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A história dos Ós.

Dezembro 9, 2009

 

Uma fascinante polémica sobre a classe média portuguesa que, por artes do oculto, descambou em saber o papel ocupado pelas mulheres-a-dias nessa flutuante classe. Das mulheres-a-dias já quase tudo foi dito. Lembram-se da Clara Pinto Correia a zurzir as sopeiras da praia de Carcavelos? Era às mulheres-a-dias que se referia – e senão em toto pelo menos em parte, elas lá apareceriam.

Agora da classe média é que poucas análises sustentadas existem. A classe média em Portugal é um enigma. Aparentemente vive acima das suas possibilidades. Facto que dever-se-á mais ao ethos circunstancial dessa inefável classe do que propriamente a questões estruturais. Ou isso, ou então a apregoado miséria da classe média portuguesa não passa de boato, e infundado.

Jorge Sampaio, personalidade presciente, disse não compreender como poderia haver tantos sinais de riqueza num país cuja produtividade era, e é, tão fraca. Na altura, atribuiu-se a décalage entre a constatação e as fracas prestações económicas às injecções revivificantes de dinheiro europeu. Os sinais de riqueza continuam aí para quem os quiser apreciar, e não me parece que decorram de dinheiros da União.

A outra hipótese é que a classe média portuguesa seja de facto dupla, ou seja, uma classe cindida entre classe média muito baixa e classe média muito alta, chamemos-lhe assim por conveniência analítica. É para esta hipótese que me sinto mais inclinado. Com efeito, a classe média portuguesa é a todos os títulos atípica. Não funciona como charneira entre os ricos e os pobres posto que a classe média muito baixa ombreia com os pobres em inúmeras situações estruturais (desemprego de longa duração, por exemplo). Não é uma classe que se identifique como média, porque a classe média muito alta quer a todo custo sair desse espartilho e distancia-se quer nas práticas quer nos padrões de consumo da sua rival na distribuição de recursos. Há, dir-se-ia, um vácuo entre estas duas facções de classe, vácuo esse que a ser preenchido originaria uma “verdadeira” classe média.

Não obstante, esta classe média alta vive paredes-meias com a classe média baixa: nos escritórios, nas repartições, nos ateliers, etc. É a geração dos quinhentos euros a conviver alegre e frustradamente com chefias e superiores hierárquicos que auferem cinco mil euros por mês. O ethos das “duas” classes não pode ser mais divergente. Se de um lado temos uma facção que quer a todo custo preservar a sua condição de assalariado privilegiado; por outro, temos um grupo que se sente desmotivado, que não se vê a progredir nem em termos económicos nem em termos de carreira, encontrando-se, paralelamente, bloqueado em matéria de padrões de consumo. O diferencial entre a classe média muito alta e a classe média muito baixa tem vindo a alargar-se, enquanto os pobres, apesar de em crescimento em números reais terem tendência a aumentar, têm vindo, não obstante, a encurtar a sua distância em relação à mediana.

É por isso que estou convencido que o verdadeiro dilema estrutural português situa-se nesta clivagem entre as duas classes médias. Entre as duas classes médias há um fosso a separá-las, não direi intransponível, mas seguramente profundo. Recorrendo a uma analogia, seria a mesma diferença social que separa Odivelas de Oeiras e que pode ser cotejada eficazmente através dos preços das habitações. Designemo-lo pelo problema dos dois Ós. Este é um problema muito português que se esbate nos países do norte da Europa em virtude de uma melhor distribuição de recursos e de um acesso público aos bens indispensáveis, como a saúde, por exemplo.

Onde  ficam, afinal, as mulheres-a-dias? Depende de que classe média estejamos a falar. Se da muito alta, então é no mínimo capcioso, como aqui e aqui se faz, postular a sua pertença a esta escalão da sociedade portuguesa. Se da muito baixa, então é natural que a mulher-a-dias encontre os seus camaradas dos quinhentos euros e chegue mesmo a ultrapassá-los. A confusão, lançada por Paulo Pedroso e Fernanda Câncio, reside no facto de pretenderem meter tudo no mesmo saco. A uma classe média que aufere para cima de 3000 euros mês, nunca uma mulher-a-dias ascenderá. Ganhando dez euros por hora (por vezes menos), necessitaria de fazer 300 horas mês o que equivaleria a praticamente 14 horas dia (mês de 22 dias) o que manifestamente seria insuportável para um tal trabalho. A discussão está, por conseguinte, mal colocada. A pergunta deve ser a que classe média pertencem as mulheres-a-dias e saber se entre estas duas classes médias existem menos coisas que se partilham do que aquelas que as distingue.

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