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A bofetada

Janeiro 22, 2010

 

Isabela lê um excerto do seu livro Caderno de Memórias Coloniais. Está bem escrito; Isabela empresta-lhe a entoação suave e no entanto peremptória que o momento merece. Trata-se da descrição de uma bofetada. A autora terá dado uma bofetada numa menina mulata com a perfeita consciência que esta não poderia retaliar porque o gesto lhe era tolhido pela intransponível barreira da cor.

Não é certo se Isabela terá tido a perfeita consciência, ou se esta só terá sido adquirida retrospectivamente. Talvez através do trabalho da psicanálise que Isabela refere amiudadamente. Talvez o resultado desse trabalho encontre expressão no pedido de desculpas registado no livro; pedido que Isabela confessa nunca ter apresentado à vítima da bofetada. Talvez ela, a vítima, esteja agora, algures, a ler o livro de Isabela, sugerindo-lhe este mesmo excerto a barreira que ela porventura não tinha consciência de existir; ou pelo contrário, estava de tal forma consciente que nem sequer retaliou.

É também um país que se psicanaliza através do livro de Isabela. Ela encontra-se consciente disso; Carlos Vaz Marques coloca as questões de maneira a que a consciência desse efeito se torna iniludível. Éramos racistas – parecem chegar à conclusão. Não os vejo, mas adivinho uma certa cumplicidade embaraçada perante a descoberta de tal evidência. O momento psicanalítico atinge o seu paroxismo quando Carlos Vaz Marques pergunta se escrever o livro implicou uma vingança diferida contra o pai. Pai – País. Uma vingança diferida contra o país. Assestada bem ao âmago da nação. Mais ainda: do Império. Mais ainda: do sonho do Império.

Isabela diz que talvez, mas que agora está em paz e que já perdoou. O pai era um bom homem. O país era um bom país. Os portugueses eram uns bons homens. E nós vamos fazendo a catarse através do livro de Isabela.

As memórias coloniais de Isabela não são apenas a bofetada no pai, tão-pouco na mulata que, tendo ou não consciência daquilo que a impediu de retaliar, comeu e calou. São uma bofetada mais ampla, mais dolorosa: a todos aqueles que, pais e mães, acreditavam que eram bons, profundamente bons. Mesmo que os seus actos provassem o contrário. Mesmo que o “preto” fosse a criança grande a precisar de tutoria do branco. Mesmo assim.

Pais – País. Resta saber se o país irá retaliar a bofetada ou se pelo contrário dormirá descansado após a catarse.   

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