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A disforia “catastrófica”

Janeiro 20, 2010

O terramoto de 1755 causou ondas de choque pela Europa adentro que não foram alheias ao descrédito e erosão de que a religião cristã vinha a ser objecto. Aliás, o terramoto é assinalado por grandes como Kant e Voltaire como a prova iniludível de que a natureza pode rebelar-se contra a ordem sobrenatural do divino. Perante a devastação causada por um acontecimento telúrico, a mortandade e destruição da (então) bela e próspera cidade de Lisboa, como acreditar na bondade divina e, sobretudo, na sua providencial orientação? Se o pensamento iluminista é construído em torno de um credo ateísta – paradoxo que viria a ser muitas vezes salientado pelas inúmeras exegeses que posteriormente lhe foram dedicadas -, encontra certamente no terramoto lisboeta um dos motivos maiores para respaldar as suas dúvidas lógicas. A natureza rebela-se como fizera anteriormente pela pena de Spinoza; mas rebela-se deixando marcas indeléveis e não apenas suposições vagas e retóricas. Como se, por capricho maldoso, o espinosismo ficasse gravado na própria matéria que este invocara anos antes. Deus ausentara-se, bem antes da máxima nietzshiana que decretou a sua morte. E esta ausência de deus era, por assim dizer, a necessária caução para o projecto da Aufklärung. Desgraça e ciência completam-se, como viria a acontecer vezes sem conta após este ensaio iniciático: com Hiroshima, com Chernobyl, com Three Mile Island. Porém, a aliança perversa que então se forjava transportava no seu cerne um bicho gigantesco, de possibilidades incalculáveis, de mutações imprevisíveis. Esse espectro larvar era o da emancipação. Não apenas do país X ou da seita Y, mas da humanidade, de toda ela, sem nada deixar excluído. O parto foi doloroso. Poderes constituídos, seculares, com a inércia que os caracteriza, opuseram-se ao canto das sereias que se evolava dessa terra incognita que já não confinava com os limites da linha do horizonte – como outrora definira a separação entre o espaço do conhecido e o espaço do incategorizável, do monstruoso – mas antes com a capacidade de domar a experiência. Os Aufgabe que mais tarde Marx viria a evocar eram tarefas possíveis e apenas determinadas pelos limites do entendimento humano – expandisse-se este e nenhuma tarefa seria demasiado titânica para travar o engenho humano.

Damos um grande salto. E é curioso como as catástrofes recentemente acontecidas nos deixam pequenos e perplexos. Contrariamente ao acesso de confiança na humanidade perante a catástrofe que colocava definitivamente deus de molho e por largos séculos, as “nossas” catástrofes não nos arrimam a portos seguros, mesmo que virtuais, e menos ainda nos inflamam de esperança em melhores futuros. É tudo muito estranho: entre a perversidade do voyerismo “catastrófico”, ou seja, inoculado pela exposição mediática das catástrofes, e o medo insinuante que encontra a sua catarse no misticismo actual. A catástrofe passou assim de um destruidor de misticismo vários, para um catalizador de um misticismo básico. As “nossas” catástrofes não nos suscitam dúvidas teóricas, mas sim dúvidas ontológicas. Não nos suscitam vontade de domínio, mas sim de retirada, de apaziguamento, de comunhão com a natureza que, paradoxalmente, e à velocidade geradora de simultaneidade dos media, se rebelou ao mesmo tempo que impõe o seu tempo às nossas vontades. Não trazem por conseguinte o motivo do recomeço no seu imaginário. Pelo contrário, imaginam-se, e presenciam-se, mesmo que à distância, como convulsões apocalípticas que anunciam o fim da nossa hegemonia. 

 

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