Literatura de viagem

Pergunta 1bsk se o facto de não ver ninguém na rua a ler o Bolano quer dizer alguma coisa. Claro que quer! Primeiro, em Portugal vêem-se poucas pessoas a ler na rua, nos transportes, etc. O que diminui a probabilidade de ver pessoas a lerem em lugares públicos tout court. E depois em Portugal – mas isto não difere muito de outros países – quem lê na rua, nos transportes, etc, normalmente lê trampa. Nem sempre, seguramente. Mas a probabilidade de um Dan Brown ou de uma Rita Ferro escorregarem do interior de uma mala de senhora no trajecto que medeia entre Paço d’Arcos e o Caixidré é altíssima. Não sou relativista. Por isso assumo distâncias incomensuráveis entre a boa literatura e a má, ou daquela que nem sequer é literatura. Bolano está do lado dos bons. Dos muito bons. Em minha opinião, o melhor da segunda metade do século passado e até ver do início deste século. Não me espanta nada não ver pessoas a lerem o Bolano. Mas espanta-me ver pessoas a compulsá-lo avidamente nas livrarias. Refiro-me ao 2666, que foi editado com pompa e circunstância e que, alvitro, suscita a curiosidade das massas pelas suas invocações demoníacas, os seus laivos de mistery novel que a capa dá a entender, o seu perfume enigmático de calhamaço inacabado. Sucede que ainda no outro dia estava uma bela ninfa a admirar dois volumosos exemplares na mesa de uma livraria: um era o insondável 2666 o outro era o insonso Dan Brown. A ninfa pegou no primeiro, abriu-o delicadamente numa página ao acaso, e dedilhou umas tantas linhas como se de viola se tratasse. Aborrecimento. Depois, pegou no segundo, começou a lê-lo desde o início, emprestou a sua esbelta atenção a uma ou duas páginas, e dirigiu-se ao balcão sobraçando o Dan Brown, afivelando uma expressão no rosto de quem encontrou leitura para o resto do mês.

Moral da estória. O 2666 atrai muita gente pelo seu cunho misterioso. Gente que engaveta o 2666 juntamente com a menina dos vampiros e a chave para a compreensão do cálice divino. Só podem desiludir-se. E assim como o Evangelho de Saramago pululava nas prateleiras dos novos-ricos sobremaneira por causa da polémica, também o 2666 ficará a apanhar pó em muitas estantes desta Lisboa. Virá daí algum mal ao mundo? Não me parece.

E se o 2666, fascinante pela sua aura de mistério e, simultaneamente, assustador pelo seu peso, arreda muitos dos leitores afoitos, sugiro que se comece por material mais levezinho, como Estrela Distante, Nocturno Chileno, Novela lumpen,  mesmo os contos, que todo ele é genial. Depois sim, inoculados da febre bolaniana podemos aventurar-nos nas selvas dos Detectives Selvagens e do 2666. Estes pequenos milagres, penso eu, mais maneirinhos, teriam maior probabilidade de serem vistos por aí, a circularem. Mas tem isso alguma importância? Absolutamente nenhuma.   

I fought the law and the law won

 E ainda no outro dia se discreteava sobre a obra de Orwell numa solene sala algures num prestigiado instituto deste país, cidade, local…e hoje dou de trombas com esta notícia. E claro, mais interessante ainda, são os comentários, que, naturalmente, invocam as parábolas orwellianas. Por isso, surgem as expressões de crimepensante e polícia do pensamento (mas em inglês, todavia). E por isso, o Orwell foi um visionário idiota; ou seja, não soube colocar a sua visão (antevisão, antecipação, e mais homofonias) no contexto ideológico da época, fazendo com que ela se confundisse com um ideologia particular. Hoje sabemos que não poderia ter errado por mais; que não poderia ter acertado mais ao lado. Mas ficam os gadgets que Orwell vai semeando pelo 1984 como expressão do controlo insidioso que, pelos vistos, apanhou na sua malha o desgraçado do Chambers. Que o Orwell tenha sido idiota o suficiente para achar que isto era coisa que só aconteceria lá para as frias estepes do bloco soviético, só mostra que uma má premissa pode chegar a uma conclusão quase acertada. Chambers é, para todos os efeitos, o modelar crimepensante da distopia orwelliana

 (e será mesmo uma distopia? Jameson, no seu impressionante périplo pela história das utopias, considera o 1984, não como uma distopia (utopia negativa, se quisermos) mas como um livro marcado pelo descrédito absoluta na utopia. E eu manjo as suas palavras como quem abre os pulmões ao ar no alto dos Picos da Europa. De facto, e ainda segundo Jameson, uma mais fiel interpretação do livro, seria a de “ponham-se com utopias, vão ver onde vão parar”. Belo engano. Porque afinal de contas, não nos pondo nós em utopias chegamos rigorosamente ao mesmo planeta inóspito…)

