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Outubro 7, 2009

Do texto de Daniel Oliveira no Expresso destaco duas coisas. Primeiro, uma esperança naif na união das esquerdas (novamente o espectro do Die Linke na Alemanha). Segundo, a ideia algo alucinada segundo a qual estas esquerdas podem fazer o governo PS pender na sua direcção. Analisemos o primeiro ponto. O BE tem pessoas que são estruturalmente e convictamente contra a linha partidária seguida pelo PCP. Não se trata apenas de desacordos pontuais nem de quezílias personificadas. Ao invés, é toda uma lógica e uma apreciação do exercício da política que difere entre estes dois partidos. Ao nível dos lideres – e porque houve um acordo tácito durante a campanha para as legislativas – esse diferendo não é notório. Porém, ao nível das estruturas partidárias e dos seus intelectuais orgânicos, esse diferendo é acentuadíssimo. Não é, todavia, algo exclusivo de uma clivagem entre os dois partidos; outrossim, começa a inscrever-se internamente e a abrir brechas dentro dos próprios partidos.

Uma certa migração – a que o Daniel se referia há tempos atrás – do PCP e dos seus quadros mais jovens, em direcção ao BE, é disso mesmo sintoma. Não se revendo no ancilosado (para estes novos intelectuais orgânicos) sistema de unidade partidária que é a matriz do PCP, insatisfeitos com estruturas demasiado fixas e hierarquias sólidas e, por isso mesmo, almejando uma ductilidade que a história pesada do partidarismo comunista não lhes outorga, procuram outras referências onde a sua ductilidade, por vezes ambiguidade, melhor se possa espraiar. Não terei tanta certeza como o Daniel que uma tal migração constitua uma perda irremediável para o partido donde migram. Agora o que parece certo é que esta migração tem as suas razões e que estas se prendem com uma incompatibilidade bastante objectiva entre os intelectuais orgânicos do BE e os do PCP. Isto seria de somenos se as estratégias partidárias fossem feitas pelas bases. A reacção poderia ser: deixá-los lá estar com as suas elucubrações que a gente, o povinho, vai tratando da vidinha. Tal não é de facto verificável.

Assim como os assombrosos acontecimentos recentes no seio do PSD (e nas suas margens) comprovam a eficácia e peso dos intelectuais orgânicos na vida dos partidos, não se escusam os partidos de esquerda, apenas porque o são, a este fardo. Notemos, sob pena de sermos mal interpretados que este fardo é imprescindível. É mesmo consubstancial às lógicas comunicacionais da vida política. Quem muito perora contra a lógica da representatividade e seus ditames ignora frequentemente que a política actual é 99% feita de comunicação. É justamente porque falta uma boa análise dos processos comunicativos, das suas distorções e fundamentos ideológicos (volta Habermas que estás perdoado) que esta crítica fica sempre aquém das práticas efectivas e remete-se elegiacamente para uma esfera política ideal. Muito Platão, pouco prozac. Em resumo, os intelectuais orgânicos continuam a ser o alfa e ómega da vida política.

Não são de desprezar as intervenções sistemáticas desta clique. Como diria o nosso presidente, não somos ingénuos. Nem mal nenhum vem ao mundo com estas intervenções: fazem parte das “gramáticas da política” (jogos de linguagem) que sistematicamente existem em confronto e que vivem justamente do delinear dos momentos de clivagem entre versões mais ou menos antagónicas da governabilidade. Contrasta, obviamente, com os novos territórios da política que são invocados como outras tantas linhas de fuga de um jogo que continua a ter a retórica como principal elemento da sua expressão. É de notar que o cerne do argumento se encontra numa diferença teórica relativamente ao conceito e lugar da subjectividade e que correndo o risco de a simplificar se pode enunciar da seguinte forma: uma afeição determinada à ideia de que a linguagem é um sistema impessoal de significação contra a noção de que a linguagem é um tipo de acção prática. Esta dicotomia, raramente revelada nas diversas enunciações de uma nova dimensão política, é todavia o que se encontra subjacente na maioria das contendas sobre a linguagem da política. Estas porfias não são sobre política, mas antes sobre a linguagem da política.

O segundo aspecto que o Daniel refere, relembrando, que as esquerdas unidas fariam pender a balança governamental para o seu lado, só resultaria se um dos partidos fizesse a maioria absoluta com o governo a ser indigitado. Ou seja, apenas se o BE estivesse na posição do CDS-PP. Somente assim poderia este agir como pressão na lógica da chantagem governativa e ter capacidade para impor a sua agenda. Por um lado, porque o PS sempre preferiu ficar refém da direita. Por outro, porque dando-se efectivamente o caso de o CDS perfazer a maioria com o PS, não precisa este último de mais nenhuma justificação para além da simples realidade aritmética. Convenhamos que pode parecer desculpa de mau pagador. Porém, como é expectável que às primeiras tentativas de acordos com o BE, a mesmo que tacteante e iniciática ligação se rompa definitivamente (neste caso a relação entre o Die Linke e o SPD alemães serve de perfeita ilustração). Teremos assim que este será o melhor argumento que assistirá o governo de José Sócrates – a da impossibilidade de fazer acordos à esquerda. Há quem acredite que isto será fatal para o PS e que clarificará a sua governação de direita. A meu ver, nem uma coisa nem outra. Fatal para o PS não será, uma vez que esta geometria parlamentar já foi experimentada no passado e até conseguiu perseverar… para depois cair abruptamente, mas por decisão do seu próprio líder. Muitos esperariam uma mesma postura da parte de Sócrates, mas nada autoriza a fazer esta suposição. Se alguma coisa, Sócrates vai querer provar que não é Guterres e mesmo que a conjuntura lhe seja inequivocamente desfavorável, o plebiscito que lhe foi dado dentro e fora do PS coloca-o numa posição de líder incontestável. Era preciso que primeiro caísse dentro do PS – como aconteceu em certa medida com Guterres – para que o desfecho imitasse a tragédia guterrista. Quanto a clarificar a sua verdadeira natureza de direita, também me parece um diagnóstico incompleto se bem que verdadeiro nas suas premissas. O problema é aduzir daqui que o eleitorado penalizará Sócrates por isso; quando o que pode acontecer com maior probabilidade é instalar-se a ideia segunda a qual à esquerda o país é ingovernável.

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