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“Não vos provereis de ouro, nem de prata, nem de cobre, em vossos cintos”

Setembro 19, 2009

A polémica sobre os PPR de Louçã e as acções de Joana Amaral Dias e Ana Drago pode parecer uma minudência, até um absurdo, mas não é. Porventura, é das coisas mais sérias que se pode apontar à esquerda actual. E a questão é de uma leveza quase desconcertante: esta esquerda gosta ou não de ter e fazer dinheiro?

Não é preciso ir à conchichina, como explicita o desafortunado cartaz do mms, para saber que esta esquerda tem dinheiro. Louçã tem e faz muito dinheiro; o seu centro da complexidade no ISEG encaixa muita massa… mesmo muita. E com todo o mérito, acrescente-se.

Quanto a JAD e AD, segundo as notícias vindas a lume sobre os investimentos bolsistas, estas também gostam de fazer dinheiro, de preferência muito. O que se passa então? Bom, imagino que tendo o dinheiro no banco e tendo sido proposta uma capitalização a um juro bem superior num investimento bolsista, foi-lhes difícil resistir. Se olharmos para outros membros do BE – pessoas ligadas à comunicação social e quejandos – não nos custará certamente imaginar, ou especular, que façam bom dinheiro. E então, perguntar-se-á, não são pagos pelo seu trabalho como todos os outros? Porque razão têm estes que responder como se tivessem sujeitos a uma acusação sumária?

Parece-me óbvio que todos os outros, ou grande parte destes, não ocupam o seu quotidiano numa gesta anti-capitalista. Teórica.

E aqui é que reside o busílis. E se a rapaziada desta nova esquerda, confortavelmente sentados nas primícias da Terceira Via, habituados aos luxos que a sociedade de consumo lhes prodigaliza, estiver apenas apostada numa crítica teórica; ou, melhor ainda, estiver convencida que a crítica teórica é suficiente? Estaríamos perante um gritante caso de falsa consciência e de engodo supletivo.

Uma das defesas mais ouvidas por estas bandas, é aquela que enjeita a qualidade de franciscano. Diz assim: somos de esquerda mas não somos franciscanos. Ao limite chega ao ridículo de afirmar que sendo rico não se pode fazer nada quanto a isso, senão aceitar essa mesma condição…mas revolvendo-se-lhe intensamente a consciência. Por isso imagino a dissonância que deve provocar, à tarde bramir contra a especulação bolsista, off-shores e PPR, e à noite ir verificar a capitalização das acções em carteira no site on-line do BES.

A esquerda, se quer se mais do que um bando de parlapatões a desfiar bonitos e sonantes discursos, tem que ter uma resposta pronta e convincente para isto; não pode esta ser, “sou contra a poluição mas ando de mota”, ou qualquer coisa deste nível de banalidade.

Sou de esquerda mas não sou franciscano! – afirmam impantes. Certo. A lição do franciscanismo era simples: andamos a pregar a mensagem de Cristo, mas não retiramos as devidas consequências práticas dessa mesma mensagem. A mesma questão fundamental pode (e deve) ser colocada no seio da esquerda: andamos a pregar o evangelho da redistribuição, mas vivemos de acordo com os mecanismos que promovem essa mesma desigualdade que tão afanosamente combatemos…em teoria.

Repito, não me parece que seja de somenos, nem tão-pouco uma questão demasiado comezinha que mereça suscitar uma reflexão séria. A menos que seja tudo para inglês ver, e nesse caso, bardamerda para a esquerda…   

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One Comment leave one →
  1. Setembro 20, 2009 3:24 am

    A diferença é esta: a moral católica defende as virtudes da pobreza, a esquerda defende exactamente o contrário.

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