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Watergate à portuguesa.

Setembro 15, 2009

A notícia trazida a lume pelo Daniel Oliveira é duplamente preocupante. Primeiro, porque coloca um enorme ponto de interrogação sobre a relação entre jornalismo, direcções e partidos políticos, à revelia da estafada ladainha da asfixia democrática supostamente manipulada pelo PS. Até porque, no caso vertente, nem sequer se trata da qualidade (ou falta dela) do jornalismo de JMF. Outrossim, estamos em presença de manipulação política, pura e simples, uma espécie de Watergate ao contrário, que envolve o PR e os seus assessores, e, bem entendido, o Público e o seu director. Segundo porque a desculpa de JMF é excessivamente canhestra, indiciando que este está a salvo de todas as consequências que deveriam suceder, caso este imbróglio fosse devidamente escrutinado.  

Antes de mais, o PR deveria esclarecer se o seu apoio tácito à tese das escutas se mantém perante este desmentido ou não. Como nunca foi claro a respeito do assunto, pressupõe-se que sim. O que leva a uma suspeita mais que fundada: a dele ter tido influência na disseminação do boato. De outro modo, mal se compreende a intervenção pública de Cavaco no caso Moura Guedes, contrastando esta com o silêncio embaraçado do presidente perante um tal desmentido.

Vários foram aqueles que perscrutaram de imediato um Watergate português. Watergate talvez, mas de cima para baixo. Caso em que as escutas são inventadas para desacreditar um governo em vésperas de eleições, lançando-se a insídia através de um órgão de comunicação devidamente alinhado com o partido que mais teria a lucrar. Sendo as preferências do presidente Cavaco Silva manifestamente, e sem disso ter o mínimo rebuço, dedicadas ao sei próprio partido, cabe perguntar se a ilação mais natural a ser retirada não seria a de influência directa e deliberada nos resultados eleitorais por parte do PR. Esta também poderia ser notícia.

Invariavelmente, JMF faz estardalhaço com acontecimentos (ou putativos acontecimentos) que prejudicam o PS, mas é particularmente tíbio quando se trata do seu partido o PSD. Há quem considere que a solução para este estado de coisas meio turvo passa pela assunção política das linhas editoriais jornalísticas; uma espécie de American way, que tendo um jornalismo fajuto como o da FOX fica este automaticamente desculpado por ser abertamente tendencioso. Não penso que a solução passe por aí, e tão-pouco me parece que se ganharia alguma coisa com isso, pelo menos não ganharíamos em liberdade de informação, certamente.

Curiosamente, quando as sondagens não apontam a hecatombe para o PS que o PSD esperava ansiosamente, vem o Provedor do Público revelar aquilo que afinal já saberia faz tempo. Dá igualmente que pensar. Neste últimos tempos não tem sido difícil auscultar um certo fremir mais descontrolado das límpidas consciências jornalísticas; percebe-se um esforço latente para navegar nas dúvidas do oceano político, para bolinar na inconstância das preferências dos eleitores. É que a equação deve ser reiterada até à exaustão na cabeça da maioria dos jornalistas: não devo hostilizar nenhum dos dois lados, posto que não é certo quem ocupará o governo daqui a umas semanas. Bem entendido, estas são as dúvidas que assaltam os jornalistas cá de baixo, i.e., os tarefeiros. Porque lá para cima, no Olimpo mediático, puxam-se cordelinhos bem mais consequentes e poderosos – esses que tentam influenciar resultados eleitorais consoante a preferência do dono.

Assim temos que o Público, jornal de referência, se vê usado como veículo para lançar um boato de conspiração nas mais altas esferas do poder, e isto tudo com a conivência de JMF, de Belmiro, e de alguém “obscuro” da Presidência da República. Temos também que perante tamanho escândalo, este não figura nas primeiras páginas dos jornais nem sequer faça parte das agendas settings dos telejornais. Bizarro. Porque uma coisa desta natureza não configura apenas, como refere o Provedor do Público, um envenenamento da relação institucional entre governo e PR. A ser verdade, e parece que é, isto configura uma clara tentativa de influenciar a opinião eleitoral com o beneplácito do PR. É que o silêncio de Cavaco é uma caução ao boato e à sua não denuncia, como aliás já tinha sido a facécia da demonstração de preocupação com o estado da democracia portuguesa.  

Isto não é o Watergate – isto é digno das velhas ditaduras da América Latina!!

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