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Quem vê mamas…

Janeiro 4, 2010

 

António Pedro Vasconcelos sempre me surgiu como um oportunista do cinema. Ontem vi finalmente o famoso Call Girl o que reafirmou essa minha suspeita. Nem tanto porque Soraia Chaves mostre as mamas a propósito e a despropósito, nem tão-pouco porque Ivo Canelas tenha mais “foda-se” e “caralhos” nas suas falas do que proposições. O que me encanitou no filme foi o intuito de ser um Tarentino dos pobres, uma espécie de afirmação miserabilista do “se eles podem fazer por que não nós?”. Por isso, lá surte o vernáculo a torto e a direito, e até a aparição de António Pedro Vasconcelos numa anódina cena num avião onde viaja Soraia Chaves é invocativa desse tique tarantiniano de meter o realizador numa das cenas do filme. Sem esquecer, evidentemente, o poster de Reservoir Dogs pendurado na parede do polícia da judiciária honesto (Ivo Canelas) cuja afixação seria tão provável como encontrar um exemplar de “Mimesis” na casa da prostituta Vicky alias Soraia Chaves.   

 Para que não restem dúvidas, não existe comparação possível entre Tarantino e António Pedro Vasconcelos. Onde o primeiro trabalha diálogos inusitados com tonalidades pinchonianas, oferece o segundo a banalidade das acções novelescas que contrastam os “muito maus” com os “bonzinhos”. Neste sentido, onde se esperariam rasgos arriscados do realizador – técnica de Tarantino -, aparece a banalidade dos corpos e caras bonitinhas cuja violência é canhestramente representada pelo linguajar histérico dos personagens. Ou seja, onde Tarantino é inovador e desconcertante, António Pedro Vasconcelos sabe apenas ser conservador e rotineiro.  

 O seu conservadorismo é de tal forma ronceiro que, num panorama de municípios e edis acusados de corrupção, com casos tão mediáticos quanto as suas filiações partidárias, Vasconcelos não encontra melhor móbil para o argumento do que um autarca do PCP que se deixa tentar pelo apelo da riqueza ilícita. Convenhamos que os exemplos abundam onde as sirenes de Ulisses se têm mostrado bem mais irresistíveis. E que, ao contrário do pobre Nicolau Breyner, até conseguem safar-se a terceiros e quartos mandatos.  

 A especificidade do autarca do PCP pode eventualmente ser vista como o confronto entre um Portugal de antanho, apegado ainda aos valores da terra e da tradição (os sobreiros que foram herdados de geração para geração) e o novo Portugal, do dinheiro, da falta de escrúpulos, do “tudo se compra”, e da inexistência de valores sólidos. Mas isso nem sequer é verdade, porque a ser esse o subtexto, ele encontra-se evidentemente inscrito no papel da polícia como o último garante da idoneidade nacional – contra autarcas corruptos, ricos e poderosos, políticos, até mesmo a deliquescência amorosa. Essa mensagem aliás, está bem patente no final do filme, no qual o polícia mais velho demonstra ao mais novo, e portanto, mais iludido ainda sobre a bondade humana, que o país estaria ainda pior se não fosse por eles. A mensagem final poderia até ter recebido o alto patrocínio do Ministério da Segurança Interna, não se desse o caso de os ministros terem sido igualmente arrolados à onda corruptiva geral. Num país em que nada parece o que é – começando pelas putas – salva-se a “judite”. Se isto não é de um conservadorismo anacrónico não sei o que será…   

 Para além disso, resta-nos a senilidade de um realizador a olhar para a bela Soraia Chaves, mas que não está assim tão senil porque viu bem o oportunismo de aproveitar a rapariga para sucessos de bilheteira (repetirá a proeza no “assustador” a Bela e o Paparazzo. António Pedro Vasconcelos é uma contradição: olha com distância moralista para o próprio mundo onde gosta de chafurdar. 

 

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