 E se a preocupação por enquanto são aeroportos e explosões, quem me garante que não são igualmente triadas alusões a outras tantas pequenas revoluções, como greves, mordazes críticas ao governo, desafogos relativos à entidade patronal, ou mesmo, urdiduras contra as forças de segurança? Nada, com efeito. A única coisa que assinala que assim pode ser (o big brother, pois então) é a polícia ter agido num caso ingente. A acção é demonstrativa do apparatus e da eficácia na repressão, ou seja, gera visibilidade. Mas quem me diz a mim que nos gabinetes ultra-sofisticados da secreta não dedicam o tempo a arrolar coincidências perturbadoras, indícios amotinadores, expressões obscuras, e mesmo imagens de gajas nuas a fazerem cunnilingus uma na outra no recesso do lar? Pois, nada.  

ipoda

 

Steve Jobs conseguiu finalmente inventar a coisa mais inútil desde a invenção da cartola. Chama-se ipad, vem acompanhado de fanfarra HTec e de pirotecnia mediática. Com o ipad temos os media todos concentrados numa plataforma – bela, elegante, móvel. Com o ipad, podemos aceder ao jornal, aos livros, às redes sociais, a tudo o que a internet disponibiliza; a tudo o que se consegue aceder através de um portátil. Só que, diferentemente deste último, o ipad é leve como uma pena, tem um touch screen e o formato de uma folha. E quanto custa um ipad? A módica quantia de 500 € (a gama média)!!!!  

Imagine-se leitor a vir do emprego às 11 da noite, a apanhar o comboio das 11.20 no Rossio para Rio de Mouro. Qual é a primeira coisa que lhe ocorre? Sacar do ipad e ir confortavelmente sentado com o seu brinquedo de 500 € a dar nas vistas? Ou, sobraçar a mala onde transporta o portátil com a energia do TGV que virá de Madrid a Lisboa enquanto passa despreocupadamente os olhos pelo jornal “O Metro”? Se escolheu a segunda hipótese, o seu grau de sanidade continua a ser medianamente aceitável. Se escolheu a primeira, é provável que se encontre a caminho da worten para comprar um novo ipad a prestações.

A bofetada

 

Isabela lê um excerto do seu livro Caderno de Memórias Coloniais. Está bem escrito; Isabela empresta-lhe a entoação suave e no entanto peremptória que o momento merece. Trata-se da descrição de uma bofetada. A autora terá dado uma bofetada numa menina mulata com a perfeita consciência que esta não poderia retaliar porque o gesto lhe era tolhido pela intransponível barreira da cor.

Não é certo se Isabela terá tido a perfeita consciência, ou se esta só terá sido adquirida retrospectivamente. Talvez através do trabalho da psicanálise que Isabela refere amiudadamente. Talvez o resultado desse trabalho encontre expressão no pedido de desculpas registado no livro; pedido que Isabela confessa nunca ter apresentado à vítima da bofetada. Talvez ela, a vítima, esteja agora, algures, a ler o livro de Isabela, sugerindo-lhe este mesmo excerto a barreira que ela porventura não tinha consciência de existir; ou pelo contrário, estava de tal forma consciente que nem sequer retaliou.

É também um país que se psicanaliza através do livro de Isabela. Ela encontra-se consciente disso; Carlos Vaz Marques coloca as questões de maneira a que a consciência desse efeito se torna iniludível. Éramos racistas – parecem chegar à conclusão. Não os vejo, mas adivinho uma certa cumplicidade embaraçada perante a descoberta de tal evidência. O momento psicanalítico atinge o seu paroxismo quando Carlos Vaz Marques pergunta se escrever o livro implicou uma vingança diferida contra o pai. Pai – País. Uma vingança diferida contra o país. Assestada bem ao âmago da nação. Mais ainda: do Império. Mais ainda: do sonho do Império.

Isabela diz que talvez, mas que agora está em paz e que já perdoou. O pai era um bom homem. O país era um bom país. Os portugueses eram uns bons homens. E nós vamos fazendo a catarse através do livro de Isabela.

As memórias coloniais de Isabela não são apenas a bofetada no pai, tão-pouco na mulata que, tendo ou não consciência daquilo que a impediu de retaliar, comeu e calou. São uma bofetada mais ampla, mais dolorosa: a todos aqueles que, pais e mães, acreditavam que eram bons, profundamente bons. Mesmo que os seus actos provassem o contrário. Mesmo que o “preto” fosse a criança grande a precisar de tutoria do branco. Mesmo assim.

