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Deus escreve direito por linhas tortas

Outubro 23, 2009

Dantes, no após 25 de Abril de 74, quem confessasse amar a Bíblia arriscava-se a linchamento público com furibundas exéquias de revolucionários em curso. Corriam os tempos da injunção nietzschiana de Morte a Deus, os padres eram varados com maus olhares que lhes indicavam que andar na linha e no respeito pelo colectivo era caminho, e que pregar o reino do além e do omnipotente, era arrepiar caminho para porrada no focinho. Não que houvesse particular animosidade aos clérigos, pelo menos não no sentido em que ela foi materializada no tempo do “mata frades”. Mas a religião era algo de opiácio, e quem apanhado fosse a tecer loas à Bíblia poderia bem passar por traficante de substância ilegal e prontamente ser arrolado aos criminosos de delito comum.

Hoje em dia, quem diga que não leu a Bíblia corre o risco de anátema. É com orgulho que, da esquerda à direita, confessam que leram a Bíblia; não apenas foi esta lida, como à falta de mais expressiva adjectivação, foi igualmente devorada. A Bíblia passou a fazer parte dos livros de cabeceira dos portugueses, e quem não a leu, para que não seja apanhado nessa teia corrosiva de intrigas e torpes insinuações – teia essa que vai-se estendendo do local de trabalho às mais inocentes tertúlias entre companheiros de vida -, irá a correr comprá-la e lê-la com a voracidade de uma chaga a consumir a carne purulenta.

Estamos na iminência de termos os portugueses, povo que se orgulha de não ler um livro por ano, a devorar a Bíblia nos autocarros, nos comboios, e até nas intermináveis filas de trânsito que separam a outra banda da cidade branca, aproveitando o pára-arranca para ler mais um versículo. Até os putos no liceu, outrora apostados em cavilosas comparações de experiências alucinogénicas, votam ao desprezo os colegas que não tenham sorvido as palavras do Deuterónimo.

Entre adultos, a acusação de iliteracia bíblica ganha foros de opróbrio, de labéu, de infâmia, quando todos, mas todos sem excepção, poderão e deverão dizer, como o rapaz da Bgroselha, não, eu não leio o Capital, eu leio a Bíblia!  

Acusar outrem de não ter lido a Bíblia pode constituir facto para contra-ordenação; pode inclusivamente manchar a reputação pública e familiar do visado; pode destruir carreiras, lançar homens e mulheres no olvido da história, macular irreparavelmente os seus ente queridos e descendentes.

Chegámos a uma altura em que não ter lido a Bíblia, de fio a pavio, porque tresler ou leituras de Livros avulsos não é digno sequer de menção, impede tomar um cargo público, de fazer uma declaração de amor, de sair à rua, de  apresentar-se como candidato para a junta de freguesia, de comparecer a uma reunião de condomínio. E isto porque a interpelação andará na boca de toda a gente e poderá ser engatilhada quando menos esperarmos. De repente, num momento de distracção, alguém, ou alguma autoridade incorpórea, pode sempre apanhar-nos com as calças na mão, querendo tirar dúvidas sobre um versículo da Aliança ou sobre uma passagem de Mateus.

 E tudo isto por causa de um “Caim”.

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