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Da instrumentalização da ética

Dezembro 9, 2009

Pacheco Pereira, não quer perceber, ou é desatento (qual quê!) ou está senil e teimoso. Não quer perceber que o problema de MFL nunca foi aquilo que ela dizia, mas como o dizia; nunca foi a sua mensagem, mas a dificuldade em articulá-la; nunca foi a sua (putativa) rectidão inabalável, mas a sua conspícua antipatia e prepotência.

É verdade que Pacheco Pereira foi um dos cérebros que se afadigou em vender-nos MFL como um produto novo; como se a senhora nunca por lá tivesse passado e fosse uma aragem fresca no teatro político português. Da suposta “postura ética” estávamos nós cheios até ao tutano – tínhamos gramado com ela nas diversas mise en scénes de Dama de Ferro daquele produto que, garantia-nos Pereira, era a “coisa” genuína – Das Ding!!

Pacheco Pereira esqueceu-se, ou acreditou que esquecendo-se ele, provocaria uma amnésia colectiva no eleitorado, que a senhora foi execrada quando Ministra da Educação, anatemizada quando à frente do Tribunal de Contas (todos a detestavam) e marcou a vida política portuguesa como a figura mais tipificadora do pior que o cavaquismo trazia no seu seio. Até Cavaco percebeu que a sua personalidade teria que ser fundamentalmente transformada caso quisesse ser Presidente da República. O Cavaco ressurgido das cinzas foi um Cavaco conciliador, cordato, ecuménico – tudo aquilo que ele não é na realidade.

Pacheco incorre num erro sistemático que só pode decorrer da sua cegueira analítica: o genuíno não tem que ser genuinamente bom! Fosse outro o candidato do PSD contra Sócrates e tenho a certeza que a justa teria sido bem mais encarniçada. O problema é que MFL ainda estava na memória das pessoas pelas más razões. Mas não nos enganemos: essas razões eram “genuinamente” más, não foram fruto de uma qualquer incompreensão da bondade natural das intenções da senhora.

Aliás, é interessante constatar que esta barreira de fogo cerrado ao PS, traduzida nas inúmeras comissões para investigar negócios com os quais aparentemente esse mesmo PS e os seus homens de aparelho terão lucrado, só agora seja colocada em acção. Será que só recentemente a presidência do PSD começou a desconfiar de negociatas alavancadas pelo governo socialista? Será que eram tão ingénuos que deixassem passar quatro anos incólumes e que agora se obstinem a uma operação “mãos limpas” com epicentro no Parlamento? Poder-se-á obstar que agora é mais fácil dada a fragilização do governo com maioria relativa. Porém, encetar comissões é uma prerrogativa dos grupos parlamentares e nada tem a ver com a situação maioritária ou minoritária do governo. Por que razão o sentimento de ultraje ético foi todo concentrado neste particular período?

A minha interpretação é outra: não são as negociatas que impresionam a presidência do PSD; é uma estratégia de desgaste para levar à queda do governo. Que esta se escore numa putativa intenção ética faz parte da estratégia do PSD para o qual tudo vale para alcançar o poder. Afinal de contas, também o PSD deixa um rasto de negociatas e compadrios por onde quer que passe.

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