão apetecido mas que tarda para desespero dos barões do PSD -, ou seja, governo de coligação PSD, CDS com Cavaco a presidente, seria António Costa assumir o lugar de primeiro-ministro e deixar-se de pruridos em relação ao BE (eventualmente, mesmo ao PCP). Todavia o PS é conhecido por gorar as expectativas mais atractivas para a esquerda e para uma política com estas condicente.

The horror!, the horror!

O espectáculo da entrega do ceptro à figura régia de João Jardim, desgostou-me profundamente. Quando da esquerda, se esperaria um regicídio, oferecem-nos uma entronização. Estranhos momentos, esses.

Recordo a sanha com que Louçã bradava contra Alberto João Jardim e o seu offshore. Onde estava a indignação, quando o deputado do BE apareceu a dizer que 50 milhões de euros era uma quantia demasiado comezinha para aquele escândalo?

A esquerda teve a oportunidade de dar uma lição ao PSD-Madeira – lição essa que seria inteiramente merecida. Em vez disso, deu tempo de antena para aquele energúmeno de charuto na boca se vir pavonear para a televisão. Onde estava a esquerda do deficit democrático na Madeira? De férias, com certeza.

Porque de ambos os partidos ainda ditos de esquerda vieram as declarações mais inauditas em relação à Madeira e aos 50 milhões. A esquerda teve a oportunidade de decepar uma das cabeças da hidra, em vez disso trouxe-lhe a cabeça do baptista numa bandeja.

Quem sabe se uma demonstração de fraqueza de Jardim perante o governo da República, não seria o princípio do fim do caudilho madeirense? Quem sabe?

Nós, nunca saberemos. O que sabemos é que ele voltou a aparecer na televisão, com aquele ar de soberba de quem enverga a insígnia dos intocáveis, e disse esta coisa fantástica: “Estão criadas as condições no parlamento para derrubar o governo PS”. Se não foi isto, foi parecido. Referia-se, evidentemente, ao consenso obtido entre a esquerda e a direita contra o partido socialista. Estranho jubilo, vindo de um homem que chamou à República do continente “os cubanos”, que pratica um anticomunismo primário em todos os discursos e palanques por onde passeia a sua retórica podre; ; que detesta o 25 de Abril e já o fez saber em diversas ocasiões. Nada disto interessa. Não deve interessar. Senão como explicar as declarações de Honório Novo do PCP, partido que Jardim quis proibir através da Constituição, a secundarem a batalha de Jardim? Prima facie, não existe explicação.

Será assim tão impetuosa essa urgência de fazer cair o PS e ver uma nova aliança democrática ascender ao poder? É certo que as alianças entre PCP e o PSD contra o PS a nível do poder local, são já lendárias. O Bloco tem ainda pouca força no poder autárquico. Mas com a excepção de Lisboa, não há autarquia por esse país fora em que o PCP não faça coligações tácitas com o PSD nas assembleias municipais. Tivemos um exemplo disso nesta encenação patética de carpideiras pela Madeira. Posto que, e contrariamente ao que dizem jornalistas e comentadores, a encenação foi de facto da oposição e não do governo. Este último, respondeu da única maneira que lhe restava perante tremendo contra-senso: dramatizando. A encenação da esquerda, essa sim, revestiu-se de esperanto maquiavélico e de birra em surdina.

O argumento arvorado era o de que 50 milhões de euros eram uma ninharia e que o braço de ferro do governo só poderia ter razões pessoais. A pergunta foi feita variadíssimas vezes chegando-se sempre à conclusão que o argumento era reversível; ou seja, se 50 milhões é uma ninharia, por que razão lutar por eles? Não houve resposta. E não houve porque essa não era sequer a questão fulcral. Essa, era a desautorização do governo.

Todavia, um argumento não era reversível: o das razões pessoais. Esse mantém-se inalterável. E eu julguei que essas mesmas “razões pessoais” eram partilhadas pela esquerda. Claro que sim – razões pessoais. Que mais poderia ser? Esse argumento justificava inteiramente a negação dos 50 milhões. Essas “razões pessoais” que nos moviam a todos contra Alberto João Jardim. Sim, são razões pessoais! – afirmemo-lo com clareza e sem temores. São “razões pessoais” porque o homem é repugnante; porque como estadista é um verme; porque como político é um cínico asqueroso; porque como parceiro da Repúplica é um escroque que dela vive à custa há tantos anos, dando-se ao luxo de a injuriar a seu bel-prazer. Julgava eu que estas “razões pessoais” eram consensuais à esquerda. Que qualquer pessoa atenta à vida política neste país dos último trinta anos, não teria qualquer problema em as advogar. Que qualquer homem e mulher que tivesse assistido, mesmo sem ser em directo, aos famosos comícios de Chão d’Alagoa não teria dúvidas em fazer suas.

Enganei-me. A esquerda, no seu acordo de ratazanas, mostrou-me que não; que não era assim: que em democracia não há lugar para estas “razões pessoais”, mesmo que lhes assista toda a justiça. A esquerda mostrou-me quão bom era apoiar o Dr. Alberto João, se isso significar tramar o PS. E lá estava ele, com o seu charuto na boca, com o seu sorriso boçal, a congratular-se pelo consenso atingido no Parlamento entre esquerda e direita.

De facto, perante tamanha desfaçatez, o que são 50 milhões de euros? Com o meu voto não contam mais.      

“A natureza é o teatro de Satan”

 

Anticristo é um filme atípico. Começa por ser atípico dentro da obra do realizador. Em anticristo deixou de existir o cunho dogma que embora com matizes bem diferentes do início da obra de Lars Von Trier, ainda eram patentes em filmes como Dancing in the Dark, ou Dogville e Manderlay, ou seja, a inacabada trilogia americana. Anticristo corta radicalmente com este legado, reinventando-se como estética. E reinventa-se de tal forma que, a busca da forma pura, sem o mediador tecnológico, o desaparecimento do plano estável, com a câmara a seguir os movimentos do cameraman, procurando assim um efeito de realidade, tão presente em Idiotas ou Breacking the waves, desaparece simplesmente. E se o Dogma emergira em contraposição às remanescências da Nouvelle Vague – objectivo assumido pelo Manifesto de 95 – então Anticristo surge como objecto de ruptura total com este projecto.

É igualmente atípico num certo trajecto moral (mesmo moralizante) que o realizador vinha percorrendo, assim como os seus companheiros do Dogma. Em Anticristo, embora a mensagem religiosa ainda se encontre presente, os seus pressupostos moralistas não se manifestam. Em lugar destes, Lars Von Trier explora um sucedâneo da estética gore dos filmes de terror, com a consciência estetizante, não tanto de impressionar o telespectador numa espécie de prazer sádico distante, mas de filmar o horror numa qualquer beleza intrínseca que o realizador pretenda nele captar. É bem verdade que a temática do sacrifício percorre praticamente toda a obra de Lars Von Trier. E também, tal como na subida para o Gólgota filmada com requintes de fascinação boçal ensaiada por Mel Gibson, sempre pareceu a Lars Von Trier que o sacrifício tinha um inexplorado potencial estético. Este tema é recorrente, e nele reincide em Anticristo. Todavia, não há lição moral a extrair.

O filme é ambíguo e esta mesma ambiguidade encontra-se bem reflectida nas apreciações divergentes que ele tem suscitado. Nem tanto ao mar nem tanto à terra: não é uma obra de génio, mas também não a considero o “reino do mau gosto” como foi assinalado por diversos críticos portugueses. Se bem que uma masturbação em que o esperma é substituído por um jorro de sangue após devida maceração dos testículos com um barrote de madeira possa ser considerada excessiva. Nada que não tenhamos visto, até pior, em filmes como Irreversible, do qual apenas se guarda uma memória desgostosa.

“A natureza é o teatro de Satan”, podia ser uma máxima de P.H. Lovecraft e do seu apócrifo Necronomicon. Mas não é: trata-se da punch line, da ideia que condensa Anticristo. Lars Von Trier, aquando da estreia de Anticristo, explicou que ele era o produto da sua depressão. Houve quem pretendesse ver na putativa sinceridade do autor apenas a derrisão do gozo e do embuste. Penso que estão enganados. Anticristo é um verdadeiro mergulho no âmago da depressão. A obsessão com o sofrimento tornada matéria de vida, sentido e verdade. E se a primeira parte do filme se encena como uma sucessão de sessões terapêuticas; na segunda, Von Trier vinga-se do terapeuta mostrando-lhe que a racionalidade nada pode quanto à potência negativa da natureza. E esta última, é feminina. A natureza que engendra, o gino fecundante, é a mesma que destrói. A sua hegemonia é total. A sua feminilidade é completa. A natureza fêmea, mater, é Satan – a coberto da sua beleza (e o filme é de facto de uma beleza exuberante) a pulsão de morte rasga a carne com a inevitabilidade de um nascimento. Muito freudiano. Não se desse o caso de a depressão trazer outra dimensão, uma dimensão que escapa ao onírico da psicose e que se entrega por inteiro à obsessão da violência. A natureza é malévola. O Éden possui uma beleza falsa. Nada é mais belo do que o mal.

Traumnovelle

A estória de Mário Crespo e os vários desenlaces jornalísticos que esta ocasionou peca por excesso de verosimilhança.

Juntas as peças, equilibrados os relatos, calibradas as opiniões, a coisa fica mais ou menos assim: o primeiro-ministro mais a sua trupe de histriões deslocou-se à mesa onde se encontravam pacatamente a almoçar o Nuno Santos e a sensual Bárbara Guimarães. Chegados à ilharga desta (da mesa, não da Bárbara) cumprimentaram efusivamente os dois jornalistas: Lacão mandou uma beijoca na bochecha da Bárbara enquanto espiava conspicuamente as acetinadas tetas da diva televisiva, que rebentavam, como tem que ser, com o afogo do wonderbra. Silva Pereira, cumprimentou excitado o Nuno Santos revelando-lhe logo ali a sua admiração pelo excelente trabalho enquanto seleccionador oficial da televisão concorrente. Apenas Sócrates, mais comedido entre as mulheres, se vergou em digníssima vénia deixando escorregar um ósculo, deposto sobriamente, sobre a mão gélida de Bárbara; acrescentando: e como vai a Srª minha dama?

Feitas as apresentações costumeiras, lançou-se Silva Pereira num discretear enfático sobre as capacidades mentais de Mário Crespo: “aquele homem é um atrasado mental! Um verdadeiro perigo para a lisura da comunicação social”. Bárbara, não se contendo, admoestou o Ministro da Presidência, lembrando que aquele não era o sítio nem o momento apropriado para falar mal do seu colega, não renunciando, todavia, a secundar o Ministro, não se contentando em aquiescer que Mário Crespo era um retardado como ainda acrescentou que tinha mau hálito. Todos se riram. Mas foi Lacão que pôs fim aquele regabofe, vendo que a Duquesa do Cadaval, sentada mesmo ao lado, se mostrava agastada com o ruído que perturbava insistentemente a sua refeição de trufas brancas. Sócrates, dirigindo-se à duquesa, vergou a cerviz, produzindo mais uma acentuada vénia, não sem antes rematar a censura de Lacão com um “peço imensa desculpa pelo nosso comportamento, a todos os títulos reprovável; porém, permita-me que me exprima desabridamente, duquesa, a culpa é do cabrão do Mário Crespo, que me fode a vida todas as noites no jornal da SICNot”. Apesar do vernáculo, a duquesa condescendeu, concordando seguidamente que assim era: tornava-se necessário silenciar Crespo.  

Silva Pereira, partilhando da angústia do seu chefe, não quis deixar de se mostrar solidário (e mais do que isso: que melhor momento para demonstrar a sua fidelidade do que perante a duquesa do Cadaval?) e, tocando ao de leve no ombro de Nuno Santos, que entretanto deglutia um Vole aux Vin de perdiz desossada, sussurrou-lhe ao ouvido: “e, olha lá, não há maneira de solucionar este problema?”. Nuno Santos estremeceu. Não porque a pergunta lhe parecesse inusitada, mas porque Silva Pereira gritou de tal forma que aquilo que julgou ser um sussurro, repercutiu-se pela sala inteira, deixando inclusivamente um empregado, homem afeito às liberdades cívicas, importunado. De tal forma que não se conteve e exclamou: porcos, gatunos, filhos da puta! – Querem calar o Crespo! Primeiro foi a Moura Guedes. Agora o Crespo…Onde é que isto pára? Se calhar o próximo é o Nuno Santos? Era só o que faltava. Antes disso, saio para a rua…”

Perante aquela reacção, até Nuno Santos, homem dado a hábeis manobras de gabinete, se sentiu incomodado. Virando-se para Silva Pereira, exclamou: ouça lá, você tá bêbedo, ou quê. Então põe-se aqui a gritar-me aos ouvidos? Agora que toda a gente sabe vou ter que contar ao Crespo. Mas que porra de calhandrice!

Sócrates, que entrementes se sentara junto da duquesa do Cadaval, confessava-lhe o amor por arquitectura e como tinha sido ele a montar o bidé na sua nova casa.

Lacão tentava, em vão, aplacar a fúria de Nuno Santos, que entretanto esbracejava como um louco, invectivando Silva Pereira e acusando-o de apenas querer impressionar a Bárbara. Foi então que Silva Pereira, não contendo um espasmo que por ali já andava a alguns minutos, mistura do Whisky de 24 com o Quinta da Piriquita, vomitou para cima dos sapatos de Nuno Santos, facto que multiplicou a ira deste que desta vez, dizia, ia mesmo contar ao Crespo, “para vos foder a todos”(sic). Lacão, visivelmente transtornado com o sucedido, bradava que a culpa era do Crespo, que ele era uma ameaça, e que devia não somente ser irradiado do JN, como deixar de fazer aquele comentário idiota ao programa 60 minutos que não necessita de intróito. Sócrates concordou, acrescentando que detestava o programa e que preferia mil vezes ver o Henrique Monteiro do expresso a fazer o discurso idiota de contextualização de um programa que se contextualiza a ele próprio. A duquesa de Cadaval telefonava entretanto ao cardeal patriarca a dizer que ele nem adivinhava com quem estava a almoçar? Ah sim, e é quem? O menino d’ouro!, exclamou a duquesa. Sócrates ficou comovido com a atenção da duquesa, e colocou-lhe um ósculo na mão enrugada o que lhe provocou um esgar de sofrimento.

E pronto: foi isto que aconteceu.