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“O Menino Jesus adormece nos meus braços/ E eu levo-o ao colo para casa.”

Dezembro 23, 2009

Sem dúvida, há qualquer coisa de masoquista nesta corrida às compras a que assistimos todos os anos por altura do Natal. Não é só as intermináveis filas de espera, os magotes de gente a empurrarem-se dentro das lojas, as horas perdidas atascados no trânsito; é também esta compulsão de comprar quando, presumivelmente, o dinheiro seria pouco.

Se há crise em Portugal, ela não é visível em Lisboa. Nesta região, a crise esbateu-se, esfumou-se, ou existe de pantufas e por isso não lhe ouvimos os passos tonitruantes. O que for, é – mas vendo o que vejo por aí, não me parece que a crise tenha chegado a Lisboa. As pessoas não estão a comprar burrinhos para o presépio nem filhozes para oferecer em gesto de anunciação da mesa farta. As pessoas compram Wii que custam para cima de 200 € e PS3 que custam para cima de 300€. Crise? Qual crise? Só se for noutro qualquer Centro Comercial, longe daqui, longe da vista, longe do coração, numa qualquer terra imaginária onde grassam a penúria e a fome. Porque aqui, não é com certeza.

A menos que seja mentira. Que vá tudo para a conta do endividamento, montante insanável que os há-de acompanhar até à lura escura que os ossos receba. A menos que seja eu: mal habituado, mal apetrechado, mal municiado, para fazer de projéctil ofensivo neste bem-dito natal. A menos que seja eu.

Amanhã logo se vê. Édipo renascido; a festa do narcisismo vai lançar o seu manto histriónico sobre os odres camuflados de inveja que se sentarem à mesa da concórdia. A minha é maior que a tua – assim ouviremos. E lá vão rasgar em colérica desordem os embrulhos, surpresas tantas, que cimentam o sangue novo com o velho, a geração do menino Jesus com a geração da rena Rodolfo.

Mas eis que o Menino is back with a vengeance. Eis que ele – nas palhas deitado, nas palhas estendido – reaparece em tudo o que é postigo, janela, varanda, clarabóia, sacada, balcão, terraço, eirado. Ali está ele, coitadinho – e nem de frio se poderia dizer transido, que aquilo é bicho bonacheirão cujo rubor exala saúde. Ámen!

Não venceu a bandeira da nação, alto lá com o andor! Há mais fanáticos do repasto nacionalista do que católicos convictos do seu anacronismo. Pelo sim pelo não, alguns vão pondo o pai natal a trepar por um cordame, mesmo que o seu objectivo seja apenas alcançar os divinos pés do Menino que se estendem fagueiros um pouco mais acima. Ámen!

Porque isto de tradições, é preciso mergulhar no baú sem fundo da fé e de lá repescar uma imagem verdadeiramente sagrada. Quando a mensagem deveria ser uma de iconoclastia, vendem-nos o Menino para emular os novos ídolos. E para que não restem dúvidas de que ali vive vero católico estende-se a figura do pobre Jesus que fica a perder para o campeonato da Europa. E que belos motivos a enfeitam. Imaginar o Menino à beira de uma árvore de natal a desembrulhar as prendas, seria sacrílego. O Menino nuzinho, coberto de pequena tanga que nem os mais nefelibatas se arriscariam a trazer para a rua, é demonstração de verticalidade religiosa.

Pedófilos descomprometidos. E não se pode arranjar cura para eles?

 

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