Casamento é coisa de gays!

 

Em mais um momento patético protagonizado por Mário Crespo na sua gesta destemida contra o casamento homossexual, foi-nos oferecida uma entrevista com um jurista que se especializara em direito da família e, no contexto dessa especialização, dera à luz uma tese de mestrado sobre o casamento homossexual.

O momento foi patético – mas não tinha obrigação de o ser. Foi patético, porque o dito jurista era um boçal: exprimia-se mal; não tinha nada a dizer de novo sobre o assunto; metia os pés pelas mãos quanto aos princípios constitucionais e o seu alcance (veja-se, por exemplo, a confusão com a latitude do art. 13). Até o cenho franzido de Mário Crespo indiciava um certo arrependimento em ter trazido tão abstrusa personagem para a arena dos homofóbicos empedernidos.

O Dr. Duarte Santos – que começou por ser Senhor para acabar, com as devidas honras académicas, em Doutor – veio trazer a resposta final tão almejada pelo campo da limitação do casamento ao par heterossexual. E a resposta não poderia ser mais esclarecedora: deve ser limitado aos heterossexuais porque SIM. O argumento escorava-se numa razão de peso, a saber, a família é uma instituição basilar da sociedade. Não é que seja imprescindível procriar – até porque o factor procriação não deve ter prevalência sobre o factor coesão. A família é, porque é. Explicação jurídica, antropológica, sociológica, psicológica? Nenhuma. Para quê? O Dr. Duarte Santos parecia inamovível na sua convicção, embora titubeasse uns disparates mal cerzidos numa conversa que parecia imitar os diálogos dos irmãos Marx. Claro que Mário Crespo fez o seu lado da maiêutica socrática procurando que o seu interlocutor duvidasse do seu próprio pensamento. O problema é que ficaram pela primeira fase de ascensão ao verdadeiro conhecimento, não concebendo, como ditam as regras da maiêutica, um novo conhecimento. Ou seja, continuaram burros. Mário Crespo ainda avisou o seu comparsa de que iam ambos levar porrada nestes tempos de “liberdade de expressão”. E estavam à espera de quê?   

A tese de mestrado, a que Mário Crespo tanto apreciou o nome – Mudam-se os tempos, mudam-se os casamentos? -, foi desenterrada da sua origem em 2004 e posta a circular agora. Se eu não fosse distraído, diria que era mais um a aproveitar-se do Zeitgeist para ascender aos pináculos da fama. E que melhor cavalo para montar do que o casamento gay?

8 pensamentos sobre “Casamento é coisa de gays!

  1. Não gostou do Mário Crespo e do Duarte Santos? Eu gostei. Voce não? Que pena pensarmos de modo diferente. É como os sexos. Há dois também. Não há mais (por muito que queira)

  2. vamos lá ver se nos entendemos. algo me diz que no seu comentário está implícita uma alusão à minha suposta homossexualidade. Não sou. Sou heterossexual.

    o que eu não sou é beato, aldrabão ou homofóbico, que são as únicas condições que permitem negar o casamento aos homossexuais.

    não sei se revê em alguma delas?

  3. Sempre achei extraordinário um ser que necessita de explicitar em público qual o seu género.Quero lá saber o que é que voce é ou não é. Assuma-se que isso só a si lhe diz respeito. Quanto ao casamento gay, é um absurdo, seja voce beato, aldrabão, homofóbico ou socialista.

  4. Concordo plenamente consigo, caro Nuno Castro, fiz o sacrifício de ouvir a “entrevista” até ao fim para tentar perceber o porquê da fobia contra o casamento com pessoas do mesmo sexo. Mas no final fiquei na mesma, apenas ouvi um montão de lugares comuns, sem qualquer fundamento (se é que existe algum fundamento aceitável para esta oposição) e um enorme vazio ideológico. O “Senhor Doutor” limitou-se, desde o início, a demonstrar a sua opinião, quando deveria mostrar rigor científico e apresentar os resultados da sua suposta “tese científica”. Abraços

  5. Pois é, Nuno!
    O senhor Guilherme não deverá ser o único a não saber as diferenças que existem entre género, sexo e orientação sexual.
    Juntamente com o referendo que tanto é reclamado, o governo deveria também promover acções de informação obrigatórias. E as pessoas só estariam autorizadas a votar se possuissem um certificado de partcipação nas em acções de esclarecimento.

  6. Parece-me é que todos querem ouvir aquilo em que já acreditam e ignorar o ponto de vista de outros. Eu gostei do programa do Mário Crespo e do jurista que demonstrou o absurdo juridico de alargar o conceito de casamento à força. É engenharia social no seu pior.

  7. Maria

    Completamente de acordo com as sessões de esclarecimento. É assunto demasiado sério para ser posto na mãos de labrostas em referendo

    M.Filomena
    E por que não chamar engenharia social ao referendo, que esse pode influir na vida de terceiros apenas porque existem convicções que lhes são prejuddiciais?´Isso é que eu chamo engenharia social

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