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A Governação Limiana

Setembro 29, 2009

O título é evocativo dos célebres acordos “limianos” na vigência do governo Guterres, mas também da condição limiana que o novo governo passou a ter: um governo às fatias que, a cada fatia deglutida, se irá esvaecendo. Durará dois anos, assim calendarizados por João Cravinho, após os quais se irá a jogo novamente e desta feita a parada será uma maioria absoluta. Por conseguinte, na mente estratega do PS, estes dois anos são um mero interregno. Será preciso que o governo – garantindo a famigerada governabilidade – aprenda a bolinar – quer à esquerda quer à direita. Há facas desembainhadas como ontem se viu no Prós e Contras. E há desejos de vingança que chispavam dos olhos cúpidos de Nuno Melo. Ah, o poder! E ainda assim, with great power comes great responsibility, não sei se será seguido à letra.

Se o horizonte temporal é de dois anos – assumido desde logo na cabeça dos governantes – mal se vê porque razão os partidos da oposição não continuariam a operação de desgaste do PS que puseram em prática de há dois anos a esta parte. E dúvidas legítimas se levantam sobre a boa-vontade e generosidade relativamente à estabilidade da nação. Cavaco, apesar de apregoar o contrário, nunca se preocupou muito com essa estabilidade, alimentando teorias da conspiração e silêncios incompreensíveis. Não era agora que iria mudar de rumo. Até porque o seu ciclo está a fechar-se e aqui vale a regra perdido por cem perdido por mil. Assim foi com o afastamento do Lima.

Dizia Pedro Magalhães, na noite das eleições, que o PS se encontrava na melhor situação logo a seguir à maioria absoluta – a da maioria relativa. Porém, esqueceu-se de acrescentar que esta maioria relativa era a que convinha mais a Sócrates: uma relatividade mitigada pela subida do CSD-PP a terceira força parlamentar. Outro pesadelo seria tivesse-se dado o caso de a maioria se encontrar toda inclinada para os partidos da esquerda. O PS encontra assim o seu aliado natural, assim como já tinha acontecido com Soares e com Guterres. Existem, é certo, dossiers complicados de gerir e negociar com o CDS-PP.

Ontem Nuno Melo foi explícito e quis rilhar os dentes a concessões feitas ao PS só para permitir estabilidade governamental. Pese embora a afoiteza do deputado europeu, CAA temperou o ânimo do mesmo recordando-lhe que se encontra em Bruxelas e que a liderança, tal como no tempo de D. João VI, encontra-se cá. Mas Nuno Melo não prepara nenhuma secessão e a última coisa que o PS quer é ficar refém da chamada esquerda radical. Prevê-se por isso um governo limiano com alguns incidentes mais desagradáveis. Até porque se o CDS-PP gosta de crescer, mais ainda gostaria de fazer governo de coligação… com o PSD. É nisso que ambos os partidos de direita irão apostar neste período experimental de dois anos.

Mas tudo neste país é Limiano, ou seja, é feio e pastoso. Senão observem-se as reacções do blog governo sombra de jovens à procura de tacho num futuro governo do PSD e as suas reacções de animosidade à líder ainda ontem entronizada… Talking about lealdades partidárias. E, mais curioso, estas reacções têm uma intensidade estranha: pelo seu carácter abrupto e intempestivo, mas também pela sua extemporaneidade. Apenas e só os apaniguados do PSD não viram o desastre que Ferreira Leite era, e foi. Confirmou-se, por conseguinte, aquilo que saltava aos olhos de qualquer pessoa. Ainda mais curioso é esta tendência de incensar Rangel como se de uma nostalgia de glórias passadas se tratasse. Caíram na esparrela que nem patos tontos ou, melhor, que nem animais esfaimados que entraram em delírio pela irrisória vitória de Rangel decorrente essencialmente de um descalabro momentâneo do PS. Por isso, ontem os pulinhos costumeiros nas vitórias do psd foram atacados de cãibras e a malta lá resignou os seus queques traseiros às cadeiras de veludo. A moral das tropas estava pior do que no Álamo. Mas calma, porque seria precipitado decapitar lideres a quinze dias de uma competição eleitoral quiçá tão grande como esta. Dêem portanto uma quarentena à pobre da Ferreira Leite e depois podem escorraçá-la a vosso bel-prazer. O que se seguirá? A minha aposta, como referi aqui, é o jovem e garboso Passos Coelho. Mas o PSD tem uma estrutura ancilosada e pode vir a sofrer de artrose crónica. Caia Cavaco para que haja mudança!

A subida do PP, como certos comentadores mais néscios aventaram, não se deve a votos roubados ao PS. Foi inteiramente conquistada ao PSD. Este por sua vez, partido de direita conservadora e com laivos autoritários, ficou em pânico com o erro de casting com que se foi defrontando ao longo da campanha. Os eleitores mais “sérios”, sendo o PSD um partido de fortes ideais e adesões ideológicas, piraram-se ao mínimo sinal de naufrágio e foram agarrar-se a esse escolho chamado Portas. Ratos portanto. E Portas aceitou-os de braços abertos e a eles pode agradecer o seu pezinho de dança, mais que provável, na governação da nação. Repare-se que alguns dignos fiéis do PSD se borraram com o perigo da esquerda insurgente e então ouviu-se repetido: ai que nos vêm tirar as nossas propriedades! Ai que lá se vão as casas de férias! Fujam que vem aí o papão comunista! E que melhor desfecho do que o largo e fagueiro amplexo de Portas, o homossexual tolerado porque populista acirrado.

