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Pinchonated!

Janeiro 5, 2010

 

Eu, nem por isso grande admirador de Pinchon me confesso. Sugiro que ele faz as delícias da juventude letrada e da maioria dos “alternativos” mais por causa da sua aura de mistério do que propriamente pelo encanto dos seus livros. A sua linguagem, nem se discute, é de uma originalidade inimitável. O seu pensamento trip-ácido, alucinação, viagem espacial sem destino assegurado, a uma velocidade vertiginosa que só os virtuosos da escrita conseguem manter – tire-se-lhe o chapéu, duas vénias e estenda-se o tapete vermelho. Mas aqui paramos. O Crying of Lot 49, elevado a clássico, tenho as minhas dúvidas, e, mais uma vez, terá sido mais porque foi sujeito ao toque de midas bloomiano, que tem a última palavra na canonização de obras literárias (veja-se como a chord do Universalismo saramaguiano passou a ser dedilhada por todo e qualquer crítico literário), do que efectivamente pelo seu brilhantismo. A partir daí são variações sobre o mesmo tema. E estas sobem numa cacofonia imparável até atingir o ápice num livro impossível que é, nem mais nem menos, do que o Against the day. Pinchon não é prolífico como, por exemplo um Saramago ou um Roth, que ano após ano parturejam qualquer coisa nem que sejam as listas das compras que alinhavaram aos fins-de-semana. Tenho poucas dificuldades em lhe atribuir uma das mais originais linguagens da literatura contemporânea. Só que, ao contrário de um Joyce, Becket (e a comparação foi inúmeras vezes aventada) e, mais recentemente, Bolano, julgo que esta não transcende esse mesmo cânone, o que era precisamente o que faz dos exemplos citados autenticamente revolucionários; numa toada mais teológica, revelações que mudam a visão do mundo assim como a tínhamos por adquirida. Isso, Pinchon não faz. De tal forma que, pese embora toda a originalidade, pode esta ser extremamente cansativa. Against the Day é o exemplo do que pode ser um livro extenuante, ilegível, não pela sua dificuldade intrínseca, mas antes pela sua aversão ao leitor; um pouco à maneira de The Making of Americans de Stein, também ele um livro impossível, autocentrado a um extremo insuportável. Chegados aqui dir-se-ia: alto lá! – então e aquele prodígio de autocentramento chamado Finnegans Wake desse mesmo Joyce? Certamente. Penso apenas que não é um livro, mas sim um pastiche saído da convoluta imaginação joiciana. Ao que poderiam redarguir: estou a ver que é um fervoroso adepto da narrativa escorreita, de uma urdidura linear, com princípio, meio e fim, tudo certinho e alinhavado, para não causar grandes perturbações geradas pelos saltos no mar caótico da semântica indomesticada. Ou seja, não vai pela estrada sem guia. Nada mais falso. Mas há livros e há pastiches de ideias. Coloco o Finnegan’s Wake, assim como o Against the day, na segunda categoria. Com uma ressalva: o cartapácio do Pinchon parece, assim de repente, uma colagem de diversos livros – como se Pincho tivesse começado não sei quantos livros e não acabado nenhum, e em vez de os deitar fora, deixando assim de nos legar essa obra imorredoira, decidiu juntá-los todos. Note-se que não li o livro do Pinchon inteiro. Com tanto Bolano ainda para ler, temos que ser criteriosos na maneira como ocupamos o tempo dedicado à leitura. Mas isso, neste mundo de live fast, são águas passadas.    

Vem isto a propósito do último Pinchon “Inherent Vice”. Primeiro, dizer que não invejo a sorte de quem tiver de o traduzir. O slang irrompe em cada diálogo, e depois é um slang de outros tempos, época das grandes jornadas político-psicadélicas que associavam consumos extravagantes de ácido com a assunção de pequenas revoluções políticas quotidianas. Para não falar, mas isso é a marca de água, dos sistemáticos jogos de palavras, de expressões inventadas pelo febril cérebro literário de Pinchon, e da interrupção do coloquial pelo vernáculo quando menos se espera. Difícil tradução, penso eu. Segundo, embora nos poupe ao suplício das mil e muitas páginas do seu predecessor, deixa-nos igualmente a sensação – desagradável, sem dúvida – do “mas porquê que eu tive a ler isto?”. Há um mistério (e não há sempre?) e isso constitui razão suficiente para o, mais ou menos inconsciente acto, do page-turner. Aliás, ele é, para o bem e para o mal, um page-turner, e nesse sentido lê-se bem melhor que o insuportável Against the Day ou mesmo que o menos conseguido Vineland. Mas daí até sermos obrigados a mourejar pelas quase quatrocentas páginas do cérebro intoxicado (mas, há que fazer justiça, tantas e tantas vezes, intoxicante) de Pinchon, vai uma ganda distância. Fora isso, o périplo pelas comunidades hippies dos sixties e dos seventies no Sul da Califórnia, onde se cruzam ondas porreiras para surfar, com alucinogénios e capangas de sociedades secretas, tudo bem servido com a possibilidade do continente Lemuria (o congénere surfista da Atlântida) reemergir defronte de uma sacada de um bungallow enquanto se beberrica uma tequilla, recria um cenário groovy bem à maneira (ou vice-versa) das recentes recriações woodstoquianas de Ang Lee. Ou não tem nada a ver com isso, na realidade. De qualquer forma, Doc Sportello não é um hippie comum, embora mantenha uma relação com a vida, toda ela caldeada pela mais genuína filosofia hippie dos sixties. O mistério que une Sportello ao desaparecimento da sua ex-Shasta não serei eu a revelar. O que atrás ficou dito não retira minimamente autoridade à consagrada expressão: ah, é um Pinchon!  

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