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Cala-te com elas!

Dezembro 22, 2009

 

Existem actualmente uma miríade de programas radiofónicos que vão desde o mais inócuo presépio de natal para deficientes mentais até à festa de tupperware das tias de Cascais. No primeiro caso temos como exemplo ilustrativo um programa que coloca frente-a-frente os psicólogos Isabel Stilwell e Eduardo Sá. O que aí se diz é de uma banalidade confrangedora, de um paternalismo bocejante, de uma “tolerância” reconfortante – enfim, de um beatismo insuportável. O outro, onde curiosamente participa a mesma Isabel Stillwell, mediado por Pedro Rolo Duarte, um homem que se especializou no anódino jornalístico, chama-se Fala com Elas. O Fala com Elas é suposto dar uma imagem emancipatória de mulheres activas e pensadoras, que reflectem sobre as questões da actualidade, assumindo uma postura interventora, ou seja, que não se resumam a meros bibelôs para enfeitarem a sala de jantar. O resultado é precisamente o inverso. Não apenas a forma como abordam os temas são cheios de trejeitos da Linha de Cascais, como as suas posições geralmente formulaicas e de uma crítica absolutamente consensual, realçam ainda mais o estereótipo. Mas isso não é tudo. A dificuldade que patenteiam em expressar-se reforça igualmente o estereótipo – famosamente celebrizado por Aristóteles – segundo o qual a retórica pertence ao mundo dos homens (entre outras tantas coisas). Isabel Stilweell prima em ambos os programas no reforço dessa ideia. Não admira portanto que se babe, em explícito pathos amoroso, pela forma escorreita com que Eduardo Sá compõe uma ideia. Forma essa que nela é evidentemente exígua. Por conseguinte, nestes dois exemplos, abunda não apenas o mau pensar como o mau falar. Para que existem então? Questão que, julgo, ficará eternamente irrespondida.

Num registo completamente diferente, Pacheco Pereira, homem que está muito longe de ser parco em recursos retóricos, regressa com o Ponto Contraponto, desta feita em horário mais ou menos nobre. Neste espaço a retórica é a natural coadjuvante da falácia. Detonando mais umas barras de dinamite de má catadura, PP explica-nos o que constitui o mau jornalismo, dando para isso o exemplo de uma peça sobre o Papa e uma sua putativa proibição do casamento entre católicos e não católicos. Pelos vistos a informação deturpava o essencial das posições do Vaticano, deturpação que foi prontamente dissipada por diversos porta-vozes da hierarquia católica. Deixemos de lado o facto de a posição pontifícia ser, no mínimo, pouco clara e demos de barato que o jornalista não se preocupou de facto em aprofundar e cotejar a informação que lhe chegou. Um erro portanto. Isto, para Pacheco Pereira seria mau jornalismo. Um erro noticioso constitui assim mau jornalismo. Acresce que, na draconiana concepção de jornalismo advogada por PP, não bastaria ao Jornal I retratar-se na comum caixa de pedidos de desculpas que todos os jornais possuem, mas teria que o ter feito em grandes parangonas de folha de rosto. Reacção excessiva perante um erro jornalístico mais que aceitável, tendo em conta as inúmeras ambiguidades que o Vaticano tem alimentado sobre tantas matérias – pensamos nós. Mas qual quê: PP queria um acto de contrição público de dimensões mediáticas e, por esse facto, vê manipulação no comum artifício de salvar a face numa pequena caixa para onde são remetidos todos os pedidos de desculpa. Todos!

Não se compreende, portanto, a razão da estranheza indignada exibida por PP no Ponto Contraponto perante uma actuação perfeitamente banal no universo jornalístico. Acrescendo a isso a dimensão manipulativa que PP empresta ao facto, temos assim a mecânica de criação de um acontecimento mediático explicado às criancinhas.

Resta-nos portanto o comentário futebolístico. Tudo indica que é aí que se tende a concentrar a analítica mais apurada; e como os diversos lados estão geralmente representados, nenhum fica silenciado e o contraditório é sempre exercitado. Estranho país este que concentra a sua qualidade retórica e exegética no comentário futebolístico. Esqueçam o Rui Tovar e aquelas frases mal parturejadas (paridas, pois então) a que nos habituou. Hoje em dia, há no comentário futebolístico, comentadores dignos das diatribes entre Calisto e Libório, conquanto menos refinadas na figura de estilo e mais dadas a uma emotividade consanguínea.

Não obstante, por lá passam tiradas como “a essência do futebol é o passe” ou “não sei se será uma revelação, mas é sem dúvida uma sensação”; para não falar dos inúmeros ângulos – que só por defeito de hipermetropia parecem diversos uns dos outros -, em que são analisadas as proezas de Messi e do seu Barcelona.

Tornou-se evidente que há um excesso de palavrório no futebol. Um excesso bonito, não nos enganemos! O desporto rei já merecia uma retórica assim. De tal ordem que até a académicos e expertises de natureza variada concita este a atenção numa concorrência desbragada pela melhor heurística futebolística.

Um país que desbarata desta maneira os recursos linguísticos e cognitivos no futebol, é um país futebolizado. Ultrapassámos em muito a “brazilianização” que em tempos alguns temeram. Aliás, este epíteto deixou de fazer sentido enquanto ferrete negativo que se colasse a uma imagem nacional. Estamos em plena futebolização. Mas, que se lixe, porque antes isso do que ouvir a Isabel Stilwell e as suas prédicas sobre a multiplicação.

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