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A Leste nada de novo

Dezembro 11, 2009

Mészáros faz a sua defesa do socialismo leninista atirando as culpas para cima de Estaline. Tornou-se um hábito da esquerda utilizar Estaline como bode expiatório para tudo o que correu mal no socialismo real. Sempre me pareceu, que apesar de Estaline ser um bad mother fucker, não poderia nunca ter costas tão largas que arcassem com a tragédia e descalabro da experiência socialista a Leste. Neste caso, tratasse de o inculpar do desvio, da controversão, do desejo, expresso por Marx e Engels, depois reafirmado na Terceira Internacional, de ver nascer um verdadeiro internacionalismo proletário contra as burguesias nacionais e a consequente exploração imperialista. Contra o imperialismo, Lenine dixit, erga-se um movimento proletário internacional (na altura ainda não se usava a mais cómoda expressão transnacional) que extravase as fronteiras do Estado-nação e a sua mesquinhez nacionalista. Assim, ao contrário do preconizado por Lenine, o Cobra de Great teria inflectido essa tendência reforçando as tendências nacionalistas e imperialistas da União Soviética, esmagando subsequentemente as tentações independentistas das suas diversas repúblicas. O que norteava por essa altura os partidos comunistas europeus era a sua fidelidade ao projecto da União das Repúblicas Socialistas, e, diz-nos Meszaros, que por esse facto, em vez de termos patriotismos saudáveis emergentes na orla da mãe Rússia tivemos um império paternalista que institui as diferenças étnicas no interior de uma mesma entidade política. Fora das abstracções do internacionalismo proletário, qual era o conjuntura mundial com que Estaline na altura se confrontava? Por um lado uma Alemanha engrandecida pela subida de Hitler ao poder, com um projecto de hegemonia bélica, que ameaçava a Rússia e os seus satélites. Do outro, uns Estados Unidos, alimentando igualmente pretensões imperialistas, estendendo e aprofundando a sua influência a uma Europa enfraquecida pela violência da I Guerra, mobilizadora de um anti-comunismo larvar, assumindo-se, consequentemente, como um bloco ideológico em oposição às conquistas (fossem elas quais fossem) da Revolução de Outubro. Acrescente-se a esta conjuntura geoestratégica o aprofundamento e aceleração dos impérios coloniais francês, português, e em certa medida inglês, e temos que a última coisa que a União Soviética poderia fazer era desmembrar o seu “império” enfraquecendo-se na cena internacional. Não é difícil imaginar o que aconteceria caso Hitler tivesse encontrado essa mesma União Soviética desmembrada e depauperada. Por conseguinte, pese embora a mágoa com que Lenine via a Revolução de Outubro transformar-se gradualmente em mais um projecto estado-imperialista, a verdade é que dificilmente se prenunciaria, à época, outra solução. Não pretendo fazer a defesa de Estaline, figura pela qual não nutre grande admiração. Mas parece que se tornou demasiado cómodo inserir um corte – histórico, prático e até epistemológico – entre o projecto revolucionário de Lenine e a prática estalinista. Como se esta última, por si só, pudesse condicionar toda uma conjuntura internacional que era obrigada a levar em conta; como se esta existisse num vácuo geopolítico para o qual apenas interessava a revolução como movimento auto-sustentado. Nada mais falso. E nada mais conveniente para fugir à reflexão das consequências estruturais da Revolução de Outubro e as suas exigências geopolíticas, entre muitas outras.

(nada disto obsta a que The Power of Ideology seja uma das mais brilhantes obras vindas do Marxismo nos últimos 10 anos) 

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