Espelhos

Esta publicidade é à pedofilia. Não é contra a pedofilia. É um elogio à pedofilia. Os argumentos que o responsável aduziu para a justificar são clarinhos como água. Segundo ele, fumar é uma subjugação ao vício, e qual é o maior símbolo de subjugação? O sexo oral. Quê? Sexo oral, mêmo? Não explica se vê o sexo oral praticado na mulher – vulgo cunninlingus – como símbolo de subjugação. Mas entende o sexo oral praticado num homem – vulgo broche, mamada, blowing, blasen, faire une pipe – como subjugação. Este anúncio diz muito da vida do homem que o concebeu; mais, muito mais, do que o símbolo de uma sociedade sem escrúpulos, sem valores e onde vale tudo para vender uma ideia. Explica, mesmo que recorrendo a uma interpretação brutalmente psicanalítica, que o senhor foi vítima de abuso sexual em criança: pelo pai, por um tio ou avô, é indiferente – houve certamente uma figura masculina que o forçou a praticar actos sexuais, que o forçou a praticar o acto que ele agora tenta sublimar através de uma campanha anti-tabágica. Nesse sentido, é tanto um alerta relativo à pedofilia como uma assunção de que ela existiu na vida do homem que concebeu a campanha. “Eu fui vítima disto que estão aqui a ver. Se não compreendem que fumar é experimentar a mesma impotência, então não compreendem nada do que eu passei”, diz-nos ele nas suas imagens compostas com um misto de inocência e perversidade assumida. Por vezes, as imagens publicitárias não passam de fantasmas que os próprios publicitários transportam não sabendo o que deles fazer senão estetizá-los. Curioso mundo onde somos convidados a entrar nas fantasias reprimidas de adultos a pretexto de serem imagens que causam impacto.

O país TVI

Estranho é que a dramatização oposta pela dramatis personae Cavaco Silva não suscite comentários depreciativos, do mesmo estilo daqueles que soaram pela comunicação social e sobretudo pela blogosfera quando Sócrates foi vender computadores Magalhães para a cimeira Europa – Latino-américa. Ontem não pude deixar de notar que Cavaco foi para a Madeira investido do seu novo estatuto de promotor de time-sharing. É que para além de tecer loas ao trabalho levado a cabo pelo governo regional, certificou ainda os camones de que a zona hoteleira encontrava-se intocada pela calamidade (que só o é nos jornais, porque na realidade do discurso político, não se trata de uma calamidade: um ventito que se abateu sobre o jardim do atlântico, portanto).

É bom sabermos que o presidente de todos os portugueses possui qualidades insuspeitas e inexploradas. Vender o turismo da Madeira – “isto aqui é uma maravilha; quando eu puder venho para cá com a minha Maria”, etc (não disse, mas foi como se o tivesse dito) – apaziguando as ânsias do potencial turista da velha Albion, é atitude que eu espero do presidente da República; principalmente quando este, abrindo a boca, é geralmente claro e sucinto. Por exemplo, a sua mensagem de esperança foi literalmente “uma mensagem de esperança”, ou seja, “quero deixar uma mensagem de esperança”. A esperança afinal é a esperança, e não há mais nada a dizer, porra.

Cavaco vai somar votos com isto? Claro que sim. Soma e segue. Aqueles anúncios da TVI e da SIC espalhados pelas estações de metro e autocarro a imitar as séries norte-americanas… e até conseguem fazê-lo: o apuro imagético começa a ser cultivado em terras lusas. Depois, vai-se ver o produto na íntegra e a fogachada com que ele era apresentado é tudo a fingir. Os actores são pateticamente cabotinos, a fotografia é uma tristeza, os diálogos são ridículos, o argumento dá dó… Assim é Portugal. Afinal temos mais afinidades com a TVI do que aquelas com que somos bombardeados diariamente.  

Ai eu quase morto no deserto, e Cuba aqui tão perto.