Pais – País. Resta saber se o país irá retaliar a bofetada ou se pelo contrário dormirá descansado após a catarse.   

A disforia “catastrófica”

O terramoto de 1755 causou ondas de choque pela Europa adentro que não foram alheias ao descrédito e erosão de que a religião cristã vinha a ser objecto. Aliás, o terramoto é assinalado por grandes como Kant e Voltaire como a prova iniludível de que a natureza pode rebelar-se contra a ordem sobrenatural do divino. Perante a devastação causada por um acontecimento telúrico, a mortandade e destruição da (então) bela e próspera cidade de Lisboa, como acreditar na bondade divina e, sobretudo, na sua providencial orientação? Se o pensamento iluminista é construído em torno de um credo ateísta – paradoxo que viria a ser muitas vezes salientado pelas inúmeras exegeses que posteriormente lhe foram dedicadas -, encontra certamente no terramoto lisboeta um dos motivos maiores para respaldar as suas dúvidas lógicas. A natureza rebela-se como fizera anteriormente pela pena de Spinoza; mas rebela-se deixando marcas indeléveis e não apenas suposições vagas e retóricas. Como se, por capricho maldoso, o espinosismo ficasse gravado na própria matéria que este invocara anos antes. Deus ausentara-se, bem antes da máxima nietzshiana que decretou a sua morte. E esta ausência de deus era, por assim dizer, a necessária caução para o projecto da Aufklärung. Desgraça e ciência completam-se, como viria a acontecer vezes sem conta após este ensaio iniciático: com Hiroshima, com Chernobyl, com Three Mile Island. Porém, a aliança perversa que então se forjava transportava no seu cerne um bicho gigantesco, de possibilidades incalculáveis, de mutações imprevisíveis. Esse espectro larvar era o da emancipação. Não apenas do país X ou da seita Y, mas da humanidade, de toda ela, sem nada deixar excluído. O parto foi doloroso. Poderes constituídos, seculares, com a inércia que os caracteriza, opuseram-se ao canto das sereias que se evolava dessa terra incognita que já não confinava com os limites da linha do horizonte – como outrora definira a separação entre o espaço do conhecido e o espaço do incategorizável, do monstruoso – mas antes com a capacidade de domar a experiência. Os Aufgabe que mais tarde Marx viria a evocar eram tarefas possíveis e apenas determinadas pelos limites do entendimento humano – expandisse-se este e nenhuma tarefa seria demasiado titânica para travar o engenho humano.

Damos um grande salto. E é curioso como as catástrofes recentemente acontecidas nos deixam pequenos e perplexos. Contrariamente ao acesso de confiança na humanidade perante a catástrofe que colocava definitivamente deus de molho e por largos séculos, as “nossas” catástrofes não nos arrimam a portos seguros, mesmo que virtuais, e menos ainda nos inflamam de esperança em melhores futuros. É tudo muito estranho: entre a perversidade do voyerismo “catastrófico”, ou seja, inoculado pela exposição mediática das catástrofes, e o medo insinuante que encontra a sua catarse no misticismo actual. A catástrofe passou assim de um destruidor de misticismo vários, para um catalizador de um misticismo básico. As “nossas” catástrofes não nos suscitam dúvidas teóricas, mas sim dúvidas ontológicas. Não nos suscitam vontade de domínio, mas sim de retirada, de apaziguamento, de comunhão com a natureza que, paradoxalmente, e à velocidade geradora de simultaneidade dos media, se rebelou ao mesmo tempo que impõe o seu tempo às nossas vontades. Não trazem por conseguinte o motivo do recomeço no seu imaginário. Pelo contrário, imaginam-se, e presenciam-se, mesmo que à distância, como convulsões apocalípticas que anunciam o fim da nossa hegemonia. 

 

O bolo

A competição é igual em toda a parte. Agora, os meios ou os instrumentos para essa competição é que são diferentes

O bolo lá [na Holanda]é maior e o bolo lá é razoavelmente bem dividido por quem tem muito, médio ou pouco talento. Mas mesmo o que tem pouco talento também tem direito a uma fatia razoável do bolo.

E isto aqui não temos bolo

José Rentes de Carvalho em entrevista com Carlos Vaz Marques

 Temos bolo, temos. Ele fica é todo concentrado nas mãos de meia dúzia que se reproduzem endogenamente. Só assim se pode compreender como há tanta gente num país tão pobre a viver à tripa-forra. Mas isto pouco ou nada tem a ver com o Estado; e é extensível a qualquer organização que junte mais do que três indivíduos. É próprio do povo e do país. Eventualmente, uma marca religiosa que nos impregna o sangue.