Skip to content

Pacific Airway

Dezembro 22, 2009

 

Considero que há um erro crasso em atribuir o valor, e o efeito, do pacifismo a um único homem: Ghandi. Para compreender porque razão o pacifismo de Ghandi resultou na luta contra o império britânico é preciso identificar as razões pelas quais ele foi mobilizador. O que nos leva à questão de saber se o acto pacifista em si tem poder para mover montanhas, ou seja, demover os poderes de subjugação. Muitos são os exemplos que negam esta capacidade: os monges budistas a imolarem-se pelo fogo nas ruas de Saigão não demoveram a destruição norte-americana do Vietname; e, mais recentemente, as greves da fome dos presos de Guantánamo, se bem que emocionaram telespectadores com lágrima fácil não se traduziram em mudanças fundamentais na política de guerra contra o Iraque – foi a eleição de Obama que trouxe um novo rumo, e mesmo esse ainda não muito definido.

Por conseguinte, Ghandi, antes de ser a invocação necessária de um pacifismo que se pretende teorizável, surge como o caso que transporta em si a differentia specifica e que permite compreender que o acto isolado para ter impacto deve estar integrado num complexo simbólico, social e político que o retire da normalidade de uma mera acção desarreigada. Ou seja, deve existir por relação à sua historicidade. É por isso que a noção de “acontecimento” em Badiou afigura-se-me como particularmente equívoca.

No caso de Ghandi quais foram então essas condições históricas que permitiram que os actos que este homem praticou tivessem uma tal ressonância política? Ghandi, apesar de ser um leitor de Ruskin e, no fundamental, um homem criado na cultura ocidental anglo-saxónica, é um dos interventores mais notórios naquilo que foi a reinvenção de um património cultural hindu. Segundo esta versão, a cultura hindu não era apenas uma cultura ancestral que reivindicava uma tradição mais alargada do que a sua congénere britânica, como teria nas suas origens revelado mais da “verdade humana” do que as tentativas de alta cultura dos seus dominantes. Ou seja, no espírito ancestral hindu havia mais verdade do que nas reelaborações cultivadas do conhecimento científico ocidental. O que esta oposição gerou foi uma guerra de essencialismos, sendo que o essencialismo reivindicado pelo passado hindu dotou a Índia de uma matriz identificatória em torno da qual a população recolhia a capacidade de se representar como uma nação unida contra um invasor que usurpava os seus valores tradicionais. Por isso, o impacte do gesto de Ghandi nunca pode ser visto como um gesto isolado, e ganhou a forma de um pacifismo solipsista por isso que a matriz identificadora da unidade indiana prescrevia.   

Em resumo, e cingindo-me ao tema da greve da fome de Haidar, não é a esta “que inverte a relação de poderes” como diz DO ou Rui Tavares – é que ela está integralmente inscrita na relação de poderes.

A tese de Zé Neves é igualmente insustentável. É uma tese estribada num maximalismo tão confuso como o resto do seu texto. Ao querer ver violência por todo lado, violência como constante antropológica e violência como propriedade estrutural, i.e., crónica às relações de poder, o Zé retira a si próprio (e aos outros que morderem o isco) a capacidade ética de separar um acto de violência admissível (o acto sexual) de um acto de violência inadmissível (uma violação). A menos que o Zé esteja disposta a considerar o segundo como apenas uma intensificação do primeiro, logo inerente ao acto sexual e simplesmente reduzi-lo a um extremo comportamental. Extrapolando (e muito) este raciocínio diríamos que o campo de concentração é apenas a forma extrema da violência da subjugação e como tal, ou o aceitamos, por que de qualquer das formas a sua gestalt encontra-se em germe no pequeno acto de violência, ou somos-lhe resolutamente indiferentes e convivemos com ele de forma panglosiana. Não me parece, mas posso estar enganado, que Zé Neves esteja disposto a aceitar qualquer uma destas premissas. Aliás, a posição de Neves no final do texto parece querer aproximar a violência de um certo inatismo: ao mencionar o acto sexual como aquele que perderia a sua “essência” (mas isto é uma generalização que nem o mais afoito sadomasoquista arriscaria fazer) sem a sua violência intrínseca, ao querer naturalizar a violência, escamoteia a possibilidade de separar a “boa” da “má” violência. Os termos parecem patéticos, mas correspondem grosso modo, à distinção operada por Arendt entre violência e poder: uma destrutiva, o outro criativo.

Ora o que está em causa no julgamento da violação como acto reprovável não é, nem pode ser, a naturalização da violência que, por ser inata, pode sempre irromper em qualquer altura e de qualquer maneira. O que está em causa é uma postura ética perante o próprio acto. Neste sentido, estamos cognitivamente preparados para fazer julgamentos éticos consoante uma determinada noção de “bem”. Não se pense que porque se trata de um mecanismo cognitivo ele é inato. As funções cognitivas são aprendidas, treinadas e postas em prática, de pior ou melhor maneira, como qualquer outra função física. Também não se trata de reivindicar uma espécie de fisicalismo ético que permitisse julgar de forma preensível o mundo que nos rodeia. Trata-se sim de uma dimensão intuitiva da justiça que nos assiste enquanto seres singulares ou pertencentes a colectivos. Esta dimensão intuitiva encerra noções partilhadas de respeito pela dignidade ou integridade próprias e alheias. Se ela não existisse, e, sobretudo, se ela não fosse comunicável a quem nos rodeia, o Zé Neves poderia olhar para uma violação e dizer que era um problema da violência larvar constituinte do acto sexual – sem que para isso rondasse os obscuros alçapões do sadomasoquismo ou sequer se sentisse incomodado com o sucedido. Porque se as relações de poder são inexoravelmente redutíveis ao exercício da violência, ou seja, se uma iron law imanente às relações sociais está aqui em funcionamento, então por que razão adoptar uma postura crítica perante as injustiças?

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: