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O insulto como forma de vida

Dezembro 23, 2009

É sem dúvida nenhuma sintomático que nesta discussão sobre violência não tenha surgido o “insulto” como objecto de estudo; e se não de estudo, pelo menos enquanto digno de uma atenção interpretativa. A tese: as nossas sociedades comunicacionais dão-se mal com o insulto. Porquê? Porque o insulto é uma espécie de impureza na ilusão de pureza comunicacional com que vivemos. Grandes vultos da filosofia social foram contaminados por esta ilusão. Refiro-me concretamente (goste-se ou não dele) a Habermas. E julgo que qualquer especialista em marqueting e publicidade faria gala em defender que o universo semiótico onde nos encontramos emersos é livre e aberto e que por isso somos igualmente livres de fazermos com ele as combinações que nos aprouverem. Isto nada tem a ver com Habermas, mas tem tudo a ver com a sociedade de consumo em que vivemos, na qual os sinais-estímulo se disseminaram ao ponto de não haver mais uma clareira onde respirar.

Regressando ao tema do “insulto”, e porque este tornou-se, como afirmei, a arma de arremesso dos tempos correntes, ele é uma interrupção perigosa no fluxo continuado de evocações pessoais. O insulto, outrora, era resolvido com espada ou pistola. Seja como for, tinha que ficar marcado na carne, e a sua retratação tinha que ser visível para o todo, de forma a que não restassem dúvidas ou que o sujeito insultante desaparecera (pela morte) ou que ficara indelevelmente marcado. O duelo encarregava-se disso. O corpo pagava os destemperos da mente.

Actualmente, ao insulto foi sonegada a coragem. Até porque por vezes o acto, opinião, atitude  insultado é bem mais insultuoso do que a ignomínia lançada sobre esse acto, opinião, posição. Mas basta que esses ténues limites sejam franqueados para que a energia se recolha envergonhada num mea culpa apaziguante. Existe uma técnica bastamente eficaz. Quando criticado, escusa-te ao debate e responde com a indignação do homem cuja honra foi manchada. E isto da esquerda à direita, porque em matéria de debate, pese embora convicções avulsas contrárias, ninguém tem o exclusivo ético.

Quantas vezes nos confrontamos com situações em que os alvos da crítica fingem-se de virgens ofendidas para coarctar imediatamente a peleja argumentativa? Oh sim!, é método mais que comprovado: “não desço ao seu nível de insulto”, “as tuas acusações são insultuosas”, etc, etc. Pois eu digo que o insulto está do lado das relações “quentes”. Enquanto esta indignação (falsa, evidentemente) fleumática encontra-se do lado das relações “frias”.

Há uma certa violência em definir os parâmetros do insulto dentro de baias estreitas e determinadas pelo raquitismo das vontades. Mais violenta ainda do que aquela contida no próprio insulto. Os brasileiros, do povo, diria, mas não tenho a certeza, quando envolvidos num jogo insultam-se de tudo, sem que isso resvale para a ofensa. Esta ligação “à prova de insulto” é a característica de uma amizade robusta, que não fica abalada porque os termos aceitáveis, ou curiais, foram abruptamente fendidos. É isto que faz uma amizade medrar. Por isso desconfia sempre de pessoas (eventuais amigos, ou amigos correntes) que não se deixam insultar.

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