Pois foi, foi de medo que se fez esta fuga. A identificação política não é complicada: basta dar uma curva e…já está. Actualmente (se é que alguma vez houve) não existe nenhuma diferença entre PSD e PP. Muitos, adivinhando a hecatombe que se adivinhava cair sobre a malfadada Manuela arriscaram uma fuga para a frente e deram o seu voto de confiança, aliás, de sufrágio medroso, ao ultra-conservadorismo dos populares.

E a esquerda? Nunca ficou tão debilitada na conjugação de forças. Apesar disso, aqui e aqui embandeira-se em arco. E percebe-se? Não. Façam as contas seus tolos de ocasião. Em 1987, a CDU obtinha 12,14%, a UDP 0,89%, o PSR 0,58%, o MDPCDE 0,57, o PCTP-MRPP 0,37, o PCR 0,33, e o POUS 0,16. Querem somar? Então vamos lá. Dá 15,04 %. Esquerda fragmentada está bem de ver. Porém, convém recordar a alguns desmemoriados que o resultado obtido ontem, que se cifrou nuns 17,3, em pouco excede a esquerda de há 20 anos. E o que dizer do número de deputados? O BE junto com a CDU perfazem 31 deputados. Pasme-se, era exactamente o mesmo número de deputados que a CDU tinha em 1987! Isto para não falar das eleições precedentes da década de 80, nas quais, apenas a então APU, se mantinha consistentemente acima dos 15%. Significa portanto que é uma ilusão ver uma tendência consolidada no crescimento da esquerda portuguesa. Depois de 87 a descida é acentuada, nunca mais a esquerda obtendo uma posição tão favorável como na década de 80. Poder-se-á auscultar nesta subida recente a tendência para uma ascensão consolidada. Todavia, quando se olha para os resultados da década de 80, 90, e 2000, o que se observa é uma curva podendo dizer-se que agora a esquerda se encontra numa trajectória ascendente após uma queda expressiva. Recuperação temporária ou tendência sólida?

Por outro lado, é com a entrada em cena do BE que o Partido Comunista começa a perder sistematicamente. Em 2002 sofre o seu pior resultado de sempre quedando-se por uns meros 6,94%; e é justamente nesta data que se regista a subida imparável do BE saindo este do marasmo em que se encontrava anteriormente, rondando sempre os 2 e 3%, ou seja capitalizando os votos do antigo PSR e das residuais forças partidárias de esquerda que se foram reduzindo a grupúsculos antes de serem absorvidas (ou convergirem) pelo BE. Donde, começa a ser insustentável a tese segundo a qual os dois maiores partidos de esquerda crescem em simultâneo e que daí não resultaria um jogo de soma nula. Um factor que sem dúvida tem pesado neste equilíbrio precário no seio da esquerda é certamente o geracional. A “CDU cresce e avança” só pode ser assumida se nos limitarmos a comparar com os últimos resultados eleitorais (2005), mas quando o escopo de análise se abre nada é mais falso. A CDU – antes PCP-PEV, antes APU – tem vindo a sofrer uma delapidação constante. Havendo uma coorte geracional, os mais velhos, que se mantém fiel ao núcleo do comunismo português, tenderá esta a esvair-se, por um lado, com o normal envelhecimento e substituição geracional, por outro com os trânsfugas mais jovens que procuram uma sede intelectual mais efervescente e dos quais este e este constituem belíssimos exemplos. Esta sangria – porque se trata de sangue novo e porque se trata de fluidificação intelectual e teórica – não vai parar. Sobretudo agora que o BE se assume como força superior à CDU. Por mais anarquistas, ou libertários que se afirmem, a tentação da ribalta é por demais aliciante para estes nóveis protagonistas da intelligenzia de esquerda não lhe cederem. Por conseguinte, a CDU soçobrará lentamente. Nada de muito vistoso.

Que estas duas forças políticas se possam fundir numa só, parece ser o destino inevitável, emulando assim o Die Linke, alemão; aliás, exemplo abundantemente invocado pelo próprio Francisco Louçã. Todavia, ao contrário do que diz Louçã, as perspectivas para o Die Linke estão longe de serem animadoras. Porém, vivem igualmente uma estranha euforia semelhante à que se vive por cá. Merkel saca uma vitória histórica podendo fazer a coligação que sempre sonhou, permitida pela estrondosa subida dos liberais. Grandes mudanças de rumo político são expectáveis da Alemanha após social-democrata e sem que o Die Linke protagonize um papel especial neste quadro.

Assim como aconteceu em França e na Itália, o resultado da crise na óptica do eleitorado europeu traduziu-se numa penalização dos partidos socialistas. Portugal fugiu a esta regra, porventura com a salomónica ajuda do voto útil. Porém, a força que a esquerda possa ter no parlamento é igualmente condicionada, quando não reduzida, à imagem dos outros parlamentos europeus. Não se compreende portanto a euforia de certos sectores; melhor seria a prudência necessária de quem já viu este filme e assiste a um remake com piores actores.

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One Comment leave one →
  1. ferreira permalink
    Maio 17, 2010 7:40 am

    “Para Os Trabalhadores da empresa casino estoril no final se fará justiça, reconhecendo a insustentabilidade de um despedimento oportunista promovido por uma empresa que, para além do incumprimento de diversas disposições legais, apresenta elevados lucros e que declara querer substituir os trabalhadores que despede por outros contratados em regime de outsoursing”.

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