Skip to content

I fought the law and the law won

Janeiro 28, 2010

 E ainda no outro dia se discreteava sobre a obra de Orwell numa solene sala algures num prestigiado instituto deste país, cidade, local…e hoje dou de trombas com esta notícia. E claro, mais interessante ainda, são os comentários, que, naturalmente, invocam as parábolas orwellianas. Por isso, surgem as expressões de crimepensante e polícia do pensamento (mas em inglês, todavia). E por isso, o Orwell foi um visionário idiota; ou seja, não soube colocar a sua visão (antevisão, antecipação, e mais homofonias) no contexto ideológico da época, fazendo com que ela se confundisse com um ideologia particular. Hoje sabemos que não poderia ter errado por mais; que não poderia ter acertado mais ao lado. Mas ficam os gadgets que Orwell vai semeando pelo 1984 como expressão do controlo insidioso que, pelos vistos, apanhou na sua malha o desgraçado do Chambers. Que o Orwell tenha sido idiota o suficiente para achar que isto era coisa que só aconteceria lá para as frias estepes do bloco soviético, só mostra que uma má premissa pode chegar a uma conclusão quase acertada. Chambers é, para todos os efeitos, o modelar crimepensante da distopia orwelliana

 (e será mesmo uma distopia? Jameson, no seu impressionante périplo pela história das utopias, considera o 1984, não como uma distopia (utopia negativa, se quisermos) mas como um livro marcado pelo descrédito absoluta na utopia. E eu manjo as suas palavras como quem abre os pulmões ao ar no alto dos Picos da Europa. De facto, e ainda segundo Jameson, uma mais fiel interpretação do livro, seria a de “ponham-se com utopias, vão ver onde vão parar”. Belo engano. Porque afinal de contas, não nos pondo nós em utopias chegamos rigorosamente ao mesmo planeta inóspito…)

 E se a preocupação por enquanto são aeroportos e explosões, quem me garante que não são igualmente triadas alusões a outras tantas pequenas revoluções, como greves, mordazes críticas ao governo, desafogos relativos à entidade patronal, ou mesmo, urdiduras contra as forças de segurança? Nada, com efeito. A única coisa que assinala que assim pode ser (o big brother, pois então) é a polícia ter agido num caso ingente. A acção é demonstrativa do apparatus e da eficácia na repressão, ou seja, gera visibilidade. Mas quem me diz a mim que nos gabinetes ultra-sofisticados da secreta não dedicam o tempo a arrolar coincidências perturbadoras, indícios amotinadores, expressões obscuras, e mesmo imagens de gajas nuas a fazerem cunnilingus uma na outra no recesso do lar? Pois, nada.  

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: