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Vala e a patetice do racismo subtil

Setembro 17, 2009

O luso-tropicalismo não é um discurso anti-racista, bem pelo contrário, ele é um discurso produzido para acomodar o racismo. Por conseguinte, encontrar correlações significativas entre a norma anti-racista e o luso-tropicalismo não é mais do que um truísmo.

A análise de Vala e al. é errónea em vários aspectos e desde as primeiras aplicações da escala de Pettigrew que labora nesses erros, desde logo sendo estes embrionários nessa mesma escala. Os erros são dois.

Primeiro, o luso-tropicalismo não é uma matriz que, mais ou menos intensamente, nós portugueses pudéssemos mobilizar quando confrontados com situações de discriminação ou de racismo. O luso-tropicalismo é um discurso, como tal não são as pessoas que são luso-tropicalistas, mas sim as instituições. Se percebermos que o luso-tropicalismo apenas é operativo através das instituições, compreenderemos melhor que as pessoas expressam simplesmente o discurso institucional e escapamos à armadilha da matriz que parece perpassar latamente no novo discurso da psicologização do preconceito, negando paradoxalmente o pressuposto do próprio Freyre que rejeitaria certamente a ideia de uma matriz geradora.

Segundo, a identidade nacional não é um atributo que como tal possa ser aferido por relação a outros atributos como sejam o etnocentrismo ou a heteroetnicização. A identidade nacional é uma identificação como aliás são as identidades, logo é mobilizável através de narrativas que não têm necessariamente que ser congruentes nem homogeneamente distribuídas, nem tão-pouco alheias à contradição. É isso que torna a identidade nacional histórica. É isso também que a filia num feixe de tradições. Neste sentido, luso-tropicalismo e identidade nacional não são dois tropos distintos de uma adesão primordial ao ingroup. O luso-tropicalismo contamina a identidade nacional portuguesa e sem ele nem sequer faria sentido falar da mesma. Quão ridículo é então aferir relações entre a adesão nacional e o luso-tropicalismo quando na realidade se está a medir rigorosamente a mesma coisa?

Estes dois pontos são essenciais para rebatermos a ideia (perniciosa, do meu ponto de vista) que existe uma relação entre luso-tropicalismo e anti-racismo. Sobretudo porque como o movimento negro brasileiro não se cansou de repetir, o luso-tropicalismo é uma forma “doce” de racismo.

Um comentário parentético julga-se aqui imprescindível. Deve-se notar que o conceito de heteroetnicização não é mais do que um ersatz para o mais trôpego e desajeitado “racismo subtil”. Assim como Vala et al. o definem, heteroetnização não é mais do que a rejeição e a inferiorização da diferença cultural do “outro”. Ora isto corresponde precisamente à velha definição de racismo subtil. Obviamente que se compreende que racismo subtil era um termo canhestro: afinal ou se é racista ou não. O racismo subtil colocava outra ordem de problemas, nomeadamente de índole normativa, que expressar-se-iam em questões pertinentes como: será o racismo subtil mais aceitável do que o flagrante? Será que podemos conviver alegremente com um racismo subtil não disruptivo enquanto o flagrante encerra a latência do conflito e da destruição da coesão social? E finalmente, em termos analíticos, que sentido faz ter uma expressão pretensamente descritiva mas que carrega tão grande peso prescritivo ao estar alavancada no iníquo e velho racismo biológico? Esta contaminação moral levou Vala et al. a substituir a velha noção de racismo subtil pela novel heteroetnicização. Com vantagens analíticas, evidentemente. Desde logo porque o conceito – embora, recorde-se, se esteja a medir rigorosamente a mesma coisa – possui uma afinidade muito maior com a terminologia psico-sociológica, retirando-lhe assim o cunho demasiado populista que impregnava a antiga designação. Considerações terminológicas à parte, Vala reincide – e fá-lo-á mais vezes certamente agora que a política é “publish or perish” – nesta ideia descabida que um racismo encoberto é melhor do que um desabrido. Só vai nesta cantiga quem subestima a capacidade de mutação do discurso racista e a sua condição conjuntural. E isso escapa inevitavelmente aos inquéritos com escalas de atitudes.

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