 

Da tragédia na Madeira dois aspectos me pareceram desde o início salientes. Primeiro, uma preocupação, expressa rotundamente nas palavras do presidente do Governo regional, em limitar os danos informativos. Fiquei siderado quando vi João Jardim parecer mais preocupado em conter os danos de “uma dramatização para o exterior” do que a confrontar a amplitude do drama real que não carecia de dramatização. Segundo, uma escassez evidente de imagens por parte dos órgãos de informação oficial da ilha que foram, ao longo dos dias subsequentes, sendo “sabotados” pela miríade de imagens e registros que entretanto invadiram a internet.

Estes dois comportamentos receberam plena confirmação na confusão que se instalou em torno da contagem das vítimas. Algo está podre no reino insular – e não são os cadáveres.

A primeira – e tardia – aparição de Jardim, mostrou aquilo que ele é: um homem desonesto e pusilânime cuja primeira preocupação foi a de enveredar por uma qualquer estratégia de contenção de danos propagandísticos. A frase com que rematou a sua declaração, segundo a qual seria preciso evitar a dramatização para o exterior, deveria entrar para os annais do cinismo político e da falta de carácter dos homens de Estado. Jardim nem sequer é um biltre salazarento e autoritário: é um poltrão que revela facilmente a sua têmpera quando colocado perante sérias adversidades. Claro que temos que pensar no turismo da Madeira, nos milhões que entram para os cofres do governo regional. Mas naquele momento, pensar sobretudo nisso, é reles. Imaginem o presidente do Haiti a ser interpelado pelos jornalistas e a afirmar que não devíamos “dramatizar para o exterior”; ou um qualquer jornal tailandês a vender a ideia de que não podemos deixar passar uma imagem demasiado negativa da Tailândia após o tsunami.

Por isso, não admira minimamente que as autoridades competentes andem a fazer malabarismos com os números das vítimas; que testemunhas oculares digam que viram retirar seis cadáveres do interior do parque de estacionamento do centro comercial Anadia e que o seu presidente negue peremptoriamente. Para Jardim e o seu “polvo” madeirense o que interessa é preservar a imagem. Seja a do bufão destemido que aparece a zurzir nos políticos do continente; seja a do éden insular onde tudo corre às mil maravilhas. Espanto. Quando certas vozes apareceram a aquilatar os estragos e as razões dos mesmos, o suíno Jardim verberou-os imediatamente colocando-lhes o labéu do aproveitamento político. Agora que os estragos começam a ser contabilizados e os números ascendem às centenas de milhões, as autoridades madeirenses revelam-se estranhamente mansas e agradecidas com o altruísmo das instituições do continente e dos seus habitantes. Os cubanos sempre servem para alguma coisa, sr. Jardim?

Felícia Cabrona

“Se isto é um homem” a grave afirmação poética que serve de título ao mais famoso livro de Primo Levi, poderia bem ser transmudada para “se isto é uma jornalista” no caso de Felícia Cabrita.

Verdade: os boys do PS são qualquer coisa entre o asco e a podridão. Contudo, para nos precavermos contra o erro manipulativo do Sol, devemos ter presente que isto não corresponde a nenhuma tipificação que apenas se ajustasse aos boys do PS – este é o comportamento de todos os boys: dos políticos, dos grandes grupos económicos, do futebol, etc. O que as escutas mostram é a existência de grandes negociatas, que apenas a amplificação em certas personagens do PS leva a crer que são delas exclusivas. Neste sentido, a operação Sol é devedora da mais perigosa obnubilação; mais perigosa ainda do que qualquer negociata manhosa: a de fazer crer que esta plutocracia arrivista e sem escrúpulos existe apenas nas hostes partidárias dos socialistas portugueses.

Quantas negociatas igualmente obscenas não seriam trazidas à luz caso tivéssemos acesso às conversas privadas de tantos conselhos de administração por essa realidade empresarial afora? Quantas?  

