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Literatura de viagem

Janeiro 29, 2010

Pergunta 1bsk se o facto de não ver ninguém na rua a ler o Bolano quer dizer alguma coisa. Claro que quer! Primeiro, em Portugal vêem-se poucas pessoas a ler na rua, nos transportes, etc. O que diminui a probabilidade de ver pessoas a lerem em lugares públicos tout court. E depois em Portugal – mas isto não difere muito de outros países – quem lê na rua, nos transportes, etc, normalmente lê trampa. Nem sempre, seguramente. Mas a probabilidade de um Dan Brown ou de uma Rita Ferro escorregarem do interior de uma mala de senhora no trajecto que medeia entre Paço d’Arcos e o Caixidré é altíssima. Não sou relativista. Por isso assumo distâncias incomensuráveis entre a boa literatura e a má, ou daquela que nem sequer é literatura. Bolano está do lado dos bons. Dos muito bons. Em minha opinião, o melhor da segunda metade do século passado e até ver do início deste século. Não me espanta nada não ver pessoas a lerem o Bolano. Mas espanta-me ver pessoas a compulsá-lo avidamente nas livrarias. Refiro-me ao 2666, que foi editado com pompa e circunstância e que, alvitro, suscita a curiosidade das massas pelas suas invocações demoníacas, os seus laivos de mistery novel que a capa dá a entender, o seu perfume enigmático de calhamaço inacabado. Sucede que ainda no outro dia estava uma bela ninfa a admirar dois volumosos exemplares na mesa de uma livraria: um era o insondável 2666 o outro era o insonso Dan Brown. A ninfa pegou no primeiro, abriu-o delicadamente numa página ao acaso, e dedilhou umas tantas linhas como se de viola se tratasse. Aborrecimento. Depois, pegou no segundo, começou a lê-lo desde o início, emprestou a sua esbelta atenção a uma ou duas páginas, e dirigiu-se ao balcão sobraçando o Dan Brown, afivelando uma expressão no rosto de quem encontrou leitura para o resto do mês.

Moral da estória. O 2666 atrai muita gente pelo seu cunho misterioso. Gente que engaveta o 2666 juntamente com a menina dos vampiros e a chave para a compreensão do cálice divino. Só podem desiludir-se. E assim como o Evangelho de Saramago pululava nas prateleiras dos novos-ricos sobremaneira por causa da polémica, também o 2666 ficará a apanhar pó em muitas estantes desta Lisboa. Virá daí algum mal ao mundo? Não me parece.

E se o 2666, fascinante pela sua aura de mistério e, simultaneamente, assustador pelo seu peso, arreda muitos dos leitores afoitos, sugiro que se comece por material mais levezinho, como Estrela Distante, Nocturno Chileno, Novela lumpen,  mesmo os contos, que todo ele é genial. Depois sim, inoculados da febre bolaniana podemos aventurar-nos nas selvas dos Detectives Selvagens e do 2666. Estes pequenos milagres, penso eu, mais maneirinhos, teriam maior probabilidade de serem vistos por aí, a circularem. Mas tem isso alguma importância? Absolutamente nenhuma.   

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2 comentários leave one →
  1. Janeiro 30, 2010 1:10 am

    Adorei a sua crítica.

  2. Janeiro 30, 2010 10:00 pm

    Obrigado Rita

    É amabilidade sua.

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