O ardil é de há muito o cunho desta jornalista. Começa com o caso “Casa Pia” e na insistência persecutória desta jornalista em relação a Paulo Pedroso. Felícia Cabrita foi das jornalistas que mais contribuiu para que o caso da rede de pedofilia se transformasse no caso Paulo Pedroso. Será que a jornalista está de facto convencida que a rede se reduzia a Paulo Pedroso, ou de quem estaria ela a desviar as atenções através da sua sanha persecutória ao deputado do PS? De duas uma, ou Felícia Cabrita é uma péssima jornalista que não consegue, apesar dos meios que lhe são colocados à disposição, descortinar na rede de pedofilia mais (muito mais) implicados, ou tem uma agenda contra o deputado do PS. Em ambos os casos, trata-se de jornalismo de sarjeta.

Durante o seu depoimento, Felícia Cabrita declara que o jornalismo de investigação é extremamente caro e que cada vez é mais raro fazê-lo. Por maioria de razão, devemos perguntarmo-nos, se o jornalismo de investigação é assim tão caro, como se justifica que um jornal em apuros financeiros se possa dar ao luxo de ter uma equipa – coordenada pela jornalista Felícia – exclusivamente concentrada no caso Face Oculta? Se é assim tão caro, quem custeia esta exclusividade? Gostaria, sinceramente, de saber a resposta.

Mas não foi só isso que incomodou ontem em Felícia Cabrita. Tirando o início do seu depoimento, onde notoriamente a lição estava estudada e o discurso preparado, o resto foi de uma mediocridade confrangedora. Desde erros de português dignos de jovens em idade púbere, até um discurso atabalhoado, pouquíssimo espontâneo, visivelmente comprometido, se viu e ouviu no seu depoimento. A dificuldade com que respondeu a questões que não implicariam qualquer renitência por parte de alguém que estivesse de boa-fé foi acompanhada por escusas sistemáticas em responder a questões sobre financiamentos do Sol remetendo-as sempre para o seu patrão José António Saraiva. Em contrapartida, não se coibiu de expor por diversas vezes planos de financiamento e de incorporação empresarial por parte da PT e das empresas implicadas nestas audições parlamentares. Que dizer de uma jornalista de investigação que desconhece os canais de financiamento do próprio jornal onde trabalha, mas que se mostra apurada conhecedora das operações de capital que envolveram as tentativas de compra da TVI? Sem dúvida, estamos perante um caso de concentração extrema numa matéria, concentração essa que a leva a súbitas amnésias relativas à sua entidade empregadora.

Não ficou por aqui. A desculpa esfarrapada invocada como razão para não publicar a mesma edição do Sol em Angola merecia melhor réplica dos deputados, obviamente mais preocupados em encalacrarem o PS do que a perceberem o que se encontra verdadeiramente por detrás desta insistência do Sol.  

Finalmente, a ideia segundo a qual insinuar que Felícia Cabrita teria relações extra-profissionais com certos magistrados seja “vil” e atentadora do bom nome da jornalista, só pode surpreender em quem tem como timbre manchar o nome de pessoas públicas através dos seus artigos especulativos. Pois que se Felícia Cabrita tem acesso a material que deveria estar em segredo de justiça é porque alguém lho concede, seja porque meio for. Eu, por mais que me esforçasse, nunca conseguiria ter acesso a documentos “zelosamente” guardados ao abrigo do segredo de justiça. Se esta jornalista o tem – como já provou inúmeras vezes – é razoável considerar que ela possua um qualquer acesso privilegiado ao mundo da magistratura. De outra forma não se compreende.

O aprendiz de Maquiavel

Ando a ler o livro de Miguel Bandeira Jerónimo sobre a “missão civilizadora” do império colonial português. O seu título – Livros brancos: corpos e almas negras – remete directamente para a obra de Fannon “Peau noire, masques blancs”, diríamos mesmo que é uma sua glosa. Comecemos por aí: a referência é desafortunada, na medida em que entre o livro de Jerónimo e o parafraseado título de Fannon, vai uma distância incomensurável. Não me refiro à qualidade científica, que essa, quer num quer noutro, pode sempre ser interpelada, criticada, comentada. Refiro-me tão-somente à força crítica do livro de Fannon, à sua vontade emancipatória, de deslocação de uma versão da humanidade hegemónica, quando cotejada contra o academismo do livro de Jerónimo. Aqui academismo deve ser compreendido num sentido não totalmente pejorativo, mas enquanto estilo e afinidade com uma determinada forma de fazer história. Essa forma comporta um estilo academista por excelência; qualquer coisa entre a curiosidade de alfarrabista e o fascínio arquivístico.

Situemos primeiro a tese de Jerónimo para percebermos de que falo. Segundo esta as questões do trabalho indígena, as críticas filantrópicas das sociedades contra a escravatura, principalmente inglesas, bem assim como as diligências do governo inglês para perseguir e acabar com o “iníquo comércio” deveram-se sobretudo a pretensões territoriais, a guerras geoestratégicas, confinadas com a necessidade de expansão e controlo imperiais. Com efeito, no vasto espólio historiográfico em que Jerónimo mergulha relativamente à questão de São Tomé e da continuação da prática da escravatura dissimulada sob as pleonásticas palavras dos códigos de trabalho indígena, nunca chegamos a perceber se as acusações a que os comerciantes portugueses eram sistematicamente sujeitos tinham algum cunho de verdade ou se, pelo contrário, se tratavam de meras manobras diplomáticas que, fazendo uso da retórica filantrópica da época, escondiam muito simplesmente interesses económicos e expansionistas. Na verdade, todo o livro parece claudicar entre um maximalismo da diplomacia e das suas jogadas e uma qualquer realidade que por baixo destas se possa aduzir.

Significa que esta história, demasiado preocupada com os discursos, suas retóricas, suas lógicas de evidenciação versus dissimulação, não tem acontecimentos. Como se os discursos, as cartas, as trocas diplomáticas, fossem os acontecimentos por excelência. É uma história que subtrai os factos, podendo estes serem fruto de interpretações diversas ou não, o que para a questão se afigura irrelevante.

Curiosamente, de uma história que se coloca na tradição do linguistic turn acaba por emergir uma “nova velha história”. A obsessão com as lógicas diplomáticas faz com que a história dos subalternos, dos dominados, as suas práticas, a sua dimensão enquanto investidos de historicidade se perca irremediavelmente, esgotando-se nas grandes figuras, nos seus desideratos e malogrados intentos. Esta é a “velha história” travestida de novas roupagens. O fascínio ali contido pelos “homens de estado” não é qualitativamente diferente daquele evidenciado pela história de um Brukhardt ou de um Renan. Por isso ficamos sempre sem saber, ao longo das quase trezentas páginas do livro de Jerónimo, se o “iníquo comércio” continuava a ser praticado pelos ex-esclavagistas portugueses ou não; ficamos sempre na dúvida se as críticas assestadas ao colonialismo português in statu nascendi eram legítimas ou meras maquinações provenientes de França e da Inglaterra para estreitarem os horizontes dessa mesma empresa colonial portuguesa.

E todavia, particularmente na questão de São Tomé, bastava que Jerónimo tivesse cotejado os despachos estatais com, por exemplo, as queixas que chegavam ao Governador de maus tratos e de “escravos” foragidos. Daí outras pistas poderiam surgir e a visão excessivamente contemplativa perante o(s) discurso(s) dos Estados ser complementada com, pelo menos, uma fímbria dos acontecimentos relativos à exploração dos trabalhadores africanos.

Pois que, quando ensaiadas estas visitas às fontes referidas, poucas dúvidas nos restam que o sistema esclavagista de plantação era praticado com o beneplácito dos Governadores da ilha e perante a má-fé dos estadistas da metrópole. Os sistemáticos relatos de maus-tratos e apropriação indevida dos frutos do trabalho, decalcam a permanência de um sistema de exploração que de toda a evidência sugere a escravatura.

Conclusão, entre a obra de Fannon e o livro de Jerónimo vai um hiato incolmatável. Não porque, repito, a qualidade científica do segundo – que a mim me parece grande e estimável – se apresente como óbice. Mas porque o seu potencial crítico – qualquer que ele pudesse ser, e julgo que poderia ser muito – se encontra submerso no relatar da história dos poderosos, das suas jogadas de poder e no seu maquiavelismo. Literalmente no seu maquiavelismo, na medida em que os actores de Jerónimo possuem apenas vontades instrumentalizáveis e nenhuma prática genuína.  

Venham mais cinco!

Parece consensual que Sócrates se deveria demitir, pôr o lugar à disposição, e salvar o pouco que resta de credibilidade do PS. É também a minha opinião. Sócrates deixou de ter condições de governar, independentemente da justeza ou não das razões que lhe assistem.

Obviamente que a questão do polvo socialista não me causa qualquer repúdio, e muito menos surpresa. Lendo a transcrição das escutas publicada no SOL, afigura-se-me que aquilo deve ser o santo e a senha de qualquer negociata mais escura que aconteça entre estes tubarões das grandes companhias. Imaginem o telefone do Moniz estar sob escuta e estas serem reveladas publicamente – o que não se saberia através delas! Até um homem que ainda há pouco tempo se encontrava enterrado em negociatas com uma universidade de recorte duvidoso, se alçou aos cumes da lisura moral e do comportamento impoluto, bradando do seu púlpito qual pregador evangelista. O jornal da Moura Guedes deveria fazer menção a isso, mas talvez fosse demasiado chocante para os critérios editoriais da senhora.

De qualquer das formas, Sócrates está tão atolado em escândalos, suspeições e intrigas que não tem mais condições para continuar.

Agora o que poderia ser verdadeiramente surpreendente seria o seguinte cenário. Sócrates coloca o seu lugar à disposição. Um sucessor natural de Sócrates dentro do PS seria, a meu ver, António Costa – único que tem capacidade de reunir algum consenso e de garantir um capital de prestígio que tanto faz falta aos socialistas. Ora, Costa poderia nem ser assim tão avesso, pelo menos, a um acordo de incidência parlamentar com o BE, parceiro político com que conviveu no passado na Câmara de Lisboa. Um governo do PS encabeçado por Costa e com o apoio do BE seria um força impulsora para a candidatura de Alegre e esta constelação de figuras a única passível de enviar Cavaco para o eterno olvido. Ao retirar-se, Sócrates faria finalmente um serviço ao país.

Há todavia um factor de perplexidade no meio desta história algo rocambolesca. Vimos suficientes coisas que vão a acontecendo na vida política deste país para que nos deixemos encantar pelo enredo da ingenuidade dos envolvidos. O SOL publicou apenas as escutas agora. Por quê? A sensação que tenho era que estariam à espera da votação do Orçamento. E isso beneficiaria o PS? Não. Beneficia amplamente o PSD e CDS-PP. Qualquer escolha que venha a seguir a Sócrates dentro do PS, quem se perfila é necessariamente mais à esquerda do que a ala socrática. António Costa é o exemplo. Por conseguinte, seja qual for essa escolha, ficará inexoravelmente manietada por um orçamento de direita, negociado à direita, com grande influência do CDS. Os bancos ficam contentes; os grandes grupos económicos também. Sócrates, quer o diabolizem quer o entronizem, é um mero peão. Mas um governo com um pendor esquerdista é uma variável mais incontrolável. O PSD e PP, assim como os interesses que estes representam, sabem-no bem. Daí que atirar Sócrates pela borda fora tem que obedecer escrupulosamente a um timing preciso. A publicação a conta-gotas das escutas por parte do SOL não é inofensiva. Primeiro espera-se a votação do Orçamento, os acordos de bastidores com as forças que realmente interessam; subsequentemente desfere-se uma estocada de morte no socratismo. Acrescente-se a isto a aproximação das eleições no PSD e a emergência de uma sua direcção renovada, e temos uma estratégia muitíssimo bem gizada que nada deve ao acaso.

Repito, a única conjugação de factores que poderia estragar os planos de um pleno de direita – o tal pleno tão apetecido mas que tarda para desespero dos barões do PSD -, ou seja, governo de coligação PSD, CDS com Cavaco a presidente, seria António Costa assumir o lugar de primeiro-ministro e deixar-se de pruridos em relação ao BE (eventualmente, mesmo ao PCP). Todavia o PS é conhecido por gorar as expectativas mais atractivas para a esquerda e para uma política com estas condicente.